A fadiga imperial

O texto foi publicado no Jornal Económico (15 de Novembro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Quando Chamberlain regressou de Munique, agitando o documento com o compromisso de Hitler, a multidão que o esperava ansiosa ovacionou-o como um herói. Que diferença para a vida dos ingleses faria, afinal de contas, o destino dos checos lá longe, encravados no meio do continente? O primeiro-ministro evitara a guerra, aparentemente, e era tudo o que importava.

Afectados pela crise e por um sistema internacional instável, cada vez mais tributários da ideia de ordem dos autoritarismos europeus, os britânicos admitiam o fim do seu estatuto de potência dominante. Cooperar com os nazis, dar-lhes o almejado espaço vital, adiar o confronto, não lhes parecia assim tão mal. De Guernica a Bratislava, a mensagem foi ouvida: sois meros peões. A paz far-se-ia, se necessário, na cedência aos agressores, ao arrepio das regras internacionais e das organizações do multilateralismo.

Também os Estados Unidos preferiram o isolacionismo após a Grande Guerra. Barricados no seu continente-ilha, a sua segurança dispensava bem o caos europeu. Mas não se contêm as ambições alheias sem revelar uma determinação férrea para as travar. Quando os americanos acordaram do seu torpor, os alemães sobrevoavam a Inglaterra, encaminhavam-se para Moscovo e patrulhavam o Atlântico. A carnificina global serviu-lhes de lição. A política internacional passou a ter a omnipresença americana, para o bem e para o mal.

A nova superpotência fez um pacto de confiança com os seus aliados e criou uma gigantesca rede de parcerias e tratados. Os americanos tratavam da protecção dos aliados; estes não buscariam uma auto-suficiência militar que questionasse a sua supremacia. Num mundo nuclear, havia boas razões para aceitar o acordo. E o consenso intervencionista atravessou todas as administrações, republicanas e democratas, durante décadas. No bloqueio a Berlim, a ponte aérea americana serviu de aviso aos soviéticos e serenou as elites ocidentais: a defesa dos aliados era um elemento intrínseco da sua própria defesa.

Em cima dos escombros desse muro, a América teve a sua embriaguez unipolar. Mais do que a paz, o fim da Guerra Fria abriu-lhe o apetite para a expansão do seu domínio. O proselitismo liberal, o alargamento da NATO e o unilateralismo frequente criaram o ambicionado mundo novo de mercados abertos e desequilíbrios globais. Apesar do golpe do 11 de Setembro e da desaprovação internacional, é com confiança que se atola nas areias do Iraque.

Obama dá sinal da fadiga imperial na sociedade americana. O retraimento estratégico reconhece a impossibilidade de policiar o mundo perante a emergência de tantas potências regionais. Entre o Médio Oriente e o Mar do Sul da China, a opção tornou-se evidente. É no espaço aberto por esse retraimento que a Rússia refaz a sua afirmação na cena internacional, mesmo que as suas capacidades económicas e militares não correspondam à força da sua retórica.

No discurso democrata contra Putin, mas que tolera os seus avanços na Ucrânia e na Síria, e no anúncio de Trump de um acordo com os russos para centrar as suas atenções na China, há mais continuidade do que se imagina. O legado de Obama, ofuscado pela visão acrítica do seu estrelato, é um problema. Como se avaliarão as acções de Trump no futuro, à luz do uso actual de ‘drones’ ou do desastre na gestão da Líbia, Síria e outros dossiês?

Em defesa de Obama, reconheça-se que ele nunca proporia a proliferação nuclear entre aliados ou a dissolução da NATO, quebrando compromissos de décadas. A razão é evidente. O que exigirá uma Rússia autoritária em troca da cooperação na gestão dos problemas regionais?

A Europa, no fio da navalha, ameaçada pela dissolução interna, pela estagnação económica e pelo populismo, está cercada de problemas para os quais nunca criou soluções. Estas eleições têm de nos fazer questionar sobre o conforto do cobertor em que nos enredámos. Paralisados do Mediterrâneo à Síria, da Turquia à Ucrânia, seremos novamente tratados como peões. Trump tem razão. A Europa deveria estar a fazer mais pela sua própria defesa.

O Anti-Obama

bruno-carapinha_final-1-150x150O artigo foi feito a pedido como reacção aos resultados eleitorais e foi publicado no Jornal Económico (09 de Novembro de 2016)

Obama recuperou a economia em crise profunda, fez uma reforma limitada da saúde contra um Congresso hostil e apoiou a igualdade no casamento. Para uns, são avanços tímidos face às suas promessas de mudança. Mas, para outros, Obama é um Anticristo que foi longe demais. Esta campanha seria sempre sobre a necessidade de mudança. Mudança definitiva para uns; inversão do caminho para outros.

