Perder, ganhar, ter razão

É uma realidade. O projecto Livre/Tempo de Avançar foi derrotado na noite de domingo. Não conseguiu eleger nenhum deputado e até perdeu 30.000 votos relativamente às eleições europeias. Face aos objectivos iniciais, o desapontamento é grande. Estas eleições foram feitas num ambiente muito difícil, de bipolarização, de aumento dos partidos e fragmentação do voto, com apagamento mediático das candidaturas alternativas, sujeitas à pressão do voto útil, fosse no PS ou no reforço do BE. Em círculos sem chance de eleição pelo Livre, o voto útil do eleitorado noutra formação de esquerda dominou. Mas há outras razões para o fracasso, algumas no âmbito interno, que fará sentido debater depois.

Estive fora da política desde 2002, quando a ligação ao PCP findou e a dureza da experiência num partido em ambiente de guerra civil me recomendava o recato. Durante anos não me revi em nenhum dos partidos, incluindo o BE, cujo funcionamento me parecia ser o de um conflito permanente e institucionalizado entre as suas facções. Isso foi evidente na liderança bicéfala e quando a Convenção do BE não foi capaz de eleger um líder. Sofrendo como os outros portugueses os anos de bloqueio da Esquerda e de governação intermitente da Direita, ansiei por um projecto que promovesse a convergência, que teria falhas mas também muitas oportunidades.util votar livre

Quando vi o Livre a tentar desafiar este estado de coisas, tratei de sair da clausura. Em rescaldo eleitoral contam-se os votos e não as vitórias morais. Mas não dou o meu voto, o meu tempo e o empenho como perdidos. O discurso sobre a urgência de uma convergência de esquerda nunca fez tanto sentido como agora. A campanha foi feita pela positiva sem atacar as outras formações de esquerda. O sentido ético, a consciência ecológica e o nascimento de núcleos em todo o país revelam uma dinâmica importante e uma implantação muito rápida. E a experiência de construção de um programa eleitoral de forma horizontal ou a definição de listas através das primárias é uma semente interessante para uma democratização da vida interna dos partidos.

Mas vamos ao nó político de sempre. O Livre/Tempo de Avançar falhou na eleição de deputados, mas tinha razão: quando dizia que a maioria social de esquerda deve dar lugar a uma maioria política; quando propôs uma Agenda Inadiável, para que os vários partidos de esquerda assumissem um acordo em redor de questões centrais como a reestruturação da dívida, a defesa das pensões e salários, a redistribuição da carga fiscal com alívio do IVA e do IRS, a suspensão das privatizações, para dizer ao eleitorado em que termos é que uma maioria de esquerda poderia vir a governar este país. O que temos de novo é uma maioria de esquerda no Parlamento, bloqueada e surda, com um governo de direita com Passos e Portas.

A diferença é que a composição desta maioria de esquerda mudou. Catarina Martins teve grande eficácia, nos debates e no contacto com os eleitores através dos média. O BE não parou no Verão e teve uma campanha forte. As mulheres especializaram-se: Catarina fez a comunicação política e Mariana Mortágua tratou da técnica. Era clara a mensagem: para o combate à austeridade, não se conta com o PS. Exposto o plano do PS na área das pensões, as intenções de voto no BE subiram. As duas boas comunicadoras não assustam o eleitor e algum era até votante na direita em 2011. Querendo mudar, este voto recusa premiar o PS, que culpa pela bancarrota do país.catarina 2

E Costa andou toda a campanha acossado pelo próprio programa e os disparates dos cartazes. Desalinhado o discurso anti-austeridade e as medidas liberais na segurança social e no emprego, aumentou a desconfiança face ao PS. As sondagens não mudaram e Costa deixou de ser alternativa. Para manter o país na mesmice, vale mais votar na esquerda, mesmo sem resultar numa solução de governo. A situação resultante dos votos é de facto difícil e pode mesmo resultar numa pasokização do PS. Veremos nos próximos anos.

