A fadiga imperial

O texto foi publicado no Jornal Económico (15 de Novembro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Quando Chamberlain regressou de Munique, agitando o documento com o compromisso de Hitler, a multidão que o esperava ansiosa ovacionou-o como um herói. Que diferença para a vida dos ingleses faria, afinal de contas, o destino dos checos lá longe, encravados no meio do continente? O primeiro-ministro evitara a guerra, aparentemente, e era tudo o que importava.

Afectados pela crise e por um sistema internacional instável, cada vez mais tributários da ideia de ordem dos autoritarismos europeus, os britânicos admitiam o fim do seu estatuto de potência dominante. Cooperar com os nazis, dar-lhes o almejado espaço vital, adiar o confronto, não lhes parecia assim tão mal. De Guernica a Bratislava, a mensagem foi ouvida: sois meros peões. A paz far-se-ia, se necessário, na cedência aos agressores, ao arrepio das regras internacionais e das organizações do multilateralismo.

Também os Estados Unidos preferiram o isolacionismo após a Grande Guerra. Barricados no seu continente-ilha, a sua segurança dispensava bem o caos europeu. Mas não se contêm as ambições alheias sem revelar uma determinação férrea para as travar. Quando os americanos acordaram do seu torpor, os alemães sobrevoavam a Inglaterra, encaminhavam-se para Moscovo e patrulhavam o Atlântico. A carnificina global serviu-lhes de lição. A política internacional passou a ter a omnipresença americana, para o bem e para o mal.

A nova superpotência fez um pacto de confiança com os seus aliados e criou uma gigantesca rede de parcerias e tratados. Os americanos tratavam da protecção dos aliados; estes não buscariam uma auto-suficiência militar que questionasse a sua supremacia. Num mundo nuclear, havia boas razões para aceitar o acordo. E o consenso intervencionista atravessou todas as administrações, republicanas e democratas, durante décadas. No bloqueio a Berlim, a ponte aérea americana serviu de aviso aos soviéticos e serenou as elites ocidentais: a defesa dos aliados era um elemento intrínseco da sua própria defesa.

Em cima dos escombros desse muro, a América teve a sua embriaguez unipolar. Mais do que a paz, o fim da Guerra Fria abriu-lhe o apetite para a expansão do seu domínio. O proselitismo liberal, o alargamento da NATO e o unilateralismo frequente criaram o ambicionado mundo novo de mercados abertos e desequilíbrios globais. Apesar do golpe do 11 de Setembro e da desaprovação internacional, é com confiança que se atola nas areias do Iraque.

Obama dá sinal da fadiga imperial na sociedade americana. O retraimento estratégico reconhece a impossibilidade de policiar o mundo perante a emergência de tantas potências regionais. Entre o Médio Oriente e o Mar do Sul da China, a opção tornou-se evidente. É no espaço aberto por esse retraimento que a Rússia refaz a sua afirmação na cena internacional, mesmo que as suas capacidades económicas e militares não correspondam à força da sua retórica.

No discurso democrata contra Putin, mas que tolera os seus avanços na Ucrânia e na Síria, e no anúncio de Trump de um acordo com os russos para centrar as suas atenções na China, há mais continuidade do que se imagina. O legado de Obama, ofuscado pela visão acrítica do seu estrelato, é um problema. Como se avaliarão as acções de Trump no futuro, à luz do uso actual de ‘drones’ ou do desastre na gestão da Líbia, Síria e outros dossiês?

Em defesa de Obama, reconheça-se que ele nunca proporia a proliferação nuclear entre aliados ou a dissolução da NATO, quebrando compromissos de décadas. A razão é evidente. O que exigirá uma Rússia autoritária em troca da cooperação na gestão dos problemas regionais?

A Europa, no fio da navalha, ameaçada pela dissolução interna, pela estagnação económica e pelo populismo, está cercada de problemas para os quais nunca criou soluções. Estas eleições têm de nos fazer questionar sobre o conforto do cobertor em que nos enredámos. Paralisados do Mediterrâneo à Síria, da Turquia à Ucrânia, seremos novamente tratados como peões. Trump tem razão. A Europa deveria estar a fazer mais pela sua própria defesa.