As sondagens juravam a vitória democrata num duelo Trump-Sanders e a derrota num cenário com Hillary. Bernie usava a fúria anti-sistema para um programa de mudança e cativava as classes baixas. As elites democratas ligadas aos interesses económicos estavam com Hillary e santificavam o legado de Obama. Fizeram da sua condição feminina o simulacro de uma agenda de progresso. Mas Clinton não polarizou o apoio.

A energia anti-sistema encontrou Trump e o seu discurso contra Washington. Na sua base de apoio estão os derrotados da globalização, os conservadores, a NRA e os supremacistas brancos. O discurso xenófobo e anti-imigração polarizou o voto branco de homens e mulheres. É o sinal do estertor de uma América branca em declínio numérico e económico, que mitifica um passado glorioso inexistente e recusa o presente e o futuro que o mandato de Obama implica.

Parte das elites exigia a mesma némesis anti-liberal de Trump: quer o proteccionismo económico e o nacionalismo para bloquear a competição internacional. A ideia de reduzir impostos aos ricos também é música celestial. O sistema tão odiado pelos brancos pobres mobilizados nesta eleição vai reforçar-se.

Agora sai Donald, o candidato. Entra Trump, o presidente. O personagem do show das eleições será filtrado no Congresso e na máquina partidária. As propostas de campanha cairão no esquecimento. E os republicanos darão substância às ideias vagas do Presidente numa posição única, controlando o Congresso e a maioria dos governadores e dos representantes estaduais. Um comentador exultava: É um Nirvana Republicano.

O anti-Obama não ficará por aqui. Vai nomear juízes para o Supremo Tribunal, reverter conquistas recentes e direitos antigos. O discurso da xenofobia e do racismo teve validação popular e as tensões raciais no país devem aumentar. E o retrocesso nos direitos na América dará poder às forças reaccionárias pelo mundo todo. Le Pen já saudou o resultado no Twitter e prepara-se para o seu teste. Não nos centremos só em Trump para não desvalorizar este movimento global de refluxo. Isto ainda vai piorar antes de melhorar.

A manhã seguinte

bruno-carapinha_final-1-150x150O texto foi escrito antes dos resultados eleitorais serem conhecidos e foi publicado no Jornal Económico (09 de Novembro de 2016)

É na “manhã seguinte” que se acertam contas com os erros da “noite anterior”. Raramente se cometem tais erros num estado de verdadeira inconsciência. Adia-se a decisão, oferece-se a indulgência, ignora-se a realidade de propósito. Mas a luz matinal é implacável – mesmo assobiando para o lado, não se foge para sempre às consequências.

Na política não é diferente. Recentemente, o Reino Unido acordou em choque com a saída da UE. Alguns dos incrédulos com o resultado votaram pelo Brexit – e queriam rever a decisão. Confiaram que o seu protesto em urna seria inconsequente graças ao bom senso dos restantes. A maioria não seria tola ao ponto de votar a favor…

Os britânicos ainda estão na sua “manhã seguinte”. Não há plano para a saída. Entre surtos de xenofobia e ameaças de divórcio escocês e irlandês, soubemos que os seus defensores públicos, como Boris Jonhson e Theresa May, eram opositores privados. O Brexit afastou Cameron da liderança dos Tories. A que custo?

A libra está instável e várias empresas migrarão para a zona euro. Os mercados tradicionais dos britânicos preferem a UE. E a tensão política cresce, com recusas da vinculação ao referendo e exigências de submissão do Parlamento à decisão popular. O desnorte permite algum humor. Os britânicos pedem uma vitória republicana para o mundo esquecer o seu embaraço.

Mas os Estados Unidos já perderam a visão de Trump como acidente menor. Em pânico, a elite republicana e o voto antecipado concentra-se em Hillary. A campanha de casos e de discurso do ódio e da divisão polarizou os campos políticos. Os republicanos prometem rejeitar Clinton na eleição ou com um ‘impeachment’. Entre os democratas dramatiza-se a vitória de Trump, descrito como um proto-fascista. Seja qual for o resultado eleitoral, a batalha vai continuar.

O fenómeno Trump é já a própria “manhã seguinte” dos americanos, após décadas de aumento das desigualdades. Os demagogos germinam melhor nas sociedades que sufocam as classes médias. Excluído da riqueza que se concentra na elite, o eleitorado busca bodes expiatórios. Opõe-se aos poderosos de Washington ou de Bruxelas, tidos como a mão visível de uma economia sem fronteiras que trabalha contra os seus empregos. Encontram conforto na ideia difusa de regresso ao passado, de fechamento de fronteiras e de hostilidade aos migrantes.