É com agrado que vejo a reviravolta do BE: a porta-voz Catarina Martins a insistir com o PS para formar um governo à esquerda, com a maioria parlamentar obtida no domingo. O convite feito no debate com Costa surpreendeu. Estou sem saber se é sério ou uma jogada para esmagar ainda mais o PS na fase 2 da campanha eleitoral que teremos durante um ano. Se for sério, estou profundamente feliz com a reviravolta. Foi Catarina Martins que disse ser impossível uma coligação ou governo com o PS, ainda recentemente. Lembro-me que fez uma caricatura do Livre que apelidou de ‘CDS da esquerda’, quando este defendia um diálogo nas forças de esquerda para criar um governo alternativo à coligação de direita.

Dá que pensar. O Livre/Tempo de Avançar falhou o seu objectivo operacional (eleger deputados), mas o objectivo central está de pé: criar um governo de esquerda em Portugal. Se isso acontecer, esta semente germinou além dos votos obtidos no dia 4 de Outubro. Por favor, alguém vá acordar o Costa. Ele ainda pode fazer alguma coisa útil por este país.

Ana Drago de volta ao Parlamento? Livre/Tempo de Avançar

Temos boas propostas, abertura do partido aos cidadãos e o objectivo de pôr a esquerda a cooperar para impedir a direita de governar. E temos bons candidatos, como a Ana Drago, experientes e empenhados na defesa do Estado social e das realizações da democracia. Um voto no Livre/Tempo de Avançar é o voto útil e consequente.

Porque fomos quem propôs diálogo das forças de esquerda para a convergência. Porque queremos recuperar o país da austeridade. Porque queremos resgatar os indivíduos e as empresas em vez de resgatar a banca. Porque aliamos reivindicação e luta com o desejo de implementar um programa realizável. No dia 4 de Outubro, não elegemos um governo, elegemos deputados que terão de formar e apoiar um governo. E eu quero uma esquerda consequente e capaz de o fazer, com pluralidade de opiniões, que não fique bloqueada nos seus traumas e na defesa da sua pureza, nem fique seduzida pelo poder como se ele fosse um fim em si mesmo.

Olhemos para trás e verifiquemos quantas maiorias de esquerda no Parlamento foram desperdiçadas, sem que se trouxesse benefício aos cidadãos, que sistematicamente se viram governados pela direita. Voto de esquerda? É um voto livre, um voto de cidadãos fartos da mesmice em que o país se enredou e que serviu para nos capturar a vida e o presente. Voto útil? É um voto que não se perde, que acrescenta democracia ao regime e que porá a esquerda, que não quis derrubar as suas barreiras, a governar e colocar a direita na oposição. Voto de esquerda? Voto útil? É um voto que resgata o futuro. É um voto no Livre/Tempo de Avançar.

A ecologia é um eixo fundamental na candidatura cidadã

arvoresO LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR vai plantar 25 árvores no parque natural de Sintra-Cascais. É a nossa contribuição para apagarmos a pegada ambiental resultante da campanha eleitoral que realizámos. A nossa estrutura partidária é simples e os nossos recursos parcos. O impacto das nossas actividades foi muito baixo, sobretudo quando comparado com os partidos de grande dimensão. Concebemos uma campanha promovendo o consumo de materiais reutilizáveis e uma mobilidade optimizando os meios de transporte à disposição, numa lógica de consumo eficiente.

Avaliamos, com base científica e sistemática recolha dos dados, que a nossa campanha terá uma pegada total de 3 toneladas de CO2 (o equivalente ao CO2 que consumiriam aproximadamente 5 árvores através da fotossíntese). Com esta acção no parque natural de Sintra-Cascais pretendemos promover não só a reflexão sobre a importância da consciência do impacto das nossas actividades e do consumo eficaz, mas também uma compensação real sobre o ambiente. Por estas razões, a plantação será coordenada por uma ONG especializada, com espécies adequadas, num local que carece de recuperação e que nos dá garantias de manutenção destas árvores para que possam atingir o seu estado adulto.

Através desta acção reafirmamos também que o LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR luta por um desenvolvimento muito além do meramente económico, pretende uma sociedade justa e próspera que não delapide os recursos finitos nem destrua os ecossistemas, garantindo o direito das próximas gerações a usufruir desses recursos.

Manifesto: É tempo de mudar

É tempo de mudar.

Vivemos os piores anos da história do país em democracia. Anos de empobrecimento, emigração maciça, desmantelamento do Estado Social e assalto aos valores constitucionais. Anos em que a nossa dignidade foi posta em causa. Anos de retrocesso conservador nas escolas, de asfixia da criatividade, de desprezo pelo conhecimento, pela ciência e pela cultura. Anos de expulsão do país, por via da emigração forçada, das gerações mais bem preparadas que Portugal conheceu.

