Uivam os lobos

O texto foi publicado no Diário Económico (27 de Junho de 2016)bruno_carapinha

As sirenes soaram no continente com o anúncio do ‘Brexit’. Os britânicos, estupefactos e divididos, vêem as suas nações equacionar a independência, enquanto os principais partidos se desagregam. O directório europeu, de quem se esperaria ponderação, mostra desnorte e impreparação. Com despeito vingador, Juncker exigiu uma saída célere do Reino Unido. E os fundadores da União Europeia (UE) reuniram de imediato, consagrando uma Europa discricionária, feita a múltiplas velocidades, que impõe hierarquias entre Estados.

Este desastre não era inesperado, sobretudo após o espectáculo fúnebre das cimeiras da UE acerca do euro, da Grécia e dos refugiados. De forma contínua, estas lideranças fracassam na recondução dos europeus ao orgulho que já tiveram sobre os seus direitos e conquistas civilizacionais. O recuo no emprego, a recessão económica e a redução do bem-estar social não são meros efeitos inevitáveis da globalização económica; eles resultam de escolhas feitas pelos Estados e pelas elites políticas e económicas da Europa.

O projecto neoliberal da UE conjugou a desregulação económica e financeira com a destruição do Estado social, e tornou o Estado-nação numa correia de transmissão de um poder não eleito centrado em Bruxelas, em Berlim e no Conselho Europeu. Não poucas vezes, em especial com a crise grega, o carácter autoritário e antidemocrático deste arranjo foi exposto. Com fraca articulação entre representantes e representados e estando atolada numa gigantesca crise que se mostra incapaz de ultrapassar, a UE não tem hoje nem um programa de recuperação económica credível, nem uma estrutura política legitimada que reclame apoio popular ao projecto e justifique a sua manutenção.

EU leaders hold a one minute of silence to remember the migrant victims who perished while trying to reach Europe, prior to a round table extraordinary EU summit meeting, on April 23,  2015, at the European union headquarters in Brussels. EU leaders gathering in Brussels will consider launching a military operation against human traffickers in Libya, in a bold effort to halt the deadly flow of refugees trying to reach Europe by sea. AFP PHOTO / BELGA / BENOIT DOPPAGNE    =BELGIUM OUT=

Nos dois anos de negociação com o Reino Unido, recomenda-se muita ponderação estratégica. O futuro é imprevisível, mas uma coisa parece certa: esta UE não tem mais viabilidade. O voto dos ingleses inicia a desagregação do único projecto de cooperação entre os povos europeus que alguma vez conseguiu assegurar a paz e um alto nível de desenvolvimento económico.

Não sem ironia, a visão neoliberal que lhe causou a morte teve início no próprio Reino Unido de Thatcher. Nessa altura, como agora, esta política dividiu a população entre vencedores e vencidos. E os actuais vencidos (pobres, idosos e excluídos), ainda sendo grandes beneficiários da manutenção do país na UE, responderam com entusiasmo à ideia da “recuperação do controlo” do país e das suas vidas que a campanha do ‘Leave‘ soube explorar com mestria. Punir o governo, atacar os ricos, encontrar um culpado próximo para a sua situação mobilizou os mais desfavorecidos, mesmo em zonas de forte implantação trabalhista.

Mas impressiona também a paralisia da esquerda, bloqueada entre um aplauso ao ‘Brexit’ pelo repúdio à actual UE e o alinhamento com os sectores neoliberais num frentismo contra os nacionalistas. Capturada pelo consenso neoliberal, a esquerda não pode criar uma agenda que reabilite o que resta do projecto europeu. E é por isso que está a ser arredada de qualquer influência no processo. A discussão política que interessa aos descontentes não é a opção entre mais federalismo ou menos Europa. É de uma reorientação da sua política económica e social – tomada pelo Estado ou pela UE – que os europeus precisam de ver.breaking-point

A xenofobia tomou as rédeas deste referendo e tornou o nacionalismo o grande vencedor europeu. Quebrado o consenso europeu, é concebível nas consciências dos povos o fim da UE. Os partidos nacionalistas exigem a realização de referendos nos seus países. Pior que isso, o discurso xenófobo reclama agora um lugar no centro do espectro político. Já há nas redes sociais relatos de confrontos e admoestações a estrangeiros.

É arrepiante revisitar os anos 30, em que, como agora, o fracasso das democracias em fomentar a paz social e uma economia mais equilibrada alienaram sectores das classes baixas e médias para propostas nacionalistas e antidemocráticas. Nós sabemos onde isso já nos levou. Uivam os lobos em toda a Europa.

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