O centro-esquerda, integrado no sistema, não lhes dá a resposta ansiada. Em França, Le Pen avança nos velhos bastiões socialistas. O Brexit foi triunfante entre os votantes Labour. E a direita alimenta o ovo da serpente do populismo. O radicalismo do Tea Party abriu as portas à normalização de Trump, mas os seus apoiantes, passando a ser uma nova maioria, vaiaram Ted Cruz na convenção republicana.

Desde o início, a campanha foi marcada pelo tom anti-sistema. Bernie Sanders exigiu uma reforma no sistema económico e de Wall Street, após a gigantesca crise financeira. Trump agitou o repúdio ao sistema político. Quando Obama denuncia que ele não paga impostos, este devolve a acusação: não foi Washington a fazer estas leis? Obama não responde. Mas o eleitor vê a prova de como o sistema trabalha contra si.

Hillary é a imagem desse sistema e atrai a oposição de republicanos e dos liberais pró-Sanders. O velho senador tenta contrariar a tendência e mobilizar votos para consolidar a sua influência numa administração Clinton. Mesmo conseguindo, terá pela frente um Congresso dividido e a pressão contrária à sua agenda em ambos os partidos.

Na ressaca, com Clinton ou com Trump, o sistema tentará a assobiadela displicente, mesmo sabendo que as desigualdades já não se escondem com a aspirina do endividamento. Nesta América amarga, alguma coisa terá de mudar. Na “manhã seguinte” a tantas asneiras, a questão é saber quem vai sair a perder.

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Um futuro titânico

A história da integração europeia é velha como a própria noção de continente. Pela conquista, assassinato, casamento, aliança oportunista ou cooperação, a Europa foi marcada pelas várias tentativas de integrar Estados e populações em áreas cada vez maiores. Apesar das peripécias, há um movimento contínuo. Não defendo o determinismo histórico nem desconsidero o papel das lideranças e dos seus contextos. O curso expectável é por vezes desviado pelo inesperado, no choque de vários interesses. Mas há constantes importantes, que decorrem de condições geoestratégicas, estruturas económicas e divisões políticas, culturais e religiosas.

Os Estados no eixo do Reno e do Danúbio quiseram sempre controlar ou federar o continente à sua volta. Carolíngios, Bourbons, Habsburgos, Bonaparte e Hitler não são meros actores livres; eles encarnam visões da Europa, tradições políticas, interesses sociais e condições objectivas perenes. A Rússia tentou sempre alargar a influência às zonas de mares quentes e sair da prisão gelada da plataforma euroasiática continental. Na agenda dos Romanov, de Estaline e de Putin estas preocupações são comuns, apesar das suas diferenças ideológicas.

O Reino Unido isola-se há séculos nas suas ilhas, vigia o continente, dividindo-o pela guerra e a sedição, para não ser ameaçado por um poder consolidado. Da recusa de Isabel I à proposta de Felipe II ao combate em Waterloo; dos campos de Verdun à Conferência de Ialta, os britânicos agiram sempre para não sucumbir a um poder continental e assegurar o seu futuro.

A recusa em integrar inicialmente a Comunidade Económica Europeia e a sua adesão numa fase posterior são testemunho dessa mesma linha de pensamento e acção: soberanista, cautelosa e pragmática. Primeiro, tentando não engrandecer o projecto com a sua presença; depois, com a sua influência directa para ele não se transferir do campo económico para o campo político. Com grande sucesso, reconheça-se.

Um mercado único e forte, mas sem legitimidade democrática ou integração política viável parece o melhor de dois mundos para os britânicos. Com Thatcher que, se despediu com um veemente Não! Não! Não! à ideia da moeda única, da união política democrática e de um projecto federalista, foram lançadas as linhas de força da política britânica para a UE até hoje: liberalismo económico, fim do Estado-Providência, bloqueio ao projecto político, exigência de derrogações e excepções aos tratados, apoio ao alargamento a leste e reduzida coesão interna. O Reino Unido integrou apenas o essencial dos mecanismos europeus e nunca alimentou os sonhos de uma integração maior e mais completa.

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Mas as condições num mundo globalizado são outras. Para um país que já dominou metade do globo e se limita agora à sua esfera nacional, o acesso ao continente é como um lebensraum. Os parceiros da UE com diferentes perfis de especialização e custos de produção deixaram a Grã-Bretanha centrar a sua economia em sectores mais lucrativos e reforçar o saldo positivo na sua balança comercial. A libra conservou-lhe a autonomia, permitindo valorizar ou desvalorizar a moeda. A derrota da tentativa de excluir o país das operações feitas em euro fechou o triunfo. Londres renasceu exactamente por se tornar a sede dos mercados financeiros focados em negócios com a UE.

