O coveiro

O texto foi publicado no Diário Económico (11 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs causa repúdio geral, mas ilumina o seu percurso. Durão ocupou cargos de gestão da coisa pública, mas tratou de gerir a sua vida. Marcelo, no requinte ácido de um elogio à ascensão “ao topo da sua carreira empresarial”, assinala-o bem.

Há uma consistência grave no seu percurso. Candidato às legislativas, promete baixar impostos. Mas, empossado primeiro-ministro, foi o percursor da austeridade, abrindo uma crise nacional em contra-ciclo com a prosperidade europeia com o discurso do “país de tanga”.

Antes de sair, envolveu Portugal na cimeira das Lages e numa guerra criminosa no Iraque, que foi germe dos conflitos no Médio Oriente e do aumento do terrorismo. As provas que jurou ter visto nunca foram apresentadas – nem ao país, nem a um tribunal de crimes de guerra. Mas o serviço abrir-lhe-ia a liderança da Comissão Europeia pela mão de Tony Blair.

À beira dos referendos sobre o Tratado Constitucional, fez campanha pela Directiva Bolkenstein e pelo ‘dumping’ social. Os referendos chumbaram, a UE ficou presa a meio, com um mercado único e sem projecto político – exactamente como queriam os britânicos. E Durão sobreviveria: anulou o seu consulado e a defesa dos tratados, deixou no Conselho e na cacofonia europeia a gestão da crise do euro e das dívidas soberanas. Renovou o mandato, o caos instalou-se na Europa do sul, os contribuintes pagaram a factura e os especuladores recolheram os despojos.

Durão Barroso e Goldman Sachs são companheiros de uma mesma viagem, que nos mina o projecto europeu e a democracia das nossas instituições. Silêncios e opções em Bruxelas, coniventes com o sistema financeiro, fizeram dos banqueiros os vencedores da crise que criaram e dos povos meros cativos desta guerra.

Do mais ferrenho europeísta ao soberanista mais reactivo, quem ousa hoje levantar a voz em defesa de uma ideia de Europa, quando a Europa real é comandada por antigos e futuros empregados de banqueiros? Quem pode hoje defender este Grande Leviatã? O último a sair apague a luz.

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