O trolha romântico

Acordei com as obras num dos prédios junto à minha casa. Com o humor matinal do costume, arrastei-me para fora da cama. O barulho infernal teve uma pausa e as traseiras da casa foram invadidas por música. Alguém se deu ao trabalho de aumentar o volume do aparelho, cujo som passou a dominar todo o espaço. Fiquei curioso, tal era o berreiro. Quando espreitei pela janela, lá estava um homem, nos seus 40, boné e manga cava, fumando absorto. Ligeiramente vergado sobre uma varanda esventrada, num dos muitos prédios em renovação na cidade. Em silêncio, pensativo, curtindo a melodia. Certamente que a apreciava, ou não teria aumentado o volume. Abandonei-o à intimidade dos seus pensamentos com um sorriso nos lábios, não o devassei mais. Afinal de contas, isto não tem assunto ou surpresa. Um trolha também tem coração.

O ano de Costa

O texto foi publicado no Jornal Económico (18 de Outubro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

A desorientação completa da oposição e o silêncio – aqui e além relutante – da esquerda confirmam: este é o momento do triunfo de António Costa. O aparente cumprimento do défice e o aumento do emprego conjugam-se com a derrota das sanções e uma parceria com os países do sul da Europa. Até episódios como o Euro 2016, a vitória de Guterres na ONU ou o sucesso no turismo dão ao país uma auto-estima renovada, que bloqueia a campanha de medo da oposição. O PSD afunda em todas as sondagens.

Apesar das fragilidades, a geringonça provou ser estável e pragmática. Não há ameaças públicas irrevogáveis nem mal-estar dos parceiros com o PS. A recuperação de rendimentos e algumas medidas simbólicas permitem à esquerda alardear conquistas. Mas na verdade, e apesar da redistribuição da carga fiscal, a redução do investimento público faz o orçamento manter uma linha de contenção – bem ao contrário do que estes partidos propunham.

É interessante que a oposição e o PCP concordam no diagnóstico. Jerónimo de Sousa alertou há dias que a ambição do PS de conciliar crescimento económico, devolução de rendimentos e cumprimento de critérios europeus é uma ilusão. Para a direita, isso significa seguir uma lógica austeritária para cumprir as regras da moeda única. Já para o PCP, implica questionar estas regras, propor a renegociação da dívida e a saída do euro. É certo que, sem os juros da dívida, o orçamento teria folga para apoiar a dinamização da economia e um programa social. Mas não há solução em breve.

O PS também não aplica o seu programa, que propunha uma maior redução de impostos e uma devolução de rendimentos mais lenta. Entre a espada da UE e a espada da esquerda, Costa faz navegação à vista e adia o confronto. Por um lado, repete a fórmula do orçamento anterior e anuncia medidas que só oneram parte do ano, como os aumentos das reformas ou o fim faseado da sobretaxa. Tal como em 2016, também limita o reembolso de dívida ao FMI.

Por outro lado, fará uma redução do défice estrutural superior ao exigido pela Comissão. Após a ameaça de sanções, o Governo não quer dar álibis à intromissão europeia. Maria Luís Albuquerque tinha razão quando dizia que ela não sofreria sanções. O governo PàF não cumpriu uma única meta e fez sucessivos orçamentos rectificativos sem qualquer reacção de Bruxelas. Mas Costa não terá espaço para falhar em 2017.

O triunfo nacional parece completo. O PS centrou-se no cumprimento do défice, arrastando para isso toda a geringonça. Receando Passos, a austeridade e o desmantelamento do Estado social, a esquerda prefere apoiar este Governo. E a direita enfrenta o descrédito. As previsões de desastre da oposição erraram todas. Sem programa alternativo, os partidos da austeridade virtuosa e purificadora e da devolução lenta de rendimentos exigem agora a redução imediata da carga fiscal. A austeridade deixou de ter defensores.marcelo-sombra

Mas, como para todos os campeões, há sempre uma fraqueza. A kryptonite de Costa é dupla. Com o fraco investimento público e a crise em vários mercados de exportação, a economia não arranca. E sem uma mudança política na Europa, esta trajectória presa entre espadas esbarrará contra a parede de um solavanco internacional. Sem uma articulação mais estreita, que vá além de uma coligação contra Passos, qualquer crise externa fará ruir a actual maioria.

