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Há esperança para a Vilaça?

Continua o debate sobre as palavras da líder da Associação dos Psicólogos Católicos, Maria José Vilaça. Recentemente, afirmou que aceitar um filho homossexual não implica aceitar a própria homossexualidade, que ela caracteriza como uma doença. Um homossexual seria o equivalente a um toxicodependente, que necessita de tratamento e cura.

As palavras fizeram furor e causaram indignação geral. A Ordem dos Psicólogos até abriu um inquérito – e bem! Mas João Miguel Tavares já veio fazer o branqueamento da questão, julgando legítimo o exercício da profissão com uma visão discriminatória, sob o pretexto da liberdade de expressão. Mas isto não é matéria de opinião! O argumentário punitivo, que vê a orientação sexual alheia divergente da sua como uma calamidade, de alguém com o estatuto de autoridade da sua carteira profissional não é o mesmo que dar um bitaite numa mesa do café, entre tremoços e uma cerveja. É inaceitável que se possa manter a situação. Se a OMS recomendar gesso e muletas para uma perna partida e um profissional propuser a amputação, também vamos dizer que é só uma opinião?

A abordagem de JMT é errada até no campo da mera liberdade de expressão de opinião. Na ausência de validação científica e do respaldo da OMS, a quantos profissionais de saúde é que o João Miguel Tavares toleraria o achismo reaccionário da senhora Vilaça? O que JMT na verdade nos diz é que, mesmo discordando dela e da sua ‘tontice’, ele vive bem com a ideia de que se possa ser psicólogo e ao mesmo tempo considerar a homossexualidade uma prática “não natural”. (sic) Imaginamos, portanto, que JMT também viverá bem com um docente de História no secundário promotor do nacional-socialismo. Ou que um assistente social que faz repetidos comentários racistas no exercício da sua profissão está apenas e só a dizer ‘tontices’ no exercício da sua livre expressão.

Poderia ser um equívoco. Ela tentou reverter no Facebook a torrente de protestos, dando nova interpretação às suas palavras. Mas os registos desta mãe de três filhos no Youtube revelam alguém que simplesmente não compreende o que é a homossexualidade. Com a sua caridade cristã superior e castradora, desligada do outro e auto-justificadora, diz que há esperança para os homossexuais. Mas o que tenta fazer é impor as suas concepções do que é uma sexualidade plena e adulta e hegemonizar sobre o outro, empurrá-lo de volta para o armário. Usa todo o tipo de argumentos anacrónicos, reduzindo a homossexualidade a imaturidade, perturbação mental, incapacidade de confiança ou entrega a alguém do sexo oposto e mera adesão a modas. Um chorrilho grotesco numa voz serena…

O minuto 2’30” mostra a sua agenda: uma desesperada tentativa de travar a libertação face à discriminação, de anatemizar e marginalizar os homossexuais. A partir do momento em que a nossa cultura defende e até incentiva ver a homossexualidade como uma coisa normal, as pessoas já nem sequer se põem a questão se será certo ou errado, se estão bem ou se estão mal, se é uma perturbação ou não. E então vivem-na como normal, o que faz com que cada vez se generalize mais. Sabemos que uma coisa que é errada, se a lei ou a moral comum a torna correcta, deixa de se pôr a questão, deixa de ser um problema. O que interessa não é o bem-estar dos pacientes. Ela quer que eles continuem a ver a sua orientação sexual como um problema e que a recusem. Vejam o vídeo.

O que parece passar ao lado desta discussão é a existência de uma associação de psicólogos católicos. A contaminação ideológica e religiosa da prática clínica, que deve ser científica e rigorosa, é inadmissível. Qual é a justificação para a sua formação? Para que serve, se não para fazer avançar uma agenda no sector? As redes sociais queimam a Maria José Vilaça na fogueira da indignação. E ninguém pergunta se a Conferência Episcopal Portuguesa se demarcou destas palavras. Pois… A vida do costume segue dentro de momentos.

O trolha romântico

Acordei com as obras num dos prédios junto à minha casa. Com o humor matinal do costume, arrastei-me para fora da cama. O barulho infernal teve uma pausa e as traseiras da casa foram invadidas por música. Alguém se deu ao trabalho de aumentar o volume do aparelho, cujo som passou a dominar todo o espaço. Fiquei curioso, tal era o berreiro. Quando espreitei pela janela, lá estava um homem, nos seus 40, boné e manga cava, fumando absorto. Ligeiramente vergado sobre uma varanda esventrada, num dos muitos prédios em renovação na cidade. Em silêncio, pensativo, curtindo a melodia. Certamente que a apreciava, ou não teria aumentado o volume. Abandonei-o à intimidade dos seus pensamentos com um sorriso nos lábios, não o devassei mais. Afinal de contas, isto não tem assunto ou surpresa. Um trolha também tem coração.

drawing on paper by Laurie Lipton

Eu carreguei num botão!

Perante a insistência do Linkedin, por acidente, pressionei um botão. Não pensei muito no caso, havia uma recomendação para aceitar o procedimento e a aplicação estava emperrada naquilo. Ainda procurei por um ícone que permitisse saltar a operação que me propunham, mas, por erro meu ou por excelente disfarce feito pelos criativos desta aplicação, não parecia evidente como sair do sarilho.