O Anti-Obama

bruno-carapinha_final-1-150x150O artigo foi feito a pedido como reacção aos resultados eleitorais e foi publicado no Jornal Económico (09 de Novembro de 2016)

Obama recuperou a economia em crise profunda, fez uma reforma limitada da saúde contra um Congresso hostil e apoiou a igualdade no casamento. Para uns, são avanços tímidos face às suas promessas de mudança. Mas, para outros, Obama é um Anticristo que foi longe demais. Esta campanha seria sempre sobre a necessidade de mudança. Mudança definitiva para uns; inversão do caminho para outros.

As sondagens juravam a vitória democrata num duelo Trump-Sanders e a derrota num cenário com Hillary. Bernie usava a fúria anti-sistema para um programa de mudança e cativava as classes baixas. As elites democratas ligadas aos interesses económicos estavam com Hillary e santificavam o legado de Obama. Fizeram da sua condição feminina o simulacro de uma agenda de progresso. Mas Clinton não polarizou o apoio.

A energia anti-sistema encontrou Trump e o seu discurso contra Washington. Na sua base de apoio estão os derrotados da globalização, os conservadores, a NRA e os supremacistas brancos. O discurso xenófobo e anti-imigração polarizou o voto branco de homens e mulheres. É o sinal do estertor de uma América branca em declínio numérico e económico, que mitifica um passado glorioso inexistente e recusa o presente e o futuro que o mandato de Obama implica.

Parte das elites exigia a mesma némesis anti-liberal de Trump: quer o proteccionismo económico e o nacionalismo para bloquear a competição internacional. A ideia de reduzir impostos aos ricos também é música celestial. O sistema tão odiado pelos brancos pobres mobilizados nesta eleição vai reforçar-se.

Agora sai Donald, o candidato. Entra Trump, o presidente. O personagem do show das eleições será filtrado no Congresso e na máquina partidária. As propostas de campanha cairão no esquecimento. E os republicanos darão substância às ideias vagas do Presidente numa posição única, controlando o Congresso e a maioria dos governadores e dos representantes estaduais. Um comentador exultava: É um Nirvana Republicano.

O anti-Obama não ficará por aqui. Vai nomear juízes para o Supremo Tribunal, reverter conquistas recentes e direitos antigos. O discurso da xenofobia e do racismo teve validação popular e as tensões raciais no país devem aumentar. E o retrocesso nos direitos na América dará poder às forças reaccionárias pelo mundo todo. Le Pen já saudou o resultado no Twitter e prepara-se para o seu teste. Não nos centremos só em Trump para não desvalorizar este movimento global de refluxo. Isto ainda vai piorar antes de melhorar.

A manhã seguinte

bruno-carapinha_final-1-150x150O texto foi escrito antes dos resultados eleitorais serem conhecidos e foi publicado no Jornal Económico (09 de Novembro de 2016)

É na “manhã seguinte” que se acertam contas com os erros da “noite anterior”. Raramente se cometem tais erros num estado de verdadeira inconsciência. Adia-se a decisão, oferece-se a indulgência, ignora-se a realidade de propósito. Mas a luz matinal é implacável – mesmo assobiando para o lado, não se foge para sempre às consequências.

Na política não é diferente. Recentemente, o Reino Unido acordou em choque com a saída da UE. Alguns dos incrédulos com o resultado votaram pelo Brexit – e queriam rever a decisão. Confiaram que o seu protesto em urna seria inconsequente graças ao bom senso dos restantes. A maioria não seria tola ao ponto de votar a favor…

Os britânicos ainda estão na sua “manhã seguinte”. Não há plano para a saída. Entre surtos de xenofobia e ameaças de divórcio escocês e irlandês, soubemos que os seus defensores públicos, como Boris Jonhson e Theresa May, eram opositores privados. O Brexit afastou Cameron da liderança dos Tories. A que custo?

A libra está instável e várias empresas migrarão para a zona euro. Os mercados tradicionais dos britânicos preferem a UE. E a tensão política cresce, com recusas da vinculação ao referendo e exigências de submissão do Parlamento à decisão popular. O desnorte permite algum humor. Os britânicos pedem uma vitória republicana para o mundo esquecer o seu embaraço.

Mas os Estados Unidos já perderam a visão de Trump como acidente menor. Em pânico, a elite republicana e o voto antecipado concentra-se em Hillary. A campanha de casos e de discurso do ódio e da divisão polarizou os campos políticos. Os republicanos prometem rejeitar Clinton na eleição ou com um ‘impeachment’. Entre os democratas dramatiza-se a vitória de Trump, descrito como um proto-fascista. Seja qual for o resultado eleitoral, a batalha vai continuar.