Costa tem um ano para resolver estes problemas no meio de uma execução orçamental difícil. Em Outubro de 2017, cruzam-se os resultados desta estratégia, a definição do novo orçamento e as eleições autárquicas. Marcelo avisou: há estabilidade até aí. O popular Presidente já pediu até pela definição de uma alternativa na oposição. Se a geringonça não desatar este nó, o ano a seguir é de Marcelo.

O totem

O texto foi publicado no Jornal Económico (4 de Outubro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Neste momento, várias mulheres se apresentam a provas para os mais altos cargos políticos do mundo: Hillary nos Estados Unidos e várias outras na Organização das Nações Unidas. As mudanças sociais e culturais que abriram espaço para este cenário fizeram-se num passo lento mas aparentemente irrevogável. Há cada vez mais mulheres a chefiar empresas, já predominam nas universidades e ocupam lugares de direcção em organizações e na política. As jovens raparigas têm hoje uma diversidade de modelos para inspirar a sua representação e construir um novo tipo de ambições para o seu futuro.

A consciência sobre discursos, comportamentos e representações plenas de sexismo cresceu. E isso é útil para desamarrar a sociedade dessas estruturas e libertar as mulheres e os homens da tipificação de papéis impostos. Mas há também um ricochete inesperado em que a condição de género readquire de forma inversa uma função de promoção e anátema.

Na ONU, Ban Ki-moon lançou o mote. Era tempo da organização ser liderada por uma mulher. A declaração revelava parcialidade e interferência e usava a condição de género para deslegitimar concorrentes. O incoerente Secretário-Geral da ONU não tem qualquer legado de promoção da igualdade de género na organização. Mas veio estimular a oposição ao mais forte candidato, escolhendo, para o efeito, o único critério que este não poderia cumprir. A declaração não apoiava ninguém, mas desqualificava todos homens como candidatos – e Guterres em especial. O que pode justificar a candidatura de Kristalina Gregorieva a meio do processo senão o uso do critério de género para derrotar o candidato mais forte?

guterres-kristalinaSalvaguardadas as distâncias, a campanha norte-americana contaminou-se com alguns destes tiques. Hillary centrou a sua mensagem na experiência e na sua condição de mulher, fazendo da sua eleição uma peça da afirmação feminina. A instrumentalização desse argumento permite dispensar um debate centrado no mérito da candidata. Mas Bernie mostrou a sofisticação do eleitorado, quando quase a derrotou após virar o debate para a iniquidade social, denunciar a sua ligação aos poderosos e reduzir a pó o argumento de género.

Sim, Trump reserva às mulheres um papel decorativo e submisso e a sua base eleitoral encerra o fundamentalismo, o ódio racial, o proselitismo religioso e o conservadorismo. Mas reduzir esse eleitorado ao “white trash” sexista é uma ingenuidade. Trump explora a sua longevidade política, faz dela o bode expiatório dos derrotados da globalização e oferece-lhes um alvo para odiar.

Há um coro de gente desiludida com o ‘establishment’ e que vê Hillary como parte do gang dos poderosos. É por isso que Hillary enfrenta problemas na mobilização de apoios, mesmo entre os que se confessam anti-Trump. Para muitos deles, ela é o mal menor – em quem votarão no último momento, aterrorizados com Trump, mas sem confiar nela.

À esquerda, há uma espécie de ‘blackout’ da discussão política. Quaisquer críticas à candidata são tidas como manifestação de sexismo interiorizado. Esta reacção pavloviana coloca Hillary fora de escrutínio e desloca o debate para a natureza e o discurso de quem a critica – que passa então a ter de defender-se.

hillary-womanDurante muito tempo, ser mulher foi obstáculo para se ser candidata, mas agora parece que não se pode questionar a política de uma mulher candidata sem ser acusado de sexismo escondido. A pressão agrava-se ainda mais se o crítico for um homem.

