Revolta sem rebelião

ex-gestoresHá uns anos, Ricardo Araújo Pereira explicava a diferença entre a morte natural e a morte política (a partir do minuto 20′). No primeiro caso, ambiciona-se ir para o céu; mas no caso da segunda, vai-se para CEO. Entre o humor e a irritação resignada, a elite que nos dirige sente-se impune, conhece os meandros que a própria vai elaborando, vive do sistema em regime de conivência completa – com os partidos do lado de lá, com a teia de empresas e escritórios de advogados, com o encolher de ombros de quem sente não poder impedir o que se passa.

A falta de vergonha estabelecida como gangrena permanente da II República está transformada em instituição perene do Estado. Ela repousa descansada em cima da ignorância e da apatia da maior parte da população. Tudo isto acontece porque deixamos, porque queremos, porque nos limitamos aos protestos nas redes sociais. Há um ambiente de ambivalência para a corrupção em Portugal. Os portugueses oscilam entre o repúdio a estes casos, a acusação militante de casos semelhantes de forças políticas oponentes e a inveja de não beneficiar também: vamos todos conformando-nos ao sistema, criando e mantendo réplicas, adensando a teia, até não sair dela. Num clima de faroeste, com o exemplo vindo de cima e a impunidade assegurada a quem prevarica, um português que cumpra as regras sente-se parvo. Fica-se assim fechado numa revolta que não deriva nunca em rebelião. É essa capacidade de dar consequência à revolta que se sente que nos falta como povo; e isso mudaria tudo no nosso sistema político.

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