Por um prato de lentilhas…

A narrativa da saída limpa foi repetida até à exaustão. Maria Luís Albuquerque, assertiva, dizia a jornalistas e à oposição, que a execução do memorando de entendimento correra bem, que o país estava a crescer, que este era o único caminho e até que as contas estavam todas bem encaminhadas e controladas. Em 2015, ano de eleições, gastava-se a folga orçamental e, a reboque do recuo que o Tribunal Constitucional forçara ao governo, criava-se a ilusão de que havia alguma recuperação em marcha. Nada poderia perturbar o conto de fadas. paf campanha

Sabemos agora, as bombas estavam reservadas para o pós-eleições. Arranca com o caso Banif, em que a negligência e o dolo na gestão do processo se tornam evidentes para um leigo. Mês após mês, ano após ano, o Estado, o maior accionista do banco, ignorou a situação sem corrigir os planos de reestruturação do banco, que foram sempre recusados pela Comissão Europeia, e nem sequer nomeou um administrador para o tentar estabilizar. Não parecia haver interesse na solução do problema. Maria Luís Albuquerque deixou a situação arrastar-se e abriu espaço a uma resolução catastrófica para o erário público que a Comissão Europeia impôs ao governo de António Costa. É preciso esperar pelos resultados da comissão de inquérito parlamentar para tirar conclusões, mas a coisa não cheira bem, é bastante evidente.

A descoberta de alçapões financeiros é feita a uma velocidade assustadora, com novos e crescentes sarilhos para a execução orçamental de 2016 todos os dias. A nova bomba é a de que o Estado português foi condenado a pagar 1.800 milhões de euros ao Santander pela suspensão unilateral dos contratos swap feitos pelas empresas de metro de Lisboa e Porto, Carris e STCP. A decisão é do cancelamento é de Maria Luís Albuquerque, mas os swaps foram feitos no tempo de Sócrates. Esta perda vai ter consequências pesadas nas contas públicas, mesmo que não imediatas. Para um bom termo de comparação, basta assinalar que o OE2015 previa para o todo o ensino superior (instituições de ensino e acção social) 900 milhões de euros, ou seja, metade deste valor.

'Saída Limpa', Pedro Vieira

‘Saída Limpa’, Pedro Vieira

Entre expectativas do eleitorado e  exigências da esquerda parlamentar, por um lado, e pressões dos amigos do anterior governo em Bruxelas e na banca e o terreno minado que este lhe deixou, por outro, se o governo levar esta execução orçamental a bom porto, tiro-lhe o meu chapéu. São muitas as nuvens negras adiante.

Mas observemos esta personagem. Maria Luís Albuquerque tem carreira técnica no sector público, pulando entre gabinetes ministeriais, empresas e agências e institutos públicos. Seria de esperar que ela quisesse defender a sua reputação de competência –  mas isso está a ser arrasado por estas notícias. Lembro uma proposta de Passos Coelho de 2010 e 2011: devemos responsabilizar o anterior governo civil e criminalmente?

Foi pela sua actividade política que Maria Luís Albuquerque ganhou notoriedade e peso no país. Posso discordar das suas posições, mas admito que uma opção de vida futura seria a carreira política. Claro que sobreviver nesta arena, implica poder manter um estatuto que nos deixe andar de espinha direita, como sugeria o Passos de 2010. Mas a agenda da ex-ministra é outra: em vésperas de investigação ao que sucedeu no Banif, foi contratada pela Arrow Global, uma empresa dedicada a gerir crédito malparado, que está envolvida em negócios com o Banif. Quer portanto dizer que esta é a mesma ex-ministra cuja política causou tanta insolvência de
famílias e empresas (gerador do elevado nível de crédito mal parado); é a mesma ex-ministra que evitou resolver a situação do Banif, que tanto deu a ganhar a abutres como a empresa que acaba de contratá-la; esta é a mesma ex-ministra que conhece o sector de trás para a frente, as suas ligações, segredos e armadilhas. Pois é também a mesma Maria Luís Albuquerque que, passados três meses apenas, vai vender os seus arrowsegredos e calar outros a uma empresa do sector que tutelou…

O coro de protesto e indignação corre da esquerda à direita. Manuela Ferreira Leite acusa-a de falta de bom senso. O BE exigiu uma investigação, enquadrada pelo inquérito ao Banif. E, ainda que a ex-ministra se refugie na legalidade, dizendo que não há incompatibilidade prevista no Estatuto dos Deputados, a verdade é que depois da discussão gerada em torno da candidata presidencial Maria de Belém, não há mais condições para esse tipo de argumentação. Isto é só mais um episódio de um modus operandi que já não nos devia surpreender. Em 2013, logo após a privatização da EDP feita por ela, o seu marido foi contratado pela mesma empresa… E não, eu não tenho medo de escrever factos

Maria Luís Albuquerque vai ser contratada como administradora não executiva. Quer dizer que não vai tomar qualquer decisão ou dirigir a empresa. Ela vai somente dizer à Arrow Global como ganhar mais dinheiro com o sector – do alto do conhecimento adquirido quando fez parte do governo; de dentro da Assembleia da República que aprova a legislação do sector e fiscaliza os restantes órgãos que exercem acção sobre o mesmo. A empresa pagar-lhe-á para reforço da sua influência em Portugal, um mercado apetecível, cujo sistema bancária está tão frágil. Há uma vantagem: a máscara sobre esta gente que nos governou teve queda rápida. Abençoada cobiça, mãe do suicídio político. Por um prato de lentilhas…

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