Este tempo tem de terminar. Mas o seu fim não pode corresponder a um regresso ao passado. É tempo de agitar as águas estagnadas da política portuguesa. De mudar mesmo a vida política e cívica nacional. Com a emergência de quem garanta uma governação ancorada nos valores da esquerda, livre de interesses estranhos ao bem público e com a coragem de assumir responsabilidades.

Votamos Livre/Tempo de Avançar porque consideramos ser a melhor garantia de que a governação de austeridade termina mesmo no dia 4 de outubro. E porque não nos resignamos a um mal menor. É certo que nos queremos livrar da direita radical que nos governa. Mas não nos chega uma austeridade moderada. Recusamos a continuação, mesmo que mais lenta, da decadência do país e da democracia.Também não basta a esquerda que se contenta com a confortável razão de não fazer parte das soluções que mudem a vida concreta dos portugueses.

A democracia precisa de se reinventar para respirar. Ao escolher os seus candidatos através de eleições primárias e construir o seu programa eleitoral com a participação aberta dos cidadãos e cidadãs, o LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR deu um corajoso passo para fortalecer uma democracia em crise. À linguagem paternalista e castigadora da direita não responde com populismo vazio de proposta. Responde com programa, debate e participação. Porque também é tempo da política e da cidadania serem mais exigentes. De salvar a democracia para que a democracia nos salve a nós.

Por tudo isto, e porque queremos que estas eleições sirvam para começar a vencer a resignação e mudar o país e a esquerda, votamos LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR.

Abílio Hernandez (professor universitário)
André Gago (actor)
António Pinho Vargas (músico, compositor)
António Teodósio (actor, encenador)
Bárbara Bulhosa (editora)
Boaventura de Sousa Santos (sociólogo, professor universitário)
Carlos Nobre Neves – Carlão (músico)
Catarina Mourão (cineasta)
Cristina Branco (fadista)
David Marçal (investigador)
Dulce Maria Cardoso (escritora)
Fernando Vendrell (cineasta)
Jacinto Lucas Pires (escritor)
João Leal (antropólogo, professor universitário)
João-Maria Freitas de Branco (filósofo)
Jorge Malheiros (geógrafo, professor universitário)
Jorge Vala (psicólogo social, professor universitário)
José Gigante (arquiteto)
José Manuel Tengarrinha (historiador, professor jubilado)
José Mário Silva (crítico literário)
José Mattoso (historiador, professor jubilado)
José Reis (economista, professor universitário)
José Vítor Malheiros (consultor de comunicação, ex-jornalista)
JP Simões (músico)
Júlio Machado Vaz (médico psiquiatra)
Marcos Barbosa (encenador)
Maria Augusta Babo (professora universitária)
Maria João Cantinho (ensaísta e poeta)
Pedro Vieira (jornalista)
Raquel Henriques da Silva (historiadora de arte, professora universitária)
Ricardo Araújo Pereira (humorista)
Ricardo Cruz (músico)
Rui Bebiano (historiador, professor universitário)
São José Lapa (actriz)
Susana Mendes Silva (artista plástica)
Vasco Pimentel (director de som)
Vera Tavares (designer gráfica

Livre/Tempo de Avançar: voto útil da esquerda

A campanha eleitoral foi esvaziada e tratará de nos entreter com fait divers, gaffes sobre números, manipulação de sondagens e estudos de opinião diárias que simulam a vitória da direita, pressionando-nos a um voto útil sem sentido, enquanto a liberdade editorial se traduz no silenciamento da diversidade política nestas eleições. Os pequenos partidos extra-parlamentares, que vão eleger deputados nestas eleições, são a grande novidade na renovação do regime. Mas tudo parece estar a ser feito para garantir que no dia 4 de Outubro o país ficará igual. André Freire, candidato em Lisboa do Livre/Tempo de Avançar, já denunciou a acção pouco democrática dos média.