O fenómeno Trump é já a própria “manhã seguinte” dos americanos, após décadas de aumento das desigualdades. Os demagogos germinam melhor nas sociedades que sufocam as classes médias. Excluído da riqueza que se concentra na elite, o eleitorado busca bodes expiatórios. Opõe-se aos poderosos de Washington ou de Bruxelas, tidos como a mão visível de uma economia sem fronteiras que trabalha contra os seus empregos. Encontram conforto na ideia difusa de regresso ao passado, de fechamento de fronteiras e de hostilidade aos migrantes.

O centro-esquerda, integrado no sistema, não lhes dá a resposta ansiada. Em França, Le Pen avança nos velhos bastiões socialistas. O Brexit foi triunfante entre os votantes Labour. E a direita alimenta o ovo da serpente do populismo. O radicalismo do Tea Party abriu as portas à normalização de Trump, mas os seus apoiantes, passando a ser uma nova maioria, vaiaram Ted Cruz na convenção republicana.

Desde o início, a campanha foi marcada pelo tom anti-sistema. Bernie Sanders exigiu uma reforma no sistema económico e de Wall Street, após a gigantesca crise financeira. Trump agitou o repúdio ao sistema político. Quando Obama denuncia que ele não paga impostos, este devolve a acusação: não foi Washington a fazer estas leis? Obama não responde. Mas o eleitor vê a prova de como o sistema trabalha contra si.

Hillary é a imagem desse sistema e atrai a oposição de republicanos e dos liberais pró-Sanders. O velho senador tenta contrariar a tendência e mobilizar votos para consolidar a sua influência numa administração Clinton. Mesmo conseguindo, terá pela frente um Congresso dividido e a pressão contrária à sua agenda em ambos os partidos.

Na ressaca, com Clinton ou com Trump, o sistema tentará a assobiadela displicente, mesmo sabendo que as desigualdades já não se escondem com a aspirina do endividamento. Nesta América amarga, alguma coisa terá de mudar. Na “manhã seguinte” a tantas asneiras, a questão é saber quem vai sair a perder.

Resgatar o futuro

O texto foi publicado no Jornal Económico (02 de Novembro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

 Apesar da trilogia infernal da dívida, da austeridade e do euro, há um país a procurar uma saída de futuro. Do comércio electrónico aos novos materiais, do design à robótica, dos novos modos de produção à gestão de grandes volumes de dados, emerge um paradigma económico assente em novas tecnologias. Esta revolução industrial tem efeitos disruptivos. A sociedade e as empresas terão de ajustar-se a uma mudança que criará novos vencedores e vencidos. A questão não é saber se vai ocorrer, mas se seremos um centro dinamizador dessa mudança. E até que ponto beneficiará o conjunto do país.

As outras revoluções industriais chegaram com décadas de atraso. Sem acesso a combustíveis, longe do centro europeu, em instabilidade política ou ditadura, ficámos de fora. Os países concorrentes mantêm o avanço até hoje. Mas a nova fase não precisa de carvão ou petróleo e procura lugares com uma boa relação entre infra-estruturas, talento e custos. O país não é periférico. Estamos no centro da área com o tráfego comercial mais intenso do mundo, que se estende de S. Francisco a Varsóvia.

O Governo quer consolidar um programa para o sector: linhas de financiamento, apoios a pequenos e grandes investidores, bolsas para os criativos, redes de incubadoras e apoio à internacionalização de startups. A estratégia para a Indústria 4.0 é esperada com interesse. Colocar estas questões na agenda e articular empreendedores e políticos com optimismo reforçou a confiança. A projecção de um Portugal inovador já atraiu novos investidores e criativos.asc_startup_go_global-3414

O símbolo desta renovação é o alojamento da Web Summit no país, ganho pela Câmara de Lisboa com o apoio do anterior governo e do vibrante ecossistema startup nacional. Ter as várias áreas políticas alinhadas para lidar com a economia do futuro é essencial. Mas foi o tal ecossistema que permitiu esta vitória, nascido de políticas e de condições permanentes.

O Start-Up Lisboa é um caso de estudo. O país faz inveja na digitalização dos serviços públicos, na qualidade das infra-estruturas e das ligações electrónicas e no empreendedorismo. Já no início da velhinha Estratégia de Lisboa, o número de diplomados em ciências, matemática e engenharia ultrapassava as metas europeias. Investidores e criativos falam de um ambiente
entusiasmante e do talento no país. As bases estão lançadas. Uma estratégia inteligente de incentivos e visibilidade pode gerar os primeiros frutos.

