Ganhar tempo

O texto foi publicado no Diário Económico (28 de Julho de 2016)bruno_carapinha

A crise artificial da expectativa de sanções permitiu a Marcelo medir o pulso ao estado da geringonça – e ele pôs o país e a Europa a ouvir novamente a promessa de estabilidade da esquerda portuguesa. Com matizes e diferenças, todos salvaguardam o empenho no sucesso desta solução. Do que não nos falam é de um projecto de futuro.

Compatibilizar o Pacto de Estabilidade com uma estratégia de crescimento assente no mercado interno era um enorme desafio. Exigiria negociação em Bruxelas, alianças com outros países, bastante sangue frio. E alguma sorte. Navegar à vista e ganhar tempo não soa bem. Mas Portugal depende sobretudo de factores externos para o sucesso de qualquer política interna. A reacção nervosa de todos os quadrantes da sociedade face à ameaça de sanções revela a fragilidade nacional.

Os trabalhos de Costa estão dificultados por depender de um acordo tenso com uma esquerda de tom sindical e crescentemente anti-europeia. Mas o nó górdio que a direita queria explorar revela-se adiado. PCP e BE poderiam quebrar a geringonça, mas têm revelado um pragmatismo invejável. As suas exigências reafirmam a fidelidade ao seu eleitorado. Mas estes partidos mantêm o apoio a esta solução de governo que, apesar das contradições, lhes serve muito mais do que o regresso de Passos. O eleitorado agradece, como mostram as sondagens.

O PS procura ganhar tempo até que uma convulsão internacional lhe mate o programa económico e que o ambiente no país o lance para novas eleições. A legitimidade contestada no início do mandato foi recuperada por alguns sucessos que precisam ainda de consolidação. Adiar várias despesas para o segundo semestre permitiu combater o aperto europeu e neutralizar a oposição. Mas 2017 não será fácil e só um ambiente económico favorável permitirá encaixar os aumentos de despesa que aí vêm.

Ganhar tempo seria aproveitar esta experiência de cooperação para preparar desde já um projecto político que agregue estas forças no futuro e que vá além da recuperação urgente de rendimentos, pensões e salários. Um dia, a navegação de cabotagem já não nos serve.

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