Quanto pior, melhor?

Há um mês atrás, escrevi que tentar ‘reduzir o eleitorado de Trump ao white trash sexista é uma ingenuidade. (…) Há um coro de gente desiludida com o establishment e que vê Hillary como parte do gang dos poderosos. É por isso que Hillary enfrenta problemas na mobilização de apoios, mesmo entre os que se confessam anti-Trump. Para muitos deles, ela é o mal menor – em quem votarão no último momento, aterrorizados com Trump, mas sem confiar nela.’

Desde a plataforma Black Lives Matter até muito do eleitorado de Bernie Sanders, há constantes recusas públicas de apoio a Hillary Clinton. A candidata exibe muitos dos problemas do sistema americano e da sua íntima articulação com a plutocracia. A base eleitoral de Sanders era muito sensível a questões de política económica e fiscal e à criação de serviços e coberturas próximas aos modelos europeus de Estado social. Bernie tem uma folha de registos impecável a esse nível, mas Hillary não. O argumento da eleição de uma mulher desligado da apreciação da proposta política como, se por si só, constituísse o ponto de viragem de uma revolução social é insultuoso para muitos destes eleitores.

Uma parte da fúria anti-Clinton deriva de um cansaço na escolha sistemática do mal menor sem ter grandes resultados. Uma outra parte é bastante irracional. Bernie aceitou não questionar a legitimidade do processo ínvio que o removeu da corrida nas primárias em troca de uma coisa que, para ele, era mais importante: o programa de Hillary. A candidata absorveu vários elementos da sua campanha nas propostas que agora apresenta e pode vir a tornar-se na presidente mais progressista das últimas décadas. A oposição das bases de apoio de Sanders a Clinton desconsidera a leitura objectiva do seu programa e alimenta-se do desdém que lhe têm.

Há um argumento duplo adicional que deve ser considerado. O fenómeno Trump aproximou a elite republicana dos democratas. Por um lado, isso insinua uma vitória inevitável de Hillary, que desresponsabiliza quem quer votar de acordo com a consciência. Por outro lado, isso faz questionar se o peso de Sanders será o mesmo depois da eleição. Anteriores presidentes e membros de administrações passadas, congressistas e líderes locais, muitos dos republicanos notáveis apoiam Clinton. Também os conselheiros e estrategas militares e sectores empresariais ligados ao partido do elefante e até a imprensa nacional se juntam à candidata. Presumir que uma candidata com esta plataforma implementará um programa marcadamente progressista parece improvável. Até que ponto é que os novos apoios de Hillary não vão condicionar-lhe a estratégia política?

Slavoj Zizek parte daqui para um argumento radical: usar Trump para ‘abanar as estruturas’. Ele faz a união com os próprios apoiantes de Trump, muitos dos quais não conhecem quaisquer propostas do candidato – e, conhecendo-as, provavelmente opor-se-iam ao que ele quer. O que os move é a imperiosa necessidade de quebrar o sistema, de trazer para a política americana um movimento que obrigue todas as forças a ir a jogo e a alterar o status quo. Bernie e Trump eram, de algum modo, o positivo e o negativo dessa mesma exigência de mudar tudo. Hillary é a encarnação desse sistema e tornou-se o alvo da hostilidade de todos os sectores.

O erro de cálculo de Zizek e dos liberais anti-Clinton é que nós estamos todos pendurados nas estruturas desse sistema. Um retrocesso nas conquistas e direitos na América dará poder às forças reaccionárias pelo mundo todo. Eleger um proteccionista vai autorizar as tendências de Estados autoritários de fechamento de mercados e competição por espaços económicos (e geográficos). Ter um defensor do retraimento, um isolacionista, a gerir o mundo é abrir a porta à aceleração da transição no sistema internacional – e ela nunca se fez sem conflitos graves.

Sim, a abertura de mercados e o comércio internacional não significaram desenvolvimento para todos e têm sido acompanhados por uma crescente desigualdade social e entre Estados. Mas combinar conservadorismo social, racismo, estagnação económica e políticas proteccionistas com o abandono da gestão de um sistema internacional em crescente instabilidade é montar uma bomba-relógio que nos traz as piores memórias dos anos 30. A fé nas forças internas do sistema americano para refrear Trump não nos isenta de um juízo rigoroso sobre a situação. Parece evidente que os filósofos podem dizer tanta asneira como os rednecks.

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