Para apoiar este bem-estar global concorre a relação especial com a antiga colónia, os EUA, que domina a ordem internacional. O seu estatuto como potência nuclear e o seu papel na NATO, que garante da paz e a segurança no contexto europeu, completam o quadro. A Alemanha é um gigante económico, mas continua uma pequena potência militar, sem um armamento nuclear próprio. Entre o chapéu-de-chuva nuclear, as suas capacidades militares próprias e uma prática intervencionista ao lado dos americanos, o Reino Unido mantém um papel central no equilíbrio da Europa.john_kerry_meets_theresa_may_july_2016

Para tudo isso funcionar, precisa da UE. É uma ilusão, que custará caro aos britânicos e aos europeus, a ideia de que um Estado isolado consiga hoje abordar e resolver os seus desafios, mesmo com uma rede de alianças e cooperações estratégicas forte. A elite britânica sabe isso bem. Entre apelos demagógicos de recuperação do controlo do país e de desvio dos recursos que os britânicos põem na UE para o sistema nacional de saúde, tanto Theresa May como Boris Johnson diziam em privado o oposto. A trama permitiu disputar a liderança dos conservadores britânicos a Cameron, mas o efeito é terrível.

Os grandes mercados internacionais preferem negociar com um bloco da sua dimensão e não vêem vantagens em conceder benefícios comerciais a um só país que não pode oferecer tanto em troca. As principais empresas do sector financeiro preparam a sua saída. A libra dá sinais de enfraquecimento. E o Reino Unido está sob uma tensão política crescente, misturando surtos de xenofobia e ameaças de ruptura dos escoceses e da Irlanda do Norte, tentativas de reverter o referendo no Parlamento e pressão sobre os membros do órgão para respeitar o voto popular. Não há uma saída risonha desta confusão. E no entanto, há humor. Já se pede aos americanos para votar em Trump e fazerem o mundo esquecer a sua trapalhada com uma asneira maior…

As consequências profundas do Brexit ainda não apareceram. Como um tsunami mortífero, o sismo acontece longe e silencioso, o epicentro está no fundo do mar. As ondas terão um efeito duradouro à volta, com o choque inicial e com o refluxo. Não creio que o desastre anunciado se limite ao Reino Unido. A aversão às instituições europeias ganha força em todo o continente, contra o seu défice democrático, o autoritarismo e a intervenção na vida interna dos Estados, bem como a sua incapacidade para resolver os problemas dos cidadãos. O pontapé de saída para a dissolução da UE foi dado. E nós sonâmbulos vamos, incrédulos e confiantes.

Este arranque de século começa a ter muitas semelhanças com o anterior. Discursos contra os estrangeiros e os imigrantes, nacionalismo e desigualdades sociais crescentes, desvalorizando as ideias e os sonhos de integração europeia. Até Boris Johnson se lembrou de invocar o Titanic, dizendo que o Brexit será um sucesso titânico! O navio impossível de afundar, construído com a confiança do progresso sem fim, é um monumento à cegueira e aos limites. A Europa, sem líderes à altura da situação, aguarda passivamente a invocação britânica do Art. 50º. Há quem queira dar uma lição exemplar aos faltosos e maximizar os danos aos britânicos. Uma lição comparável, talvez, à que se deu aos alemães em Versalhes. Nós sabemos como isso acabou.

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Quanto pior, melhor?

Há um mês atrás, escrevi que tentar ‘reduzir o eleitorado de Trump ao white trash sexista é uma ingenuidade. (…) Há um coro de gente desiludida com o establishment e que vê Hillary como parte do gang dos poderosos. É por isso que Hillary enfrenta problemas na mobilização de apoios, mesmo entre os que se confessam anti-Trump. Para muitos deles, ela é o mal menor – em quem votarão no último momento, aterrorizados com Trump, mas sem confiar nela.’

Desde a plataforma Black Lives Matter até muito do eleitorado de Bernie Sanders, há constantes recusas públicas de apoio a Hillary Clinton. A candidata exibe muitos dos problemas do sistema americano e da sua íntima articulação com a plutocracia. A base eleitoral de Sanders era muito sensível a questões de política económica e fiscal e à criação de serviços e coberturas próximas aos modelos europeus de Estado social. Bernie tem uma folha de registos impecável a esse nível, mas Hillary não. O argumento da eleição de uma mulher desligado da apreciação da proposta política como, se por si só, constituísse o ponto de viragem de uma revolução social é insultuoso para muitos destes eleitores.

Uma parte da fúria anti-Clinton deriva de um cansaço na escolha sistemática do mal menor sem ter grandes resultados. Uma outra parte é bastante irracional. Bernie aceitou não questionar a legitimidade do processo ínvio que o removeu da corrida nas primárias em troca de uma coisa que, para ele, era mais importante: o programa de Hillary. A candidata absorveu vários elementos da sua campanha nas propostas que agora apresenta e pode vir a tornar-se na presidente mais progressista das últimas décadas. A oposição das bases de apoio de Sanders a Clinton desconsidera a leitura objectiva do seu programa e alimenta-se do desdém que lhe têm.

