Eu carreguei num botão!

Perante a insistência do Linkedin, por acidente, pressionei um botão. Não pensei muito no caso, havia uma recomendação para aceitar o procedimento e a aplicação estava emperrada naquilo. Ainda procurei por um ícone que permitisse saltar a operação que me propunham, mas, por erro meu ou por excelente disfarce feito pelos criativos desta aplicação, não parecia evidente como sair do sarilho.

Vai daí, carreguei num botão. E foi como iniciar o Armagedão! Saíram disparados centenas de convites para me amigar na aplicação. Foram desenterrar contactos esporádicos de profissões antigas, e-mails que iam em mensagens de grupo em projectos internacionais, gente que mora a milhares de quilómetros de distância, pessoas com quem tive relacionamento amoroso e que agradeço não rever. A aplicação cruzou contas de e-mail profissionais e pessoais, os contactos telefónicos, o Facebook, o Whatsapp, as senhoras a quem comprei velharias lá para casa e o diabo a sete. Só não me foi buscar gente ao Tinder, porque não tenho conta. Ainda… O dia vai a meio e já recebi mensagens de várias paragens do globo a tentar reconstituir exactamente o nosso ponto em comum… Um embaraço.

big data

Isto deu que pensar. É um facto que a integração de dados e a forma como estas ferramentas nos apoiam no dia-a-dia nos conduz a uma existência mais facilitada. Já ninguém planeia com rigor a visita a uma cidade estranha, olhando mapas e fazendo cálculos de distâncias: ligamos o GPS e a aplicação diz-nos como, onde, quanto tempo. Já não há contactos ou fotos perdidas de cada vez que nos roubam um aparelho ou que este se estraga. Mas, por outro lado, esta história do cruzamento de dados que as aplicações realizam com a nossa indiferença tem de nos fazer pensar com mais rigor o que andamos a fazer com a nossa privacidade. Há todo um negócio a ser desenvolvido com base nos dados pessoais, com empresas especializados na sua recolha, tráfico e venda para fins comerciais. Bom, para fins comerciais e para fins políticos. O interesse neste tema parece ter despertado empresas, marketeers e instâncias de governo nacionais e supranacionais. E só muito lentamente chegam os utilizadores ao debate sobre a consequência de vir a pressionar um botão.

Qualquer entidade com meios e poder suficiente pode montar um sistema de vigilância sobre cada uma das nossas acções, sobre o que dizemos directamente de nós próprios e sobre o que não dizemos mas permitimos que se saiba de nós indirectamente. Observam que páginas observamos, que likes fazemos, que ideias partilhamos, que interesses temos, que orientação sexual vamos desenvolvendo, com quem nos relacionamos, a que horas estamos e onde vamos exactamente. As rotinas que vamos fazendo são registadas, armazenadas e no futuro serão até utilizadas para prever e descrever padrões de comportamento.

Em breve, será possível calcular com um grande eficácia onde estaremos em certa altura do dia ou mês e como reagiremos a determinada situação. Que a minha mãe saiba isto, é uma coisa. Que a Google, os sistemas de segurança e espionagem ou grandes corporações saibam isto é outra. Sobre mim, em 2016, é perturbador. Recolhido ao longo de anos acerca de um potencial primeiro-ministro, abre portas para um mundo assustador. O cenário de poder ter decisores políticos sujeitos à pressão de quem tenha ao alcance os registos de segredos, pormenores de vida, fragilidades e desejos íntimos abre um capítulo pós-democrático que não há software de contra-medidas que nos reconforte.

Quanto a mim, regresso às minhas aplicações. Tenho muitos pedidos de desculpa para fazer pelo spam causado. E vou precisar de reequacionar que aplicações deverei manter e com que nível de acesso aos meus dados pessoais.

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