A política também precisa de símbolos. Escolher um negro para a presidência norte-americana terá efeitos nas consciências a longo prazo. O mesmo acontecerá com Hillary, se (esperemos) ganhar as votações. Mas eleger Obama não libertou os negros do racismo e da exclusão social a que estão sujeitos. Reduzir isto à escolha de um totem é o que o povo americano parece querer recusar – e daí as dificuldades democratas. Afinal de contas, se bastasse ter mulheres como líderes para emancipar a condição feminina, Thatcher, Merkel ou Theresa May já nos tinham resolvido o problema.

3.5 na escala Mortágua

O texto foi publicado no Jornal Económico (20 de Setembro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Os partidos da geringonça articulam o apoio a um governo de gestão da crise do país com a narrativa de conquistas para a sua base eleitoral. Não é um exercício fácil e está exposto a contradições. Mariana Mortágua respondeu, recentemente, à provocação de Passos Coelho, assegurando que o BE não estava manso. Mas é impossível não sorrir quando o radicalismo se traduz no aumento de 30 euros no salário mínimo ou na redução de pequenos benefícios de alguns sectores económicos.

Entre a natureza reafirmada destes partidos e a sua prática face às condições actuais, há um desconforto. Os desafios do país em 2015 não são diferentes dos de 2016: desaceleração económica dos nossos parceiros comerciais, regras europeias apertadas, taxas de desemprego elevadas, pequenez do mercado interno, fragilidade do sistema bancário nacional e europeu. Neste contexto, a um Governo que se quer manter no euro, resta aplicar uma estratégia económica, redistribuir a carga fiscal e conter o défice, na esperança de que isso nos defenda melhor da instabilidade dos mercados e da agressividade dos parceiros europeus. Ao mesmo tempo, tentar ganhar tempo e peso nas instâncias que decidem. Ao contrário do que os partidos querem admitir, muito do que aqui se passará não está nas mãos dos portugueses.

As coisas até não correm mal ao Governo. Evitou as sanções e viu a recapitalização da CGD aprovada; parece conseguir controlar o défice e aliviou os sectores mais duramente punidos na governação anterior. Descontando o efeito da crise angolana nas exportações, há sinais promissores na balança comercial (por exemplo, no mercado europeu). Mas a pressão mediática constante afecta os níveis de confiança e inibe o investimento. A lógica de devolução de rendimentos não funcionará se estiver desfasada de uma verdadeira retoma económica. E, por isso, o próximo orçamento terá de manter a contenção.mariana-imposto

Não é de estranhar que o BE cavalgue o simbolismo de algumas medidas, como a taxa sobre a concentração de património imobiliário. Mas seria importante falar para a base de apoio deste Governo com objectividade e sem triunfalismos, evitando que ela oscile entre o entusiasmo e a desilusão. O anúncio da medida ainda por fechar, que afecta um número reduzido de famílias, permitiu à oposição usar a sua impreparação para lançar especulações que alarmaram o país.

Em Portugal, a austeridade atingiu a classe média e poupou os mais ricos.  A taxação sobre o património de modo progressivo, em especial o de luxo, é uma proposta razoável e foi várias vezes recomendada por economistas para introduzir maior justiça fiscal e dinamizar o mercado de arrendamento. Tudo depende da sensatez da sua aplicação, evitando situações de dupla tributação. Esta medida parece afectar apenas os níveis de património que são inalcançáveis pelo cidadão comum, mas foi notória a instabilidade criada.