Vai daí, carreguei num botão. E foi como iniciar o Armagedão! Saíram disparados centenas de convites para me amigar na aplicação. Foram desenterrar contactos esporádicos de profissões antigas, e-mails que iam em mensagens de grupo em projectos internacionais, gente que mora a milhares de quilómetros de distância, pessoas com quem tive relacionamento amoroso e que agradeço não rever. A aplicação cruzou contas de e-mail profissionais e pessoais, os contactos telefónicos, o Facebook, o Whatsapp, as senhoras a quem comprei velharias lá para casa e o diabo a sete. Só não me foi buscar gente ao Tinder, porque não tenho conta. Ainda… O dia vai a meio e já recebi mensagens de várias paragens do globo a tentar reconstituir exactamente o nosso ponto em comum… Um embaraço.

big data

Isto deu que pensar. É um facto que a integração de dados e a forma como estas ferramentas nos apoiam no dia-a-dia nos conduz a uma existência mais facilitada. Já ninguém planeia com rigor a visita a uma cidade estranha, olhando mapas e fazendo cálculos de distâncias: ligamos o GPS e a aplicação diz-nos como, onde, quanto tempo. Já não há contactos ou fotos perdidas de cada vez que nos roubam um aparelho ou que este se estraga. Mas, por outro lado, esta história do cruzamento de dados que as aplicações realizam com a nossa indiferença tem de nos fazer pensar com mais rigor o que andamos a fazer com a nossa privacidade. Há todo um negócio a ser desenvolvido com base nos dados pessoais, com empresas especializados na sua recolha, tráfico e venda para fins comerciais. Bom, para fins comerciais e para fins políticos. O interesse neste tema parece ter despertado empresas, marketeers e instâncias de governo nacionais e supranacionais. E só muito lentamente chegam os utilizadores ao debate sobre a consequência de vir a pressionar um botão.

Qualquer entidade com meios e poder suficiente pode montar um sistema de vigilância sobre cada uma das nossas acções, sobre o que dizemos directamente de nós próprios e sobre o que não dizemos mas permitimos que se saiba de nós indirectamente. Observam que páginas observamos, que likes fazemos, que ideias partilhamos, que interesses temos, que orientação sexual vamos desenvolvendo, com quem nos relacionamos, a que horas estamos e onde vamos exactamente. As rotinas que vamos fazendo são registadas, armazenadas e no futuro serão até utilizadas para prever e descrever padrões de comportamento.

Em breve, será possível calcular com um grande eficácia onde estaremos em certa altura do dia ou mês e como reagiremos a determinada situação. Que a minha mãe saiba isto, é uma coisa. Que a Google, os sistemas de segurança e espionagem ou grandes corporações saibam isto é outra. Sobre mim, em 2016, é perturbador. Recolhido ao longo de anos acerca de um potencial primeiro-ministro, abre portas para um mundo assustador. O cenário de poder ter decisores políticos sujeitos à pressão de quem tenha ao alcance os registos de segredos, pormenores de vida, fragilidades e desejos íntimos abre um capítulo pós-democrático que não há software de contra-medidas que nos reconforte.

Quanto a mim, regresso às minhas aplicações. Tenho muitos pedidos de desculpa para fazer pelo spam causado. E vou precisar de reequacionar que aplicações deverei manter e com que nível de acesso aos meus dados pessoais.

Lisboa tem cores

Conheço a Ana Bacalhau há quase 20 anos. Foi na faculdade e na associação de estudantes que os nossos caminhos se cruzaram. Eu acabei a dirigir a organização e a ver à distância um percurso de aventuras musicais, em que se incluiu os Lupanar com colegas como o Gonçalo Tocha, por exemplo. Gente criativa e louca, saudavelmente louca, claro está. O Gonçalo, que me propôs a criação de um núcleo de cinema e vídeo, acabaria por explorar a paixão paralela pelo cinema e ser autor do Balaou e do premiado É na Terra, Não é na Lua.

Quando a revi, já tinha iniciado o projecto Deolinda, numa reinvenção da música portuguesa, em que perpassam sonoridades populares e tradicionais com uma roupagem mais eclética e temas contemporâneos, próprios da nossa geração e de uma vivência urbanizada. E lisboeta, da Lisboa cidade e daquela que vai da Azambuja a Setúbal e se vê diariamente empacotada em quilómetros de travessia apertada. A personagem tem a sua independência, não se perde em amores fatais, tem os amuos e as ganas de mulher tornada adulta na viragem do século. Mas também tem, claro, a ansiedade própria de uma geração educada e bloqueada que se reconhece aqui e ali um pouco desistente e inconsequente. Eu acrescentaria, portuguesa.deolinda

Num encontro ocasional com a Ana, disse-lhe que a música deles cheira a linha verde do metro, a que passa junto à Mouraria e que visita os bairros do Intendente, dos Anjos e de Arroios, onde casas com as comunidades de imigrantes se amontoam paredes-meias com populares e uma certa classe média portuguesa. Entre revisões de temas e a mudança imagética dos Deolinda, que foram limpando o xaile e as boinas iniciais, sente-se a influência da multiculturalidade de Lisboa. Ela ficou surpreendida e transigiu, reconhecendo o ecletismo.

Pois, na sua reinvenção, os Deolinda vão de metro agora até à Alameda e às Avenidas Novas. No vídeo delicioso que partilho, o ‘drama’ muito português da queixa sobre o clima (que desperta a inveja em toda a Europa) é explorado com ironia, com recurso a um som e a um guarda-roupa vintage. Fui levado de imediato para o mundo dos óculos de sol da Natércia Barreto. Fica o som de Verão, para tocar à guitarra e ser cantado entre amigos, naquelas tardes em que não há sol para ninguém. Já todos rogámos pragas a São Pedro pela mesma razão…