Alea jacta est

A intempestiva entrada em cena de Kristalina Gregorieva foi ao mesmo tempo feita de cautelas. Pediu uma licença sem vencimento para a sua candidatura – como quem antecipa uma derrota como uma possibilidade. Fez discurso redondo quando confrontada com a questão ucraniana e, assim, fez-se tributária do status quo do poder russo no terreno – o que desagradará a vários outros Estados. Centrou a sua mais-valia na sua condição biológica de mulher – e fracassou em mostrar o mérito objectivo da sua candidatura, o que a obrigaria a debater política.

As notícias que dão conta da abertura da Rússia a apoiar António Guterres mostram que está tudo ainda em aberto. A movimentação de Berlim e Bruxelas pode muito bem dar em nada. A ser assim, a irrelevância geopolítica da Europa seria uma vez mais publicamente exposta. É um facto que os países com ambições ao reconhecimento como potências regionais tratarão de levantar. O grande desafio na ONU não são as tensões políticas entre Estados e as forças sociais que elas representam em determinado momento – elas fazem parte do ADN da organização, são a razão da sua existência. O grande desafio é a sua própria reforma.conselho-seguranca

O sistema internacional é uma grande panela de pressão. Os processos de globalização e de maior interdependência económica e política entre Estados acrescenta novos focos de tensão. Ora, a válvula de escape dessa pressão é a ONU. Mas o Conselho de Segurança está calibrado ainda para um sistema de Guerra Fria que já não existe. Que sentido tem hoje dar o direito de veto à França e à Inglaterra e não incluir no órgão como membros permanentes o Brasil, a Índia, o Japão, um país africano e uma potência do mundo islâmico?

O próximo secretário-geral terá de avançar com a reforma da ONU, uma reforma que não ameace os Estados Permanentes (P5) do Conselho de Segurança, mas que seja claramente reconhecida pela esmagadora maioria dos membros da Assembleia-Geral como legítima e equilibrada. Ou isso, ou arrisca-se a um destino semelhante ao da Sociedade das Nações, contornada e ignorada para o mundo mergulhar no terror da II Guerra Mundial.

Hoje saberemos como se alinham os P5 do Conselho de Segurança. A minha suspeita é que nenhum dos membros permanentes terá vetado o candidato Guterres até hoje. Mas isso pode muito bem mudar, se houver trade-offs entre os Estados que têm interesses maiores em causa do que o Secretariado da ONU. No grande jogo da arena internacional, ganhar ou perder esta corrida não diz nada sobre os méritos de Guterres. Ele é indiscutivelmente o melhor candidato entre os que se apresentam. Digo isto não por ele ser português. Não o quereria para primeiro-ministro – e ele mostra pouca vontade de regressar ao velho pântano. Mas para além de uma argúcia invulgar e uma oratória invejável, Guterres é um grande conhecedor da ONU e um ímpar congregador de vontades, pondo-as ao serviço da conclusão dos desígnios em que se aplique. Parece feito à medida da organização. Quem não quer um Secretário-Geral da ONU assim?unelectiondebate

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