Há um argumento duplo adicional que deve ser considerado. O fenómeno Trump aproximou a elite republicana dos democratas. Por um lado, isso insinua uma vitória inevitável de Hillary, que desresponsabiliza quem quer votar de acordo com a consciência. Por outro lado, isso faz questionar se o peso de Sanders será o mesmo depois da eleição. Anteriores presidentes e membros de administrações passadas, congressistas e líderes locais, muitos dos republicanos notáveis apoiam Clinton. Também os conselheiros e estrategas militares e sectores empresariais ligados ao partido do elefante e até a imprensa nacional se juntam à candidata. Presumir que uma candidata com esta plataforma implementará um programa marcadamente progressista parece improvável. Até que ponto é que os novos apoios de Hillary não vão condicionar-lhe a estratégia política?

Slavoj Zizek parte daqui para um argumento radical: usar Trump para ‘abanar as estruturas’. Ele faz a união com os próprios apoiantes de Trump, muitos dos quais não conhecem quaisquer propostas do candidato – e, conhecendo-as, provavelmente opor-se-iam ao que ele quer. O que os move é a imperiosa necessidade de quebrar o sistema, de trazer para a política americana um movimento que obrigue todas as forças a ir a jogo e a alterar o status quo. Bernie e Trump eram, de algum modo, o positivo e o negativo dessa mesma exigência de mudar tudo. Hillary é a encarnação desse sistema e tornou-se o alvo da hostilidade de todos os sectores.

O erro de cálculo de Zizek e dos liberais anti-Clinton é que nós estamos todos pendurados nas estruturas desse sistema. Um retrocesso nas conquistas e direitos na América dará poder às forças reaccionárias pelo mundo todo. Eleger um proteccionista vai autorizar as tendências de Estados autoritários de fechamento de mercados e competição por espaços económicos (e geográficos). Ter um defensor do retraimento, um isolacionista, a gerir o mundo é abrir a porta à aceleração da transição no sistema internacional – e ela nunca se fez sem conflitos graves.

Sim, a abertura de mercados e o comércio internacional não significaram desenvolvimento para todos e têm sido acompanhados por uma crescente desigualdade social e entre Estados. Mas combinar conservadorismo social, racismo, estagnação económica e políticas proteccionistas com o abandono da gestão de um sistema internacional em crescente instabilidade é montar uma bomba-relógio que nos traz as piores memórias dos anos 30. A fé nas forças internas do sistema americano para refrear Trump não nos isenta de um juízo rigoroso sobre a situação. Parece evidente que os filósofos podem dizer tanta asneira como os rednecks.

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No pelotão de trás

A Eurydice publicou um novo estudo sobre apoios e partilha de custos no ensino superior público na Europa. Comparar a relação entre propinas e apoios em tantos países é muito difícil. Os sistemas são complexos e envolvem taxas diversas, bolsas, fiscalidade, segurança social, apoios locais, práticas laborais, sistema bancário e a cultura do país. Há apoios directos e indirectos, para estudantes ou para os agregados familiares. Bolsas, empréstimos e isenções (para todos; dependentes de condição de recursos ou de desempenho académico) conjugam-se de formas muito diferentes.

A definição de co-pagamento é pantanosa, misturando taxas de inscrição e comparticipação dos custos do sistema. Os países usam diferentes nomenclaturas, designando instrumentos de co-financiamento de valor elevado (taxa de serviços ao estudante, por exemplo) como taxa adicional ou taxa administrativa, ou chamando propina a valores pouco mais que simbólicos. O peso do sector privado no sector (e as práticas de apoio aos estudantes dessas instituições) tem implicações grandes na definição do sistema. De que serve dizer que as instituições públicas não cobram propinas se, por exemplo, apenas absorverem uma minoria dos estudantes?

Por uma questão metodológica, o estudo integra todos os valores pagos pelo estudante e só os classifica como propina se o valor agregado ultrapassar o montante de 100 Euro. Depois, verifica o peso dos alunos sujeitos a pagamento globalmente ou desagregados por grupos relevantes e por condições de pagamento: estudantes a tempo inteiro ou a tempo parcial, nacionais e estrangeiros; para todos ou dependente de número de lugares com financiamento público, indexado à performance académica do aluno ou às suas condições e recursos.

O estudo evita debater e comparar o valor de pagamento. Isso exigiria olhar todo o sistema de apoios directos e indirectos, para lá dos estatais. Também forçaria uma discussão sobre custos médios de vida no país, despesas com a frequência do ensino superior (alimentação, livros, alojamento, deslocações), dispersão geográfica do sistema e práticas de deslocalização para estudar, nível de endividamento e condições de pagamento de empréstimos. Estes factores complicam a análise, embora acrescentassem utilidade e comparabilidade de políticas.