Em choque maior ficaram os parceiros de geringonça perante o anúncio (a reivindicação) da medida pelo BE, sem definição do modo de aplicação ou de uma estratégia de divulgação. A semana, aliás, foi pródiga em declarações do BE contra os ricos e o sistema, para serenar uma parte das suas bases. Mas, em contrapartida, há um incómodo do PS com a tentativa do BE liderar a geringonça de fora do Governo. A competição pela visibilidade e a instabilidade interna são coisas que uma solução política com agenda de devolução de rendimentos dispensaria. Ainda para mais, é apenas simulacro de instabilidade. Descontemos o entusiasmo de Mariana e o terramoto que tentaram criar: como vai o BE votar um orçamento de gestão (suave) do sistema e da crise?

Ganhar tempo

O texto foi publicado no Diário Económico (28 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A crise artificial da expectativa de sanções permitiu a Marcelo medir o pulso ao estado da geringonça – e ele pôs o país e a Europa a ouvir novamente a promessa de estabilidade da esquerda portuguesa. Com matizes e diferenças, todos salvaguardam o empenho no sucesso desta solução. Do que não nos falam é de um projecto de futuro.

Compatibilizar o Pacto de Estabilidade com uma estratégia de crescimento assente no mercado interno era um enorme desafio. Exigiria negociação em Bruxelas, alianças com outros países, bastante sangue frio. E alguma sorte. Navegar à vista e ganhar tempo não soa bem. Mas Portugal depende sobretudo de factores externos para o sucesso de qualquer política interna. A reacção nervosa de todos os quadrantes da sociedade face à ameaça de sanções revela a fragilidade nacional.

Os trabalhos de Costa estão dificultados por depender de um acordo tenso com uma esquerda de tom sindical e crescentemente anti-europeia. Mas o nó górdio que a direita queria explorar revela-se adiado. PCP e BE poderiam quebrar a geringonça, mas têm revelado um pragmatismo invejável. As suas exigências reafirmam a fidelidade ao seu eleitorado. Mas estes partidos mantêm o apoio a esta solução de governo que, apesar das contradições, lhes serve muito mais do que o regresso de Passos. O eleitorado agradece, como mostram as sondagens.

O PS procura ganhar tempo até que uma convulsão internacional lhe mate o programa económico e que o ambiente no país o lance para novas eleições. A legitimidade contestada no início do mandato foi recuperada por alguns sucessos que precisam ainda de consolidação. Adiar várias despesas para o segundo semestre permitiu combater o aperto europeu e neutralizar a oposição. Mas 2017 não será fácil e só um ambiente económico favorável permitirá encaixar os aumentos de despesa que aí vêm.

Ganhar tempo seria aproveitar esta experiência de cooperação para preparar desde já um projecto político que agregue estas forças no futuro e que vá além da recuperação urgente de rendimentos, pensões e salários. Um dia, a navegação de cabotagem já não nos serve.

O coveiro

O texto foi publicado no Diário Económico (11 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs causa repúdio geral, mas ilumina o seu percurso. Durão ocupou cargos de gestão da coisa pública, mas tratou de gerir a sua vida. Marcelo, no requinte ácido de um elogio à ascensão “ao topo da sua carreira empresarial”, assinala-o bem.

Há uma consistência grave no seu percurso. Candidato às legislativas, promete baixar impostos. Mas, empossado primeiro-ministro, foi o percursor da austeridade, abrindo uma crise nacional em contra-ciclo com a prosperidade europeia com o discurso do “país de tanga”.

Antes de sair, envolveu Portugal na cimeira das Lages e numa guerra criminosa no Iraque, que foi germe dos conflitos no Médio Oriente e do aumento do terrorismo. As provas que jurou ter visto nunca foram apresentadas – nem ao país, nem a um tribunal de crimes de guerra. Mas o serviço abrir-lhe-ia a liderança da Comissão Europeia pela mão de Tony Blair.

À beira dos referendos sobre o Tratado Constitucional, fez campanha pela Directiva Bolkenstein e pelo ‘dumping’ social. Os referendos chumbaram, a UE ficou presa a meio, com um mercado único e sem projecto político – exactamente como queriam os britânicos. E Durão sobreviveria: anulou o seu consulado e a defesa dos tratados, deixou no Conselho e na cacofonia europeia a gestão da crise do euro e das dívidas soberanas. Renovou o mandato, o caos instalou-se na Europa do sul, os contribuintes pagaram a factura e os especuladores recolheram os despojos.

