Desde que o sistema ganhe

obama greyObama tem razões para sorrir. Apesar do seu cabelo grisalho, sai da Presidência aos 55 anos, com um futuro pela frente, deixando um legado extraordinário atrás de si, na perspectiva dos americanos. O primeiro presidente negro permitiu a recuperação económica após o desastre em Wall Street e na indústria automóvel (enquanto a Europa ainda arrasta o passo), reorientou a política externa para o Pacífico e para a contenção da China, restabeleceu as relações com Cuba, limitou a proliferação nuclear no Irão, fez um dano grave às economias da Venezuela e da Rússia inundando os mercados com petróleo doméstico e arrancou uma muito desejada reforma na saúde. Obama recuperou o país e a sua tradição de multilateralismo interventor, assegurando uma maior longevidade à supremacia dos Estados Unidos na arena internacional. Um mandato assim não será esquecido.

Há insucessos, claro. Guantánamo mantém-se aberta; o pântano criado por Bush no Médio Oriente desembocou na Síria e no Daesh; o apoio à ‘Primavera Árabe’ e a destruição da Líbia são um desastre; a sua gestão da crise da Ucrânia deixa muito a desejar; a desigualdade social na América é uma crescente bomba-relógio; ter um presidente negro não impede o racismo que sofrem os restantes. Os seus anos também foram marcados pela tensão com os republicanos, radicalizados ao ponto de desencadear mudanças na sua base de apoio perigosas para o seu próprio partido. Na ânsia de destruírem Obama, bloquearam várias iniciativas presidenciais e o governo chegou a fechar quando se recusaram a aprovar o alargamento do défice estatal.

Mas antes de sair, Obama teve direito a uma vitória final. Vai entregar a Presidência aos Clinton, num acordo que suspeito ter sido feito ainda em 2008. E vai entregar-lha ao mesmo tempo que se assiste à destruição do partido republicano, que assinou uma sentença de morte quando fez
de Trump o seu candidato presidencial. Foi Obama que lançou o ataque e aproveitou o óbvio erro de Trump ao atacar os Khan e a memória do seu filho morto no Iraque ao serviço das forças armadas americanas. A quantidade de republicanos que apoia Hillary não pára de aumentar. E isso levanta questões interessantes sobre o futuro de ambos os partidos.

Na convenção republicana estavam ausentes as figuras de referência. Ela foi tomada por gente que tipicamente não compareceria ali. Trump revolveu o húmus do fundamentalismo à direita, do ódio racial, do proselitismo religioso e dos ricos mais conservadores e trouxe-os todos ao de cima. É o culminar de um processo que não é novo – não espanta que Sarah Palin o apoie, tal como todo o sector pró-armas. Quem não se recorda das acusações sistemáticas contra o presidente Obama (sobre a sua nacionalidade, a sua religião, a ligação ao islamismo ou alegado socialismo)?

Mas o Tea Party foi ultrapassado por Trump e perdeu o controlo sobre a situação. Fica para a história o momento em que Ted Cruz foi vaiado por não fazer uma declaração de apoio a Trump. O que acontecerá após a eleição, mesmo com a derrota de Trump? Para onde vão aqueles delegados, o que farão ao Partido Republicano as pessoas que descobriram que afinal poderiam ser a maioria naquele partido? Nas próximas eleições e escolha de candidatos aos diferentes órgãos locais, estaduais ou federais, como vai o partido evitar que estas pessoas desempenhem um papel predominante? A luta interna já arrancou.dnc

Mas também a convenção democrata foi uma surpresa. Sanders tentou unificar o Partido, não alimentando o repúdio dos seus apoiantes à candidata democrata. Mas a convenção em si foi atípica, não veiculou os seus valores típicos e esteve centrada no enaltecimento do patriotismo. À primeira vista, pareceria que os democratas estavam a deslocar-se para o centro e a fazer uma OPA sobre o discurso, os valores e a iconografia dos republicanos moderados. Até que ponto é que os novos apoios de Hillary não vão condicionar-lhe a estratégia política? Sobretudo tendo em conta o seu desempenho como Secretária de Defesa, na caça a Bin Laden, no lançamento da campanha de assassinato por drones, no desmantelamento da Líbia (e abertura de espaço ao Daesh), será que ela se diferencia de um presidente republicano moderado? Até que ponto não vão vários eminentes especialistas e figuras moderadas do Partido Republicano sentir-se atraídos para uma cooperação com esta presidente?

Para o movimento iniciado pelos libertários do Partido Verde há uns anos, que teve um fôlego maior com Bernie Sanders, todas estas movimentações têm enorme interesse. À medida que as sondagens revelam a polarização à volta de Hillary e tornam a vitória de Trump improvável, o espaço para reclamar um voto em consciência e de esquerda vai aumentar. O Partido Verde tem votações muito reduzidas, mas está a começar a ganhar alguma visibilidade nos média do país. A candidata Jill Stein procura captar os apoiantes de Sanders descontentes com o acordo feito com Hillary. Um acréscimo de votos em alternativas aos partidos do sistema pode ajudar a reconfigurar o mapa da política americana, especialmente à medida que fracassarem as políticas paliativas na área social e ambiental.

Apesar do acordo entre Sanders e Hillary, é clara a desconexão entre Hillary e os esperançosos de uma transformação da política americana. Clinton inaugurou a globalização económica pós-Guerra Fria, que esmagou a classe média e permitiu o clube do 1%. Ela sabe quem faz parte do clube, já o apoiou e ele apoia-a de volta. Conhece todos os meandros de Washington e eles conhecem-na de volta. A sua plataforma política muito rapidamente passará a contar com as figuras mais proeminentes do sistema social e económico do país. É curioso. Na eleição mais disruptiva do sistema, disputada entre um empresário egocêntrico e uma política de carreira, a eleição de uma mulher é a melhor garantia de que o sistema se mantém igual.Trump-and-Clintons

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