Uma curva apertada para o CDS

O excerto foi publicado no Diário Económico (3 de Março de 2016)bruno_carapinha

Os 18 anos de liderança de Paulo Portas são uma marca difícil de ultrapassar. Portas moldou o CDS à sua imagem e semelhança: a maleabilidade táctica é total, o objectivo central é atingir o poder, o pragmatismo está à frente de qualquer imperativo filosófico e a medida de todas as coisas é a eficácia eleitoral. O preço a pagar foi alto, pois transformar o CDS (que já foi PP, já foi CDS-PP e já foi de novo o seu contrário) numa concha vazia onde coube a democracia-cristã, o neoliberalismo agressivo e o nacionalismo anti-europeu comporta riscos para a identidade do grupo, após a saída de um líder carismático. Portas é o grande artífice, capaz de um travestismo único no panorama nacional e de criar soundbytes. A sua sobrevivência política exigiu-lhe a transição do CDS de um partido eurocéptico, irrelevante e de oposição à direita para uma peça central da governação de direita em Portugal e da integração na UE. E foi esse sucesso, não a coesão ideológica, que manteve todos os grupos internos juntos.

Assunção Cristas é muito diferente, embora tenha outras valências, que o CDS aproveitará para renovar a imagem. Trata-se da primeira mulher a liderar o CDS, que representa a nova geração do partido, tida por combativa e ambiciosa. A sua experiência governativa vem em auxílio de uma imagem pública positiva, pois a reduzida contestação de que foi alvo permite passar entre os pingos da chuva da nossa memória colectiva. Claro que o Ministério da Agricultura é uma pasta menos central, mas considerando que se tratava de um governo de austeridade, continua a ser um feito. O seu estilo de comunicação é eficaz e ela aparece ao público como a portadora de uma agenda conservadora, sem que isso seja questionado. Ao contrário de Portas, cujos ziguezagues tácticos causavam tensão no seu campo político, Cristas não sofre escárnio. Para a direita mais conservadora, ver uma senhora, católica, casada e com filhos, a substituir um eficaz e truculento homem celibatário não assumido é uma melhoria…

Na frente externa, a nova liderança poderá ter algum apreço. Tudo depende da gestão da sua oposição a António Costa, mas até pode vir a confirmar o peso que Portas conseguiu impor a Passos Coelho no parlamento. Os grandes desafios de Cristas são internos. Na saída de Portas, vai ter de afirmar a sua liderança, entre a diferença e a continuidade do CDS, cuja eficácia terá as sondagens e os resultados nas eleições autárquicas como medida. Com o fim da coligação, importa agora ao CDS desenhar uma estratégia autónoma de regresso ao poder. Um regresso rápido é central num partido cuja coesão interna tem dependido da distribuição de vantagens à sua clientela. Não se adivinha nesta fase capacidade para recolocar a filosofia política de novo no centro da discussão interna.

Durante o longo ciclo de Portas, o CDS evitou uma definição ideológica que pusesse em perigo o sucesso eleitoral. O anterior líder tinha a sensibilidade certa para adivinhar as flutuações do eleitorado. Mas é duvidoso que haja na direcção que emergir deste congresso alguém com este instinto político e acutilância comunicacional. Para já, as várias alas do CDS vão dar-lhe espaço, mas Cristas terá de fazer prova de vida. Ou isso, ou o partido regressará à irrelevância política e às guerras internas. Toda a gente sabe que os sucessores de líderes carismáticos se arriscam a ser meras fases de transição. Fará ela melhor?

 

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