Durão Barroso e Goldman Sachs são companheiros de uma mesma viagem, que nos mina o projecto europeu e a democracia das nossas instituições. Silêncios e opções em Bruxelas, coniventes com o sistema financeiro, fizeram dos banqueiros os vencedores da crise que criaram e dos povos meros cativos desta guerra.

Do mais ferrenho europeísta ao soberanista mais reactivo, quem ousa hoje levantar a voz em defesa de uma ideia de Europa, quando a Europa real é comandada por antigos e futuros empregados de banqueiros? Quem pode hoje defender este Grande Leviatã? O último a sair apague a luz.

Uivam os lobos

O texto foi publicado no Diário Económico (27 de Junho de 2016)bruno_carapinha

As sirenes soaram no continente com o anúncio do ‘Brexit’. Os britânicos, estupefactos e divididos, vêem as suas nações equacionar a independência, enquanto os principais partidos se desagregam. O directório europeu, de quem se esperaria ponderação, mostra desnorte e impreparação. Com despeito vingador, Juncker exigiu uma saída célere do Reino Unido. E os fundadores da União Europeia (UE) reuniram de imediato, consagrando uma Europa discricionária, feita a múltiplas velocidades, que impõe hierarquias entre Estados.

Este desastre não era inesperado, sobretudo após o espectáculo fúnebre das cimeiras da UE acerca do euro, da Grécia e dos refugiados. De forma contínua, estas lideranças fracassam na recondução dos europeus ao orgulho que já tiveram sobre os seus direitos e conquistas civilizacionais. O recuo no emprego, a recessão económica e a redução do bem-estar social não são meros efeitos inevitáveis da globalização económica; eles resultam de escolhas feitas pelos Estados e pelas elites políticas e económicas da Europa.

O projecto neoliberal da UE conjugou a desregulação económica e financeira com a destruição do Estado social, e tornou o Estado-nação numa correia de transmissão de um poder não eleito centrado em Bruxelas, em Berlim e no Conselho Europeu. Não poucas vezes, em especial com a crise grega, o carácter autoritário e antidemocrático deste arranjo foi exposto. Com fraca articulação entre representantes e representados e estando atolada numa gigantesca crise que se mostra incapaz de ultrapassar, a UE não tem hoje nem um programa de recuperação económica credível, nem uma estrutura política legitimada que reclame apoio popular ao projecto e justifique a sua manutenção.

EU leaders hold a one minute of silence to remember the migrant victims who perished while trying to reach Europe, prior to a round table extraordinary EU summit meeting, on April 23,  2015, at the European union headquarters in Brussels. EU leaders gathering in Brussels will consider launching a military operation against human traffickers in Libya, in a bold effort to halt the deadly flow of refugees trying to reach Europe by sea. AFP PHOTO / BELGA / BENOIT DOPPAGNE    =BELGIUM OUT=

Nos dois anos de negociação com o Reino Unido, recomenda-se muita ponderação estratégica. O futuro é imprevisível, mas uma coisa parece certa: esta UE não tem mais viabilidade. O voto dos ingleses inicia a desagregação do único projecto de cooperação entre os povos europeus que alguma vez conseguiu assegurar a paz e um alto nível de desenvolvimento económico.

Não sem ironia, a visão neoliberal que lhe causou a morte teve início no próprio Reino Unido de Thatcher. Nessa altura, como agora, esta política dividiu a população entre vencedores e vencidos. E os actuais vencidos (pobres, idosos e excluídos), ainda sendo grandes beneficiários da manutenção do país na UE, responderam com entusiasmo à ideia da “recuperação do controlo” do país e das suas vidas que a campanha do ‘Leave‘ soube explorar com mestria. Punir o governo, atacar os ricos, encontrar um culpado próximo para a sua situação mobilizou os mais desfavorecidos, mesmo em zonas de forte implantação trabalhista.