As sondagens e os estudos de opinião divulgados são contraditórios e mostram que as projecções são inconsistentes e não são confiáveis, pelo que os resultados são imprevisíveis. Também revelam que PS e direita coligada retêm a maioria dos eleitores e que novos partidos entrarão no Parlamento, embora a dimensão desta mudança seja uma incógnita. Este cenário comporta enormes desafios: a direita sem força para manter a política destrutiva do país; um PS sem maioria e dependente de outros partidos para governar; uma divisão à esquerda entre partidos ocupados com o diagnóstico correcto da situação e a disputa do terreno entre si, mas sem costume de participar na construção de soluções.Cartoon-Maia-1550

Mas este cenário pré-eleitoral é perfeito para PS e PSD. Ambos têm a ambição de governar: o perigo da divisão e da ingovernabilidade do país reforçam o argumento do voto útil. Costa pede a maioria absoluta e a concentração do voto no PS (para evitar a instabilidade) e diz que recusará apoio a um governo minoritário de direita. Portas fala do risco de uma maioria negativa e estéril à esquerda, pois o BE, a CDU e o PS não se entenderão e o país ficará sem governo estável. Passos, ao contrário, simula receio de um governo de esquerda para agitar o papão do comunismo e agarrar os eleitores conservadores. Agora, embalado pelas sondagens que dão vantagem à direita, pede a maioria absoluta – como se acreditasse nisso…

O encontro com a realidade do país não deixa a coligação sonhar com vitória, mesmo que fingem acreditar nisso. O défice, a dívida, o desemprego e a penúria geral do país desmentem a narrativa criada, mesmo que Passos se rodeie de apoiantes para reduzir o contacto com o país real. Não há dia sem Passos encontrar um firme repúdio popular, desde os lesados do BES, aos reformados sovados por impostos e aos anónimos chocados com o primeiro-ministro. A mais célebre opositora, a senhora de cor-de-rosa, tornou-se uma estrela nas redes sociais. E ainda ontem no mercado de Setúbal se ouviu sonora indignação.

Para que tudo fique nas mãos dos partidos que nos conduziram ao desastre, os eleitores têm de acreditar no empate e mobilizar-se em redor do voto útil. O tal voto útil é na verdade inútil, pois apenas nos prenderá mais anos ao rotativismo apodrecido e sem alternativas políticas para o país. Portugal já experimentou todas as soluções de governos e coligações entre PS, PSD e CDS e nenhuma deixou boa memória. É por isso que a proposta de convergência entre forças para fazer da maioria social e eleitoral um governo de esquerda se tornou central. A iniciativa do Livre/Tempo de Avançar foi sempre ridicularizada, mas é agora adoptada por outros partidos. E isso é já uma primeira vitória deste movimento. Resta saber com que nível de seriedade esta adopção se faz.Ana Drago2015

Claro que um Parlamento bloqueado e sem maiorias pode forçar a realização de novas eleições pouco depois. Até hoje, os eleitores de esquerda foram votando no PS para eleger um governo (e sentiram-se enganados com o que o PS faz no exercício do poder sozinho), ou votaram nos partidos da esquerda, para ver o seu voto retido numa oposição permanente, que nunca chega a aplicar o programa que apresenta. Mas após estes terríveis anos de austeridade, ninguém nos perdoaria que não fizéssemos da maioria do dia 4 de Outubro uma oportunidade para desbloquear as relações da esquerda e a resolução dos problemas dos portugueses.

É por isso que o voto no Livre/Tempo de Avançar é um voto útil! Com o grupo parlamentar do Livre/Tempo de Avançar, chega uma força política ao Parlamento preparada para lutar contra as medidas e os sacrifícios da austeridade, que sabe que o sucesso dessa luta pode passar por assumir o risco de governar ou de apoiar soluções de convergência. Quanto maior for o grupo do Livre no Parlamento, maior a capacidade de influenciar o PS e CDU e BE sobre a urgência em começar uma nova fase da vida política portuguesa. No dia 4 de Outubro, não se pode ficar no sofá a ver a mudança a passar. Útil é votar Livre!

A eficácia de Catarina

Catarina Martins reinventou-se com grande eficácia. Quem não se lembra da postura arrogante e zangada com que falava, pode até enganar-se. Mas, talvez mercê dos seus recursos de actriz, a líder do BE apareceu nos debates bem preparada, mais calma, com controlo do tom da sua voz. E isso para benefício do Bloco de Esquerda, cuja queda ameaçava tornar-se muito séria.

