Um futuro titânico

A história da integração europeia é velha como a própria noção de continente. Pela conquista, assassinato, casamento, aliança oportunista ou cooperação, a Europa foi marcada pelas várias tentativas de integrar Estados e populações em áreas cada vez maiores. Apesar das peripécias, há um movimento contínuo. Não defendo o determinismo histórico nem desconsidero o papel das lideranças e dos seus contextos. O curso expectável é por vezes desviado pelo inesperado, no choque de vários interesses. Mas há constantes importantes, que decorrem de condições geoestratégicas, estruturas económicas e divisões políticas, culturais e religiosas.

Os Estados no eixo do Reno e do Danúbio quiseram sempre controlar ou federar o continente à sua volta. Carolíngios, Bourbons, Habsburgos, Bonaparte e Hitler não são meros actores livres; eles encarnam visões da Europa, tradições políticas, interesses sociais e condições objectivas perenes. A Rússia tentou sempre alargar a influência às zonas de mares quentes e sair da prisão gelada da plataforma euroasiática continental. Na agenda dos Romanov, de Estaline e de Putin estas preocupações são comuns, apesar das suas diferenças ideológicas.

O Reino Unido isola-se há séculos nas suas ilhas, vigia o continente, dividindo-o pela guerra e a sedição, para não ser ameaçado por um poder consolidado. Da recusa de Isabel I à proposta de Felipe II ao combate em Waterloo; dos campos de Verdun à Conferência de Ialta, os britânicos agiram sempre para não sucumbir a um poder continental e assegurar o seu futuro.

A recusa em integrar inicialmente a Comunidade Económica Europeia e a sua adesão numa fase posterior são testemunho dessa mesma linha de pensamento e acção: soberanista, cautelosa e pragmática. Primeiro, tentando não engrandecer o projecto com a sua presença; depois, com a sua influência directa para ele não se transferir do campo económico para o campo político. Com grande sucesso, reconheça-se.

Um mercado único e forte, mas sem legitimidade democrática ou integração política viável parece o melhor de dois mundos para os britânicos. Com Thatcher que, se despediu com um veemente Não! Não! Não! à ideia da moeda única, da união política democrática e de um projecto federalista, foram lançadas as linhas de força da política britânica para a UE até hoje: liberalismo económico, fim do Estado-Providência, bloqueio ao projecto político, exigência de derrogações e excepções aos tratados, apoio ao alargamento a leste e reduzida coesão interna. O Reino Unido integrou apenas o essencial dos mecanismos europeus e nunca alimentou os sonhos de uma integração maior e mais completa.

european bodies

Mas as condições num mundo globalizado são outras. Para um país que já dominou metade do globo e se limita agora à sua esfera nacional, o acesso ao continente é como um lebensraum. Os parceiros da UE com diferentes perfis de especialização e custos de produção deixaram a Grã-Bretanha centrar a sua economia em sectores mais lucrativos e reforçar o saldo positivo na sua balança comercial. A libra conservou-lhe a autonomia, permitindo valorizar ou desvalorizar a moeda. A derrota da tentativa de excluir o país das operações feitas em euro fechou o triunfo. Londres renasceu exactamente por se tornar a sede dos mercados financeiros focados em negócios com a UE.

Para apoiar este bem-estar global concorre a relação especial com a antiga colónia, os EUA, que domina a ordem internacional. O seu estatuto como potência nuclear e o seu papel na NATO, que garante da paz e a segurança no contexto europeu, completam o quadro. A Alemanha é um gigante económico, mas continua uma pequena potência militar, sem um armamento nuclear próprio. Entre o chapéu-de-chuva nuclear, as suas capacidades militares próprias e uma prática intervencionista ao lado dos americanos, o Reino Unido mantém um papel central no equilíbrio da Europa.john_kerry_meets_theresa_may_july_2016

Para tudo isso funcionar, precisa da UE. É uma ilusão, que custará caro aos britânicos e aos europeus, a ideia de que um Estado isolado consiga hoje abordar e resolver os seus desafios, mesmo com uma rede de alianças e cooperações estratégicas forte. A elite britânica sabe isso bem. Entre apelos demagógicos de recuperação do controlo do país e de desvio dos recursos que os britânicos põem na UE para o sistema nacional de saúde, tanto Theresa May como Boris Johnson diziam em privado o oposto. A trama permitiu disputar a liderança dos conservadores britânicos a Cameron, mas o efeito é terrível.

Os grandes mercados internacionais preferem negociar com um bloco da sua dimensão e não vêem vantagens em conceder benefícios comerciais a um só país que não pode oferecer tanto em troca. As principais empresas do sector financeiro preparam a sua saída. A libra dá sinais de enfraquecimento. E o Reino Unido está sob uma tensão política crescente, misturando surtos de xenofobia e ameaças de ruptura dos escoceses e da Irlanda do Norte, tentativas de reverter o referendo no Parlamento e pressão sobre os membros do órgão para respeitar o voto popular. Não há uma saída risonha desta confusão. E no entanto, há humor. Já se pede aos americanos para votar em Trump e fazerem o mundo esquecer a sua trapalhada com uma asneira maior…

As consequências profundas do Brexit ainda não apareceram. Como um tsunami mortífero, o sismo acontece longe e silencioso, o epicentro está no fundo do mar. As ondas terão um efeito duradouro à volta, com o choque inicial e com o refluxo. Não creio que o desastre anunciado se limite ao Reino Unido. A aversão às instituições europeias ganha força em todo o continente, contra o seu défice democrático, o autoritarismo e a intervenção na vida interna dos Estados, bem como a sua incapacidade para resolver os problemas dos cidadãos. O pontapé de saída para a dissolução da UE foi dado. E nós sonâmbulos vamos, incrédulos e confiantes.

Este arranque de século começa a ter muitas semelhanças com o anterior. Discursos contra os estrangeiros e os imigrantes, nacionalismo e desigualdades sociais crescentes, desvalorizando as ideias e os sonhos de integração europeia. Até Boris Johnson se lembrou de invocar o Titanic, dizendo que o Brexit será um sucesso titânico! O navio impossível de afundar, construído com a confiança do progresso sem fim, é um monumento à cegueira e aos limites. A Europa, sem líderes à altura da situação, aguarda passivamente a invocação britânica do Art. 50º. Há quem queira dar uma lição exemplar aos faltosos e maximizar os danos aos britânicos. Uma lição comparável, talvez, à que se deu aos alemães em Versalhes. Nós sabemos como isso acabou.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s