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Portugal não fica bem na fotografia: impõe propinas a 100% e tem uma baixa cobertura de bolsas (23%), reservadas aos mais pobres. Abaixo deste valor e com propinas para todos estão a Suíça, a Macedónia, a Bulgária e a Bélgica. Mas na rica Bélgica, os alunos pagam em geral 450 euro, que é menos de metade das nossas propinas. Na Suíça, o valor pode triplicar as nacionais, mas o Estado federal devolve a despesa em sede fiscal. As fichas nacionais permitem esclarecer.

Este quadrante negativo inclui outros países, na maioria, católicos. O gráfico exibe uma linha recta da Irlanda (60% paga propinas; 45% tem bolsa), França, Espanha e Bélgica francófona, até à Itália (88% paga propinas; 9% tem bolsa). O pior resultado é o da Islândia, que tem propinas para todos, sem bolsas. Mas o país anunciou a reversão dessa política. Os países bálticos, do centro e do leste da Europa cobram taxas a uma minoria, mas também só uma minoria tem acesso a apoios directos.

A política oposta é seguida por sistemas sociais e de ensino avançados. Os países nórdicos têm a gratuitidade associada a um alto nível de apoio a estudantes, da Noruega (49% têm bolsa) à Suécia (com 89%). A Escócia faz uma abordagem igual (71% com bolsa) e Malta tem o melhor resultado, com a universalidade dos apoios estatais ligada à gratuitidade do sistema. Outros sistemas gratuitos, mas com uma menor cobertura de bolsas, são a Alemanha, a Eslovénia, a Polónia e a República Checa.

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Outro factor diferenciador é o cálculo de bolsas e isenções de propinas. Os países do quadrante C tendem a fazer depender os apoios da condição de recursos. Já os países do quadrante B oferecem isenções e apoios a estudantes com um bom desempenho académico. Isso é uma prática potencialmente mais regressiva, pois as performances mais altas costumam concentrar-se nos grupos com um elevado capital económico, social e cultural.

Outro elemento curioso e revelador da influência da cultura sobre o sistema é o método de cálculo do apoio aos estudantes. Nos países do quadrante A, os apoios servem o estudante individual e tendem a ser universais, fazendo uma aposta no jovem enquanto o autonomizam à entrada na vida adulta. Mas nos países do grupo C, Portugal incluído, os apoios directos (bolsas) ou indirectos (benefícios fiscais) destinam-se à família, alinham-se com os seus rendimentos agregados e não presumem que o aluno possa, queira ou vá autonomizar-se tão cedo. Isso explica porque foi possível, durante o governo anterior, impedir os estudantes mais pobres de receber bolsas por causa das dívidas dos seus pais ao fisco ou à segurança social.

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Completando o cenário negativo, Portugal também está no grupo das propinas mais altas da Europa, valor que cresce ainda mais quando se verifica o poder de compra médio dos restantes membros do grupo (Irlanda, Espanha, Itália, Holanda ou Suíça). O Reino Unido cobra as propinas mais altas, mas o seu sistema contempla também uma ampla cobertura de bolsas.

Isto é quase como ver de cima uma colisão a preparar-se sem ter meios para a impedir. A situação portuguesa é séria, juntando um atraso histórico à incapacidade de acompanhar o ritmo dos restantes países. A OCDE regista apenas 23% de diplomados na população activa nacional contra a sua média de 35%. Isto já inclui os 33% de diplomados na faixa etária 25-34, que está abaixo dos 42% de média da OCDE.

Durante os próximos 30-40 anos, estes 67% de jovens sem qualificações superiores estarão no mercado de trabalho, reduzindo a especialização técnica média do país e ameaçando a sua segurança laboral e social, bem como a viabilidade dos nossos sistemas sociais. Vários países, que já têm avanço considerável sobre nós, aprofundam este fosso, reforçam os seus investimentos. Nós sabemos já que milhões de empregos desaparecerão graças à inovação tecnológica. Os próximos postos de trabalho serão criados onde existir uma mão-de-obra qualificada e com competências para lidar com as novas necessidades do sector privado. Se não reagirmos agora, não tenho grandes esperanças na nossa capacidade de atrair essa dinâmica.

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Kristalina passagem de pasta…

A notícia chegou, finalmente. Depois do desaire com a ONU, em que Kristalina Gregorieva serviu a estratégia germânica de minar a candidatura de Guterres, a comissária europeia acaba de ser ‘chutada’ para cima e vai ocupar uma posição no Banco Mundial. promoção é noticiada hoje, embora já se desconfiasse dela há algum tempo. Kristalina não correria riscos de ser humilhada publicamente na corrida pela ONU sem ter alguma coisa em troca.