Mas não haja ilusões: lançar uma ideia e uma empresa implica riscos avultados e fracassos. Acresce que a economia nacional é dominada por PME endividadas, em sectores de baixa intensidade tecnológica, com mão-de-obra e dirigentes pouco instruídos. O ambiente dinâmico elogiado limita-se a um circuito e deixa de fora muito do país por razões estruturais.web-summit-dublin

A formação da população activa é baixa e há-de manter-se nas gerações seguintes: segundo a OCDE, só 33% dos jovens tem grau superior. A Eurydice diz termos das mais caras propinas da Europa, com uma cobertura ridícula de bolsas (23%). A formação de novos doutorados e a sua absorção pelo sector privado diminuiu, tal como o investimento em I&D. E a ciência nacional especializou-se em áreas diferentes das empresas tecnológicas, sinal da sua fraca cooperação.

Em oposição a este modelo estão sociedades avançadas como a Alemanha, que aboliu as propinas e canaliza crescentes investimentos. Vários países querem liderar esta revolução e proteger o seu bem-estar social. A nova economia dispensará milhões de empregos desqualificados. Isso é particularmente grave para o país. A viabilidade do nosso sistema económico e social exige uma estratégia mais arrojada de educação.

Uma economia do conhecimento assenta numa base qualificada para recrutar mão-de-obra, gerar inovação e alimentar a procura destes bens e serviços. O arranque até pode fazer-se com um nicho e atraindo talento estrangeiro. Mas, para ser sustentável, esta revolução deve resgatar a maioria dos portugueses.

O ano de Costa

O texto foi publicado no Jornal Económico (18 de Outubro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

A desorientação completa da oposição e o silêncio – aqui e além relutante – da esquerda confirmam: este é o momento do triunfo de António Costa. O aparente cumprimento do défice e o aumento do emprego conjugam-se com a derrota das sanções e uma parceria com os países do sul da Europa. Até episódios como o Euro 2016, a vitória de Guterres na ONU ou o sucesso no turismo dão ao país uma auto-estima renovada, que bloqueia a campanha de medo da oposição. O PSD afunda em todas as sondagens.

Apesar das fragilidades, a geringonça provou ser estável e pragmática. Não há ameaças públicas irrevogáveis nem mal-estar dos parceiros com o PS. A recuperação de rendimentos e algumas medidas simbólicas permitem à esquerda alardear conquistas. Mas na verdade, e apesar da redistribuição da carga fiscal, a redução do investimento público faz o orçamento manter uma linha de contenção – bem ao contrário do que estes partidos propunham.

É interessante que a oposição e o PCP concordam no diagnóstico. Jerónimo de Sousa alertou há dias que a ambição do PS de conciliar crescimento económico, devolução de rendimentos e cumprimento de critérios europeus é uma ilusão. Para a direita, isso significa seguir uma lógica austeritária para cumprir as regras da moeda única. Já para o PCP, implica questionar estas regras, propor a renegociação da dívida e a saída do euro. É certo que, sem os juros da dívida, o orçamento teria folga para apoiar a dinamização da economia e um programa social. Mas não há solução em breve.

O PS também não aplica o seu programa, que propunha uma maior redução de impostos e uma devolução de rendimentos mais lenta. Entre a espada da UE e a espada da esquerda, Costa faz navegação à vista e adia o confronto. Por um lado, repete a fórmula do orçamento anterior e anuncia medidas que só oneram parte do ano, como os aumentos das reformas ou o fim faseado da sobretaxa. Tal como em 2016, também limita o reembolso de dívida ao FMI.

Por outro lado, fará uma redução do défice estrutural superior ao exigido pela Comissão. Após a ameaça de sanções, o Governo não quer dar álibis à intromissão europeia. Maria Luís Albuquerque tinha razão quando dizia que ela não sofreria sanções. O governo PàF não cumpriu uma única meta e fez sucessivos orçamentos rectificativos sem qualquer reacção de Bruxelas. Mas Costa não terá espaço para falhar em 2017.

