Partilhar o desastre

O texto foi publicado no Diário Económico (21 de Junho de 2016)bruno_carapinha

Ateada a fogueira por Cameron para ganhar as eleições, o ‘Brexit’ tornou-se fogo incontrolável. A velha ameaça de saída do Reino Unido, numa época de fragilidade da UE e do euro, pode desencadear a dissolução do projecto. Estas são águas novas, imprevisíveis.

Promessas de desastre e de decadência do Reino Unido foram feitas aquando da sua recusa ao euro. É do fracasso dessas previsões que se alimenta o entusiasmo de uma parte da City com o Brexit. Mas o erro de cálculo é grande.

Londres é a ponte entre a UE e os mercados financeiros internacionais. Fora da instável zona euro, mas com direito a negociar nessa zona e beneficiando dos acordos bilaterais com países terceiros – com as vantagens de uma UE com peso negocial superior –, a City é a plataforma perfeita para os investidores. Por isso atraiu as sedes de tantas instituições financeiras.

Alguns agentes londrinos dizem que a saída da UE os liberta das suas amarras regulatórias, podendo liberalizar (ainda mais) a economia e fazê-la crescer. E defendem que não implicará a restrição ao papel de Londres, de que precisam muitos dos investidores europeus. Mas não são esses os principais sinais.

O BCE perdeu recentemente a batalha judicial para restringir as transacções em euros a empresas sediadas no continente. A City respirou de alívio: se fosse adoptada, a decisão teria o efeito de um ‘Brexit’. Vários grandes bancos, incluindo britânicos, preparam a deslocação progressiva das sedes caso o ‘Brexit’ triunfe. As movimentações de Frankfurt, Dublin e Amesterdão para adquirir os negócios de Londres são claras: nada ficará como antes.

Mas na UE não há entusiasmo. O seu sistema financeiro vai fragmentar-se por várias praças. Com a construção europeia fragilizada, manter o rendimento de uma City à custa da zona euro seria preferível à desestabilização e dissolução que se seguirá a um ‘Brexit’.

Como no dilema do prisioneiro da teoria dos jogos, a melhor solução para a UE e Reino Unido seria cooperar e suportar os (poucos) danos e muitos benefícios mútuos. Mas numa Europa em que todos tentam passar os estragos para o parceiro do lado, só se partilha o desastre.

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