Mas impressiona também a paralisia da esquerda, bloqueada entre um aplauso ao ‘Brexit’ pelo repúdio à actual UE e o alinhamento com os sectores neoliberais num frentismo contra os nacionalistas. Capturada pelo consenso neoliberal, a esquerda não pode criar uma agenda que reabilite o que resta do projecto europeu. E é por isso que está a ser arredada de qualquer influência no processo. A discussão política que interessa aos descontentes não é a opção entre mais federalismo ou menos Europa. É de uma reorientação da sua política económica e social – tomada pelo Estado ou pela UE – que os europeus precisam de ver.breaking-point

A xenofobia tomou as rédeas deste referendo e tornou o nacionalismo o grande vencedor europeu. Quebrado o consenso europeu, é concebível nas consciências dos povos o fim da UE. Os partidos nacionalistas exigem a realização de referendos nos seus países. Pior que isso, o discurso xenófobo reclama agora um lugar no centro do espectro político. Já há nas redes sociais relatos de confrontos e admoestações a estrangeiros.

É arrepiante revisitar os anos 30, em que, como agora, o fracasso das democracias em fomentar a paz social e uma economia mais equilibrada alienaram sectores das classes baixas e médias para propostas nacionalistas e antidemocráticas. Nós sabemos onde isso já nos levou. Uivam os lobos em toda a Europa.

Partilhar o desastre

O texto foi publicado no Diário Económico (21 de Junho de 2016)bruno_carapinha

Ateada a fogueira por Cameron para ganhar as eleições, o ‘Brexit’ tornou-se fogo incontrolável. A velha ameaça de saída do Reino Unido, numa época de fragilidade da UE e do euro, pode desencadear a dissolução do projecto. Estas são águas novas, imprevisíveis.

Promessas de desastre e de decadência do Reino Unido foram feitas aquando da sua recusa ao euro. É do fracasso dessas previsões que se alimenta o entusiasmo de uma parte da City com o Brexit. Mas o erro de cálculo é grande.

Londres é a ponte entre a UE e os mercados financeiros internacionais. Fora da instável zona euro, mas com direito a negociar nessa zona e beneficiando dos acordos bilaterais com países terceiros – com as vantagens de uma UE com peso negocial superior –, a City é a plataforma perfeita para os investidores. Por isso atraiu as sedes de tantas instituições financeiras.

Alguns agentes londrinos dizem que a saída da UE os liberta das suas amarras regulatórias, podendo liberalizar (ainda mais) a economia e fazê-la crescer. E defendem que não implicará a restrição ao papel de Londres, de que precisam muitos dos investidores europeus. Mas não são esses os principais sinais.

O BCE perdeu recentemente a batalha judicial para restringir as transacções em euros a empresas sediadas no continente. A City respirou de alívio: se fosse adoptada, a decisão teria o efeito de um ‘Brexit’. Vários grandes bancos, incluindo britânicos, preparam a deslocação progressiva das sedes caso o ‘Brexit’ triunfe. As movimentações de Frankfurt, Dublin e Amesterdão para adquirir os negócios de Londres são claras: nada ficará como antes.

Mas na UE não há entusiasmo. O seu sistema financeiro vai fragmentar-se por várias praças. Com a construção europeia fragilizada, manter o rendimento de uma City à custa da zona euro seria preferível à desestabilização e dissolução que se seguirá a um ‘Brexit’.

Como no dilema do prisioneiro da teoria dos jogos, a melhor solução para a UE e Reino Unido seria cooperar e suportar os (poucos) danos e muitos benefícios mútuos. Mas numa Europa em que todos tentam passar os estragos para o parceiro do lado, só se partilha o desastre.