O triunfo nacional parece completo. O PS centrou-se no cumprimento do défice, arrastando para isso toda a geringonça. Receando Passos, a austeridade e o desmantelamento do Estado social, a esquerda prefere apoiar este Governo. E a direita enfrenta o descrédito. As previsões de desastre da oposição erraram todas. Sem programa alternativo, os partidos da austeridade virtuosa e purificadora e da devolução lenta de rendimentos exigem agora a redução imediata da carga fiscal. A austeridade deixou de ter defensores.marcelo-sombra

Mas, como para todos os campeões, há sempre uma fraqueza. A kryptonite de Costa é dupla. Com o fraco investimento público e a crise em vários mercados de exportação, a economia não arranca. E sem uma mudança política na Europa, esta trajectória presa entre espadas esbarrará contra a parede de um solavanco internacional. Sem uma articulação mais estreita, que vá além de uma coligação contra Passos, qualquer crise externa fará ruir a actual maioria.

Costa tem um ano para resolver estes problemas no meio de uma execução orçamental difícil. Em Outubro de 2017, cruzam-se os resultados desta estratégia, a definição do novo orçamento e as eleições autárquicas. Marcelo avisou: há estabilidade até aí. O popular Presidente já pediu até pela definição de uma alternativa na oposição. Se a geringonça não desatar este nó, o ano a seguir é de Marcelo.

O totem

O texto foi publicado no Jornal Económico (4 de Outubro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Neste momento, várias mulheres se apresentam a provas para os mais altos cargos políticos do mundo: Hillary nos Estados Unidos e várias outras na Organização das Nações Unidas. As mudanças sociais e culturais que abriram espaço para este cenário fizeram-se num passo lento mas aparentemente irrevogável. Há cada vez mais mulheres a chefiar empresas, já predominam nas universidades e ocupam lugares de direcção em organizações e na política. As jovens raparigas têm hoje uma diversidade de modelos para inspirar a sua representação e construir um novo tipo de ambições para o seu futuro.

A consciência sobre discursos, comportamentos e representações plenas de sexismo cresceu. E isso é útil para desamarrar a sociedade dessas estruturas e libertar as mulheres e os homens da tipificação de papéis impostos. Mas há também um ricochete inesperado em que a condição de género readquire de forma inversa uma função de promoção e anátema.

Na ONU, Ban Ki-moon lançou o mote. Era tempo da organização ser liderada por uma mulher. A declaração revelava parcialidade e interferência e usava a condição de género para deslegitimar concorrentes. O incoerente Secretário-Geral da ONU não tem qualquer legado de promoção da igualdade de género na organização. Mas veio estimular a oposição ao mais forte candidato, escolhendo, para o efeito, o único critério que este não poderia cumprir. A declaração não apoiava ninguém, mas desqualificava todos homens como candidatos – e Guterres em especial. O que pode justificar a candidatura de Kristalina Gregorieva a meio do processo senão o uso do critério de género para derrotar o candidato mais forte?

guterres-kristalinaSalvaguardadas as distâncias, a campanha norte-americana contaminou-se com alguns destes tiques. Hillary centrou a sua mensagem na experiência e na sua condição de mulher, fazendo da sua eleição uma peça da afirmação feminina. A instrumentalização desse argumento permite dispensar um debate centrado no mérito da candidata. Mas Bernie mostrou a sofisticação do eleitorado, quando quase a derrotou após virar o debate para a iniquidade social, denunciar a sua ligação aos poderosos e reduzir a pó o argumento de género.

Sim, Trump reserva às mulheres um papel decorativo e submisso e a sua base eleitoral encerra o fundamentalismo, o ódio racial, o proselitismo religioso e o conservadorismo. Mas reduzir esse eleitorado ao “white trash” sexista é uma ingenuidade. Trump explora a sua longevidade política, faz dela o bode expiatório dos derrotados da globalização e oferece-lhes um alvo para odiar.

Há um coro de gente desiludida com o ‘establishment’ e que vê Hillary como parte do gang dos poderosos. É por isso que Hillary enfrenta problemas na mobilização de apoios, mesmo entre os que se confessam anti-Trump. Para muitos deles, ela é o mal menor – em quem votarão no último momento, aterrorizados com Trump, mas sem confiar nela.

À esquerda, há uma espécie de ‘blackout’ da discussão política. Quaisquer críticas à candidata são tidas como manifestação de sexismo interiorizado. Esta reacção pavloviana coloca Hillary fora de escrutínio e desloca o debate para a natureza e o discurso de quem a critica – que passa então a ter de defender-se.

hillary-womanDurante muito tempo, ser mulher foi obstáculo para se ser candidata, mas agora parece que não se pode questionar a política de uma mulher candidata sem ser acusado de sexismo escondido. A pressão agrava-se ainda mais se o crítico for um homem.