Identificar e reconhecer as suas próprias falhas requer um esforço e humildade dos políticos que eles raramente têm. Costa será sempre Costa e Passos também. Atenuarão algo, mas a pequena provocação estala o verniz da dissimulação. Recordo a raiva no olhar de Passos quando Costa brincava: ‘não se enerve’, ‘disseram-lhe para sorrir, mas não tem razões nenhumas para sorrir’. Catarina, pelo contrário, foi seráfica, fitando os adversários, esperando o momento de ataque e fazendo-o sem transtorno da face ou da voz.

A sua campanha deve eficácia a outros factores. As discussões não tocaram no programa do BE, permitindo centrar o debate na acção do governo e nas contradições internas do programa do PS. Os média têm dado destaque especial às suas acções de campanha. E o BE também soube usar o medo. A táctica da coligação foi devolvida com eficácia por Catarina. A direita agita o medo que o desvio da sua fórmula austeritária nos possa lançar no desastre; o BE explora os riscos para a segurança social e as pensões escondidos nos planos do PS e da direita. Provando do seu próprio veneno, a coligação ficou muda. Costa protestou, mas não deu uma resposta convincente sobre a poupança de pensões de que fala o seu programa.

A acção na comissão do BES é um trunfo para o partido, que perdeu eleitorado após a moção de censura a Sócrates e a sua postura face à troika. O prestígio de Mariana Mortágua pode segurar a votação em Lisboa e até ajudar em Setúbal, onde a irmã Joana Mortágua lidera a lista, criando uma confusão para os que pensam ser a mesma pessoa (já conversei sobre isto com vários eleitores!). Mas de facto Catarina tem mérito: refreou algumas das suas dificuldades e liderou com bastante eficácia os debates e a campanha. E ainda bem! Interessa vir a ter um parlamento reforçado à esquerda.gemeas

Claro que, para que tudo mude, é preciso uma esquerda sem medo de governar. A ambiguidade do BE tem sido constante, com recusas e aberturas pouco conclusivas. O Livre/Tempo de Avançar propôs a Agenda Inadiável a partidos com acção anti-austeridade para criar a dinâmica de convergência, impedir o apelo ao voto útil e viabilizar a governação à esquerda na próxima legislatura. As 50 medidas que ali propomos resultam de um esforço sério de traçar prioridades de uma governação que recupere o país da austeridade, mas Catarina Martins acusou o Livre de ser o CDS da esquerda.

A questão da governabilidade do país é central e Catarina, a eficaz, sabe que isso está na cabeça dos eleitores. No final do debate com Costa, Catarina surpreendeu todos e fez depender um apoio do BE a um governo PS de algumas condições. Costa nem respondeu e os apoiantes do BE viram aí a prova de que uma cooperação entre as esquerdas é inviável. Mas não parece que uma proposta feita assim fosse aceite pelo PS sem comprometer a sua táctica de conquista do centro político.

Catarina fez um número. Eficaz, é certo, mas um número. Vejamos então. Ou Catarina propôs apoiar o PS com base no programa mais recuado de toda a esquerda portuguesa (e então a acusação ao Livre de ser o CDS da esquerda tem de ser devolvida), ou a proposta feita não é sincera e Costa fez o que faria qualquer líder do PS: ignorá-la. A convergência de esquerda vai ser sempre um processo complexo e difícil. A história dos partidos divide-nos há muito e só uma grande disponibilidade negocial e consenso em áreas como o Estado social pode ajudar a iniciar o caminho. A grande vantagem do número de Catarina é que o BE, que nunca esclareceu em que termos aceitaria fazer a convergência, clarificou qual é o seu programa mínimo. Eu é que não imaginava que ele fosse tão mínimo.

7 e tal

 

deficeQuatro anos a fustigar os portugueses porque não podemos ter um défice superior. Cortou na educação, colocou a saúde em perigo e roubou-nos salários e reformas, enquanto nos esmaga em impostos, vende o património ao desbarato e destrói a economia. Tudo isto foi feito em prol dos mercados, coitados, que ficam nervosos quando os Estados gastam com salários e direitos sociais. Passos em campanha vem dizer-nos que um défice de 7,2% já não irrita os mercados se o gasto for feito a salvar bancos. Como se já não nos lembrássemos que uma parte da dívida e défices anteriores tem o nome do BPN e do BPP por trás.