A Comissão Jüncker, que já perdera outro dos seus comissários por causa do Brexit, tem sido confrontada com uma série de desastres e mostrou até agora pouca capacidade para lidar com os desafios: do Brexit à crise dos refugiados, da sempre adiada crise do euro à ausência de crescimento económico, da incapacidade de lidar com os avanços russos aos escândalos que expõem o próprio consulado de Jünker no Luxemburgo.

Alegadamente, é o mau ambiente e a inoperância da Comissão que provocam a mudança. Mas olhemos com atenção. A saída de Kristalina abre a porta a uma mudança de pastas. Günther Oettinger, o comissário alemão responsável pela economia digital (sim, o tal que atacou as políticas orçamentais portuguesas no Parlamento) vai passar a lidar com… o orçamento da União! O comunicado oficial da Comissão elogia Kristalina e apresenta esta mudança de pastas sem grande explicação. Mas nós sabemos bem o que ela significa. A Alemanha ganha força nesta Comissão – com tudo o que isso implica…

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Deutschland über alles

A imprensa está em choque com a intervenção de Schauble em BucarestePortugal estava a ser muito bem sucedido até ao novo Governo, disse o ministro alemão. À beira da discussão do OE português em Bruxelas e da medição dos resultados obtidos em 2016, o ministro volta a criar pressão pública. A táctica é velha, há um ano atrás fez o mesmo. Não se poderia esperar outra coisa deste cangalheiro da União Europeia.

Schauble confessa, aliás, ter dado um aviso a Centeno: Disse-lhe que se seguissem esse caminho iriam correr um grande risco e eu não correria esse risco. A Alemanha, que tem um enorme superavit na balança corrente desde 2013 às custas da crise dos parceiros europeus e ao arrepio das regras europeias, vem dar conselhos sobre como manter tudo igual para lhe assegurar essa vantagem… Tem a sua graça. Sob as ordens do ministro alemão, progressos enormes se fariam ainda para desmantelar funções sociais e privatizar outros activos.

Se Costa não fosse um político tão astuto, o destino nacional seria parecido ao dos gregos, não haja dúvidas. Este governo é bastante mais perigoso para os alemães que o de Tsipras. Apesar das suas dificuldades, está a implementar uma política alternativa, cumprindo os critérios insanos que a Alemanha, através de Bruxelas, impôs aos países da zona euro deprimidos economicamente. É o fim do TINA, se formos bem-sucedidos. E o poder alemão para impor a sua política aos restantes pode começar a ficar comprometido.

É natural que Schauble esteja sentido. Nos bons velhos tempos, esmagavam-se os gregos arrogantes e salvavam-se os humildes e obedientes, dando cobertura ao enorme insucesso do seu programa económico. Passos Coelho não cumpriu uma única meta e apresentou sucessivos orçamentos rectificativos. No entanto, em Bruxelas ou Berlim, dava para ouvir um alfinete a cair no chão, tal era o silêncio. O bom aluno, o país curvado sobre as orientações alemãs, parece agora uma coisa distante – que ingratidão!

Longo será o efeito da vacina que o terrorismo deste ministro representa para os europeus. Que futuro tem a ideia de construção europeia agora, quando nos recordamos destas imagens? Que cooperação de povos pode existir, se a experiência intergovernamental mais recente significou apenas a submissão de uns aos interesses de outros? Schauble tem nas mãos a morte desta UE. Mas não parece importar-se. Já sabemos que, para ele, é Deutschland über alles!

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O totem

O texto foi publicado no Jornal Económico (4 de Outubro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Neste momento, várias mulheres se apresentam a provas para os mais altos cargos políticos do mundo: Hillary nos Estados Unidos e várias outras na Organização das Nações Unidas. As mudanças sociais e culturais que abriram espaço para este cenário fizeram-se num passo lento mas aparentemente irrevogável. Há cada vez mais mulheres a chefiar empresas, já predominam nas universidades e ocupam lugares de direcção em organizações e na política. As jovens raparigas têm hoje uma diversidade de modelos para inspirar a sua representação e construir um novo tipo de ambições para o seu futuro.

A consciência sobre discursos, comportamentos e representações plenas de sexismo cresceu. E isso é útil para desamarrar a sociedade dessas estruturas e libertar as mulheres e os homens da tipificação de papéis impostos. Mas há também um ricochete inesperado em que a condição de género readquire de forma inversa uma função de promoção e anátema.