A política também precisa de símbolos. Escolher um negro para a presidência norte-americana terá efeitos nas consciências a longo prazo. O mesmo acontecerá com Hillary, se (esperemos) ganhar as votações. Mas eleger Obama não libertou os negros do racismo e da exclusão social a que estão sujeitos. Reduzir isto à escolha de um totem é o que o povo americano parece querer recusar – e daí as dificuldades democratas. Afinal de contas, se bastasse ter mulheres como líderes para emancipar a condição feminina, Thatcher, Merkel ou Theresa May já nos tinham resolvido o problema.

3.5 na escala Mortágua

O texto foi publicado no Jornal Económico (20 de Setembro de 2016)bruno-carapinha_final-1-150x150

Os partidos da geringonça articulam o apoio a um governo de gestão da crise do país com a narrativa de conquistas para a sua base eleitoral. Não é um exercício fácil e está exposto a contradições. Mariana Mortágua respondeu, recentemente, à provocação de Passos Coelho, assegurando que o BE não estava manso. Mas é impossível não sorrir quando o radicalismo se traduz no aumento de 30 euros no salário mínimo ou na redução de pequenos benefícios de alguns sectores económicos.

Entre a natureza reafirmada destes partidos e a sua prática face às condições actuais, há um desconforto. Os desafios do país em 2015 não são diferentes dos de 2016: desaceleração económica dos nossos parceiros comerciais, regras europeias apertadas, taxas de desemprego elevadas, pequenez do mercado interno, fragilidade do sistema bancário nacional e europeu. Neste contexto, a um Governo que se quer manter no euro, resta aplicar uma estratégia económica, redistribuir a carga fiscal e conter o défice, na esperança de que isso nos defenda melhor da instabilidade dos mercados e da agressividade dos parceiros europeus. Ao mesmo tempo, tentar ganhar tempo e peso nas instâncias que decidem. Ao contrário do que os partidos querem admitir, muito do que aqui se passará não está nas mãos dos portugueses.

As coisas até não correm mal ao Governo. Evitou as sanções e viu a recapitalização da CGD aprovada; parece conseguir controlar o défice e aliviou os sectores mais duramente punidos na governação anterior. Descontando o efeito da crise angolana nas exportações, há sinais promissores na balança comercial (por exemplo, no mercado europeu). Mas a pressão mediática constante afecta os níveis de confiança e inibe o investimento. A lógica de devolução de rendimentos não funcionará se estiver desfasada de uma verdadeira retoma económica. E, por isso, o próximo orçamento terá de manter a contenção.mariana-imposto

Não é de estranhar que o BE cavalgue o simbolismo de algumas medidas, como a taxa sobre a concentração de património imobiliário. Mas seria importante falar para a base de apoio deste Governo com objectividade e sem triunfalismos, evitando que ela oscile entre o entusiasmo e a desilusão. O anúncio da medida ainda por fechar, que afecta um número reduzido de famílias, permitiu à oposição usar a sua impreparação para lançar especulações que alarmaram o país.

Em Portugal, a austeridade atingiu a classe média e poupou os mais ricos.  A taxação sobre o património de modo progressivo, em especial o de luxo, é uma proposta razoável e foi várias vezes recomendada por economistas para introduzir maior justiça fiscal e dinamizar o mercado de arrendamento. Tudo depende da sensatez da sua aplicação, evitando situações de dupla tributação. Esta medida parece afectar apenas os níveis de património que são inalcançáveis pelo cidadão comum, mas foi notória a instabilidade criada.

Em choque maior ficaram os parceiros de geringonça perante o anúncio (a reivindicação) da medida pelo BE, sem definição do modo de aplicação ou de uma estratégia de divulgação. A semana, aliás, foi pródiga em declarações do BE contra os ricos e o sistema, para serenar uma parte das suas bases. Mas, em contrapartida, há um incómodo do PS com a tentativa do BE liderar a geringonça de fora do Governo. A competição pela visibilidade e a instabilidade interna são coisas que uma solução política com agenda de devolução de rendimentos dispensaria. Ainda para mais, é apenas simulacro de instabilidade. Descontemos o entusiasmo de Mariana e o terramoto que tentaram criar: como vai o BE votar um orçamento de gestão (suave) do sistema e da crise?