Aquém da ‘troika’, além da Constituição

O texto foi publicado no Diário Económico (12 de Maio de 2016)bruno_carapinha

O governo anterior quebrou o consenso da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE). A obrigação constitucional de criar uma rede de escolas públicas para dar aos cidadãos um ensino público, gratuito, universal, de qualidade, livre de orientações políticas e religiosas conviveu durante anos com a multiplicação de escolas privadas, pagas pelas famílias que optavam por aí colocar os filhos.

Os contratos de associação, dizem todas as leis até 2013 (as do PSD e CDS também!), eram excepções para suprir insuficiências da rede pública, num regime de supletividade. As turmas definiam-se anualmente, observando o histórico e as necessidades. Mas a redução de jovens no país e o alargamento da rede escolar tornou óbvias as duplicações e obrigava a uma definição.

A direita sonha com o modelo do cheque-ensino, que fez desastres noutros países, mas isso exigiria rever a Constituição (CRP). E Passos bem tentou. Bloqueada a via, usou a táctica do “pé na porta”. Atacou salários e prestações sociais, fez cortes perigosos na saúde e na educação, e propôs aos professores a emigração, a coberto da intervenção da ‘troika’. Mas recusou aplicar as medidas do memorando que exigiam “reduzir e racionalizar as transferências para escolas privadas com contratos de associação”. E, em 2015, a poucos meses das eleições, vinculou o Estado a uma política totalmente nova, passando os danos orçamentais para o mandato seguinte.

O conceito de projecção em psicologia ajuda a explicar a acusação da submissão do governo a interesses e à ideologia feita pela oposição. Com o problema identificado há anos e olhando o aperto das contas do Estado, que justificação tem o PSD e o CDS para apoiar a duplicação de financiamento para as mesmas funções do Estado?

É ao abrigo de que ideia do liberalismo que se defende o rentismo e a distorção na concorrência face a escolas privadas sem contrato de associação? A que agenda ideológica e religiosa se submete a direita que, ao arrepio da LBSE e da CRP, tenta fazer de algumas escolas privadas os receptores privilegiados de fundos públicos para lá de qualquer racionalidade de gestão de recursos públicos?

 

Sinais de fumo do tempo velho

O texto foi publicado no Diário Económico (5 de Abril de 2016)bruno_carapinha

Este fim-de-semana, assistimos a um exercício de sobrevivência do tempo velho. Bloqueado pela vitória sobre o PS, que foi ao mesmo tempo derrota face à esquerda, o congresso da confirmação de Passos Coelho é apenas um ritual vazio: adiou a mudança da direcção e da estratégia política.

Feito após a hábil saída de Paulo Portas, este congresso cava ainda mais fundo a diferença entre os dois antigos aliados da coligação. O CDS, com menos quadros e recursos, dá um ar de maior renovação e pragmatismo a lidar com o actual quadro político do que o PSD.

Mas o tempo novo do PSD também se anuncia, espreita entre as cortinas de fumo dos discursos laudatórios, auto-justificadores e sem crítica. As alternativas a Passos ocupam espaço público, preparam-se de fora. E o próprio Passos pensa na sucessão. A guerra de facções segue dentro de momentos.

Santana Lopes, ressuscitado para a vida pública pela mão de Passos, que lhe deu a liderança da Santa Casa da Misericórdia, tornou-se a novidade do congresso por participar nessa guerra de facções. O seu regresso foi incubado nos últimos anos, permitindo-lhe limpar a imagem. A sua ambição e intermitência são sobejamente conhecidas: da vice-presidência do Parlamento Europeu, a primeiro-ministro, presidente da Câmara de Lisboa ou líder do Sporting, Santana Lopes não termina um mandato, um programa. Ainda há um ano era um putativo candidato à Presidência da República; agora já é o possível oponente a Fernando Medina.

Para o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que está a conseguir criar uma legitimidade própria, fora da sombra de António Costa, este pré-anúncio é música para os seus ouvidos. Santana é um candidato experimentado e será temível em qualquer eleição. Mas um regresso de Santana a Lisboa seria visto como o regresso de um tempo velho, com a agravante de não ter as cartas do saneamento financeiro e da obra feita de Medina.