Na ONU, Ban Ki-moon lançou o mote. Era tempo da organização ser liderada por uma mulher. A declaração revelava parcialidade e interferência e usava a condição de género para deslegitimar concorrentes. O incoerente Secretário-Geral da ONU não tem qualquer legado de promoção da igualdade de género na organização. Mas veio estimular a oposição ao mais forte candidato, escolhendo, para o efeito, o único critério que este não poderia cumprir. A declaração não apoiava ninguém, mas desqualificava todos homens como candidatos – e Guterres em especial. O que pode justificar a candidatura de Kristalina Gregorieva a meio do processo senão o uso do critério de género para derrotar o candidato mais forte?

guterres-kristalinaSalvaguardadas as distâncias, a campanha norte-americana contaminou-se com alguns destes tiques. Hillary centrou a sua mensagem na experiência e na sua condição de mulher, fazendo da sua eleição uma peça da afirmação feminina. A instrumentalização desse argumento permite dispensar um debate centrado no mérito da candidata. Mas Bernie mostrou a sofisticação do eleitorado, quando quase a derrotou após virar o debate para a iniquidade social, denunciar a sua ligação aos poderosos e reduzir a pó o argumento de género.

Sim, Trump reserva às mulheres um papel decorativo e submisso e a sua base eleitoral encerra o fundamentalismo, o ódio racial, o proselitismo religioso e o conservadorismo. Mas reduzir esse eleitorado ao “white trash” sexista é uma ingenuidade. Trump explora a sua longevidade política, faz dela o bode expiatório dos derrotados da globalização e oferece-lhes um alvo para odiar.

Há um coro de gente desiludida com o ‘establishment’ e que vê Hillary como parte do gang dos poderosos. É por isso que Hillary enfrenta problemas na mobilização de apoios, mesmo entre os que se confessam anti-Trump. Para muitos deles, ela é o mal menor – em quem votarão no último momento, aterrorizados com Trump, mas sem confiar nela.

À esquerda, há uma espécie de ‘blackout’ da discussão política. Quaisquer críticas à candidata são tidas como manifestação de sexismo interiorizado. Esta reacção pavloviana coloca Hillary fora de escrutínio e desloca o debate para a natureza e o discurso de quem a critica – que passa então a ter de defender-se.

hillary-womanDurante muito tempo, ser mulher foi obstáculo para se ser candidata, mas agora parece que não se pode questionar a política de uma mulher candidata sem ser acusado de sexismo escondido. A pressão agrava-se ainda mais se o crítico for um homem.

A política também precisa de símbolos. Escolher um negro para a presidência norte-americana terá efeitos nas consciências a longo prazo. O mesmo acontecerá com Hillary, se (esperemos) ganhar as votações. Mas eleger Obama não libertou os negros do racismo e da exclusão social a que estão sujeitos. Reduzir isto à escolha de um totem é o que o povo americano parece querer recusar – e daí as dificuldades democratas. Afinal de contas, se bastasse ter mulheres como líderes para emancipar a condição feminina, Thatcher, Merkel ou Theresa May já nos tinham resolvido o problema.

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O coveiro

O texto foi publicado no Diário Económico (11 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs causa repúdio geral, mas ilumina o seu percurso. Durão ocupou cargos de gestão da coisa pública, mas tratou de gerir a sua vida. Marcelo, no requinte ácido de um elogio à ascensão “ao topo da sua carreira empresarial”, assinala-o bem.

Há uma consistência grave no seu percurso. Candidato às legislativas, promete baixar impostos. Mas, empossado primeiro-ministro, foi o percursor da austeridade, abrindo uma crise nacional em contra-ciclo com a prosperidade europeia com o discurso do “país de tanga”.

Antes de sair, envolveu Portugal na cimeira das Lages e numa guerra criminosa no Iraque, que foi germe dos conflitos no Médio Oriente e do aumento do terrorismo. As provas que jurou ter visto nunca foram apresentadas – nem ao país, nem a um tribunal de crimes de guerra. Mas o serviço abrir-lhe-ia a liderança da Comissão Europeia pela mão de Tony Blair.

À beira dos referendos sobre o Tratado Constitucional, fez campanha pela Directiva Bolkenstein e pelo ‘dumping’ social. Os referendos chumbaram, a UE ficou presa a meio, com um mercado único e sem projecto político – exactamente como queriam os britânicos. E Durão sobreviveria: anulou o seu consulado e a defesa dos tratados, deixou no Conselho e na cacofonia europeia a gestão da crise do euro e das dívidas soberanas. Renovou o mandato, o caos instalou-se na Europa do sul, os contribuintes pagaram a factura e os especuladores recolheram os despojos.

Durão Barroso e Goldman Sachs são companheiros de uma mesma viagem, que nos mina o projecto europeu e a democracia das nossas instituições. Silêncios e opções em Bruxelas, coniventes com o sistema financeiro, fizeram dos banqueiros os vencedores da crise que criaram e dos povos meros cativos desta guerra.

Do mais ferrenho europeísta ao soberanista mais reactivo, quem ousa hoje levantar a voz em defesa de uma ideia de Europa, quando a Europa real é comandada por antigos e futuros empregados de banqueiros? Quem pode hoje defender este Grande Leviatã? O último a sair apague a luz.