Ganhar tempo

O texto foi publicado no Diário Económico (28 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A crise artificial da expectativa de sanções permitiu a Marcelo medir o pulso ao estado da geringonça – e ele pôs o país e a Europa a ouvir novamente a promessa de estabilidade da esquerda portuguesa. Com matizes e diferenças, todos salvaguardam o empenho no sucesso desta solução. Do que não nos falam é de um projecto de futuro.

Compatibilizar o Pacto de Estabilidade com uma estratégia de crescimento assente no mercado interno era um enorme desafio. Exigiria negociação em Bruxelas, alianças com outros países, bastante sangue frio. E alguma sorte. Navegar à vista e ganhar tempo não soa bem. Mas Portugal depende sobretudo de factores externos para o sucesso de qualquer política interna. A reacção nervosa de todos os quadrantes da sociedade face à ameaça de sanções revela a fragilidade nacional.

Os trabalhos de Costa estão dificultados por depender de um acordo tenso com uma esquerda de tom sindical e crescentemente anti-europeia. Mas o nó górdio que a direita queria explorar revela-se adiado. PCP e BE poderiam quebrar a geringonça, mas têm revelado um pragmatismo invejável. As suas exigências reafirmam a fidelidade ao seu eleitorado. Mas estes partidos mantêm o apoio a esta solução de governo que, apesar das contradições, lhes serve muito mais do que o regresso de Passos. O eleitorado agradece, como mostram as sondagens.

O PS procura ganhar tempo até que uma convulsão internacional lhe mate o programa económico e que o ambiente no país o lance para novas eleições. A legitimidade contestada no início do mandato foi recuperada por alguns sucessos que precisam ainda de consolidação. Adiar várias despesas para o segundo semestre permitiu combater o aperto europeu e neutralizar a oposição. Mas 2017 não será fácil e só um ambiente económico favorável permitirá encaixar os aumentos de despesa que aí vêm.

Ganhar tempo seria aproveitar esta experiência de cooperação para preparar desde já um projecto político que agregue estas forças no futuro e que vá além da recuperação urgente de rendimentos, pensões e salários. Um dia, a navegação de cabotagem já não nos serve.

O coveiro

O texto foi publicado no Diário Económico (11 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs causa repúdio geral, mas ilumina o seu percurso. Durão ocupou cargos de gestão da coisa pública, mas tratou de gerir a sua vida. Marcelo, no requinte ácido de um elogio à ascensão “ao topo da sua carreira empresarial”, assinala-o bem.

Há uma consistência grave no seu percurso. Candidato às legislativas, promete baixar impostos. Mas, empossado primeiro-ministro, foi o percursor da austeridade, abrindo uma crise nacional em contra-ciclo com a prosperidade europeia com o discurso do “país de tanga”.

Antes de sair, envolveu Portugal na cimeira das Lages e numa guerra criminosa no Iraque, que foi germe dos conflitos no Médio Oriente e do aumento do terrorismo. As provas que jurou ter visto nunca foram apresentadas – nem ao país, nem a um tribunal de crimes de guerra. Mas o serviço abrir-lhe-ia a liderança da Comissão Europeia pela mão de Tony Blair.

À beira dos referendos sobre o Tratado Constitucional, fez campanha pela Directiva Bolkenstein e pelo ‘dumping’ social. Os referendos chumbaram, a UE ficou presa a meio, com um mercado único e sem projecto político – exactamente como queriam os britânicos. E Durão sobreviveria: anulou o seu consulado e a defesa dos tratados, deixou no Conselho e na cacofonia europeia a gestão da crise do euro e das dívidas soberanas. Renovou o mandato, o caos instalou-se na Europa do sul, os contribuintes pagaram a factura e os especuladores recolheram os despojos.

Durão Barroso e Goldman Sachs são companheiros de uma mesma viagem, que nos mina o projecto europeu e a democracia das nossas instituições. Silêncios e opções em Bruxelas, coniventes com o sistema financeiro, fizeram dos banqueiros os vencedores da crise que criaram e dos povos meros cativos desta guerra.

Do mais ferrenho europeísta ao soberanista mais reactivo, quem ousa hoje levantar a voz em defesa de uma ideia de Europa, quando a Europa real é comandada por antigos e futuros empregados de banqueiros? Quem pode hoje defender este Grande Leviatã? O último a sair apague a luz.