Este é o resultado desta governação. 1,2 milhões de desempregados reais, a dívida pública em 130% do PIB, um défice igual ao do início da austeridade mais gravosa e menores condições para fazer uma recuperação económica e um resgate de famílias e empresas. E até antes da integração do resgate ao BES nas contas, o défice deste ano fica nos 4,7% do PIB, dois pontos percentuais acima do projectado pelo governo. A UTAO já diz no relatório que considerando o limite de 3% do PIB, a situação actual exigirá um esforço de consolidação sem paralelo. Ou seja, mais austeridade…

Passos tem ainda o desplante de dizer que o dinheiro está ‘a render’, como se não soubéssemos já que não vão conseguir vender o Novo Banco sem grandes perdas de dinheiro e sem ter que refinanciar o banco. E como se o Fundo de Resolução não fosse feito de dinheiros do Estado, que o emprestou aos bancos depois de se ter financiado com aumento da dívida pública… Chama-lhe mera estatística e nós sabemos que é mera mentira. Uma de muitas que Passos ainda vai contar até ao final da campanha.

Da pornografia

Passos Coelho encontra os piegas dos portugueses na caravana da PAF. ‘Pois, vê aqui? Não tem sobretaxa, nem deduções adicionais, e paga a taxa mínima do IRS’. O senhor Tecnoforma. O administrador das empresas do Ângelo Correia, sem licenciatura ou experiência de gestão. Um tipo que durante anos a fio não pagou as prestações de segurança social. Alguém levado ao colo todos estes anos diz a um idoso no fim da vida de trabalho esforçado, que até está isento de outras taxas. ‘Vim de Serpa aos 15 anos para trabalhar na CUF, em 1949. Cheguei a carregar sacas com quase 100 quilos e eu pesava pouco mais de 50. E hoje não tenho nada!’, lembra o idoso de 91 anos entre lágrimas.

Que se aguente, não é Passos? Isto não está para trabalhadores, está para os espertos. ‘Está a ver, o Salário Mínimo em Portugal é de 505 euros, bastante inferior à pensão que o senhor tem. E foi aumentado por nós o ano passado’, diz o primeiro-ministro responsável pela maior taxa de desemprego em Portugal, pela duplicação dos trabalhadores com salário mínimo, pelo maior fluxo de emigração desde a ditadura, pelo maior aumento de impostos de sempre, pela sucessiva tentativa de colocar em causa pensões, direitos sociais e Constituição.

Nestes 4 anos, os portugueses não vieram à rua demitir o governo; ficaram silenciosos e resignados a lidar com Passos como quem lida com uma tempestade – sabendo que ela passará e eles ficarão. Mas Passos para se manter, teria de vir até eles novamente. Estes 12 dias que ainda faltam até nos livrarmos deste governo vão ser duros de ver. Devem ser penosos para a coligação. Ela já não tem nada para oferecer ao país, já não pode voltar a enganá-lo da mesma forma. Para sobreviverem à guerra interna no PSD e CDS, Passos e Portas têm de vir a terreno de guerra ver os efeitos do bombardeamento fiscal e pedir o apoio aos bombardeados. Quanto tempo mais vão as sondagens encomendadas simular uma vitória?

Passos derrota Passos

Um dia vamos olhar para estes anos e perguntar-nos-emos como foi possível que a mentira compulsiva de um governante o tenha feito sobreviver politicamente 4 anos. O nosso sentido de dignidade há de sentir-se esmagado quando acordarmos deste torpor. Talvez exija um restauro que não se satisfaça com a indiferença à política e antes se manifeste com uma agitação que assuste os que têm beneficiado com a resignação portuguesa.

Até que tal aconteça, há indivíduos, pequenos grupos, alguns activos que continuam em espírito de missão. São uma pequena reserva de energia e de lucidez, a fagulha da ignição desejada. Luís Vargas volta a fazer serviço público. Este homem merecia um louvor público pelo que tem feito ultimamente para nos despertar do torpor. Colocar o Passos de 2011 frente ao Passos de 2015 tem um efeito demolidor. Deve ter dado trabalho, muito trabalho, mas desperta a memória ao povo português que agradece, de certeza. Eu agradeço desde já.