Uivam os lobos

O texto foi publicado no Diário Económico (27 de Junho de 2016)bruno_carapinha

As sirenes soaram no continente com o anúncio do ‘Brexit’. Os britânicos, estupefactos e divididos, vêem as suas nações equacionar a independência, enquanto os principais partidos se desagregam. O directório europeu, de quem se esperaria ponderação, mostra desnorte e impreparação. Com despeito vingador, Juncker exigiu uma saída célere do Reino Unido. E os fundadores da União Europeia (UE) reuniram de imediato, consagrando uma Europa discricionária, feita a múltiplas velocidades, que impõe hierarquias entre Estados.

Este desastre não era inesperado, sobretudo após o espectáculo fúnebre das cimeiras da UE acerca do euro, da Grécia e dos refugiados. De forma contínua, estas lideranças fracassam na recondução dos europeus ao orgulho que já tiveram sobre os seus direitos e conquistas civilizacionais. O recuo no emprego, a recessão económica e a redução do bem-estar social não são meros efeitos inevitáveis da globalização económica; eles resultam de escolhas feitas pelos Estados e pelas elites políticas e económicas da Europa.

O projecto neoliberal da UE conjugou a desregulação económica e financeira com a destruição do Estado social, e tornou o Estado-nação numa correia de transmissão de um poder não eleito centrado em Bruxelas, em Berlim e no Conselho Europeu. Não poucas vezes, em especial com a crise grega, o carácter autoritário e antidemocrático deste arranjo foi exposto. Com fraca articulação entre representantes e representados e estando atolada numa gigantesca crise que se mostra incapaz de ultrapassar, a UE não tem hoje nem um programa de recuperação económica credível, nem uma estrutura política legitimada que reclame apoio popular ao projecto e justifique a sua manutenção.

EU leaders hold a one minute of silence to remember the migrant victims who perished while trying to reach Europe, prior to a round table extraordinary EU summit meeting, on April 23,  2015, at the European union headquarters in Brussels. EU leaders gathering in Brussels will consider launching a military operation against human traffickers in Libya, in a bold effort to halt the deadly flow of refugees trying to reach Europe by sea. AFP PHOTO / BELGA / BENOIT DOPPAGNE    =BELGIUM OUT=

Nos dois anos de negociação com o Reino Unido, recomenda-se muita ponderação estratégica. O futuro é imprevisível, mas uma coisa parece certa: esta UE não tem mais viabilidade. O voto dos ingleses inicia a desagregação do único projecto de cooperação entre os povos europeus que alguma vez conseguiu assegurar a paz e um alto nível de desenvolvimento económico.

Não sem ironia, a visão neoliberal que lhe causou a morte teve início no próprio Reino Unido de Thatcher. Nessa altura, como agora, esta política dividiu a população entre vencedores e vencidos. E os actuais vencidos (pobres, idosos e excluídos), ainda sendo grandes beneficiários da manutenção do país na UE, responderam com entusiasmo à ideia da “recuperação do controlo” do país e das suas vidas que a campanha do ‘Leave‘ soube explorar com mestria. Punir o governo, atacar os ricos, encontrar um culpado próximo para a sua situação mobilizou os mais desfavorecidos, mesmo em zonas de forte implantação trabalhista.

Mas impressiona também a paralisia da esquerda, bloqueada entre um aplauso ao ‘Brexit’ pelo repúdio à actual UE e o alinhamento com os sectores neoliberais num frentismo contra os nacionalistas. Capturada pelo consenso neoliberal, a esquerda não pode criar uma agenda que reabilite o que resta do projecto europeu. E é por isso que está a ser arredada de qualquer influência no processo. A discussão política que interessa aos descontentes não é a opção entre mais federalismo ou menos Europa. É de uma reorientação da sua política económica e social – tomada pelo Estado ou pela UE – que os europeus precisam de ver.breaking-point

A xenofobia tomou as rédeas deste referendo e tornou o nacionalismo o grande vencedor europeu. Quebrado o consenso europeu, é concebível nas consciências dos povos o fim da UE. Os partidos nacionalistas exigem a realização de referendos nos seus países. Pior que isso, o discurso xenófobo reclama agora um lugar no centro do espectro político. Já há nas redes sociais relatos de confrontos e admoestações a estrangeiros.

É arrepiante revisitar os anos 30, em que, como agora, o fracasso das democracias em fomentar a paz social e uma economia mais equilibrada alienaram sectores das classes baixas e médias para propostas nacionalistas e antidemocráticas. Nós sabemos onde isso já nos levou. Uivam os lobos em toda a Europa.