Je suis Raposo, uma porra!

A esquerda acordou num sobressalto há dias e descobriu que a liberdade de expressão em Portugal estava ameaçada pela fúria que incendeia as redes sociais contra o Henrique Raposo. A direita já antes estava indignadachocada. Quando um idiota provocador se cruza com idiotas primários, dá faísca. Mas Raposo não é mártir e eu não apoio a sua estratégia de marketing…

Henrique Raposo é um rapaz que, em busca de atenção ou reconhecimento, insulta há anos, sem graça e de forma aviltante por vezes, tudo o que lhe cheire a levemente progressista. Numa época em que vivemos de cliques para aferir da qualidade de um autor, ter textos provocatórios e agitar o espaço público compensa. Por isso, ele tenta criar polémica e dá à estampa artigos ressabiados, cheios de lugares-comuns e de preconceitos taxistas sobre tudo e mais alguma coisa, polacas incluídas. O nível de alguns daqueles textos envergonharia o jornal da minha faculdade, mas parece ter convencido quem dirige o Expresso, que lhe assegurou a passagem dos blogues para a imprensa.

A leitura dos seus textos foi coisa de que desisti há anos, pois ele anda sempre em volta de uma mesma abordagem partisanista, sem rasgo ou inovação, em que emerge o complexo de grupo acantonado. É a atitude de um certo sector, com origem num tempo em que a experiência do fascismo português não tornava a vida fácil para quem se assumia de direita. Um tempo que um rapaz com a idade de Raposo não viveu, mas cujo complexo exibe, numa espécie de ajuste de contas constante com um país de que ouviu falar.

Hoje em dia, o espaço público e mediático português está dominado pela direita e abundam os companheiros de Raposo. A questão, portanto, não se resolverá dando-lhes mais espaço ainda. É um problema que já só lá vai com terapia. É que, em boa verdade, censura tem havido sobre os autores e os académicos que não alinhem estritamente pela batuta de um pensamento dominante, ou não façam a sua revanche contra o 25 de Abril, o Estado Social e a história do país dos últimos 40 anos. O apagamento de quem não se encaixa nesse modelo é quase total. Se há certeza que o Vasco Pulido Valente pode ter é que pode morrer descansado que não faltam cronistas candidatos ao lugar de mal disposto com o país.

 

Pois Raposo decidiu desta vez fazer um road book sobre o Alentejo. Desconhece-se o conteúdo do livro, excepto o que o autor nos quis contar neste programa com um tom cheio de ar quente de quem diz coisa séria e bem pensada. O que ele diz é um achismo idiota, sem preocupação com a verificação científica e estruturada da realidade que descreve. Ele parte da experiência individual e familiar (real?, mitificada?, ocasional?) para a generalização sobre uma enorme região do país. Fica claro que Raposo não conhece o Alentejo, não o percebe, que o vê através de um olhar preconceituoso que não questiona, só confirma convicções anteriores –  e que está a usar o tema apenas em busca de notoriedade. O vídeo correu o país e originou manifestações de repúdio e até ameaças, pelo que o local original para o lançamento da grande obra se recusou a alojar o evento. E logo aqui se exigiu uma separação de águas.

Há uma diferença muito grande entre censurar uma obra – no sentido de impedir a sua edição, difusão, leitura – e censurar publicamente um autor – no sentido de criticá-lo, denunciá-lo e, nos devidos limites, até injuriá-lo (leiam-se algumas injúrias e réplicas hilariantes na monarquia constitucional e na I República, em que era possível chamar políticos e autores de asno para baixo com graça). Presumir que se podem dizer enormidades sobre os outros ao abrigo da liberdade de expressão e que se pode e deve daí sair impune foi o equívoco de Raposo. Tem funcionado até agora. O rapaz vai exibindo como medalhas o incómodo que vai causando nos outros. É por isso que deixei de o ler, dali não sairia nada de novo. Mas tal como repudiei o ataque ao Charlie Hebdo, também sei reconhecer que os seus cartoons eram insultuosos e de mau gosto. É por isso que é essencial defender o direito à indignação – desde que esse direito não ultrapasse limites como a censura da obra ou a segurança pessoal.

As reacções foram claramente exageradas. Mas as redes sociais são um espaço em que se destila ódio e se afrontam as pessoas com a sensação de impunidade. O autor já o devia saber: foi aí que ele começou a sua carreira de instigador da guerra direita-esquerda. E, suspeito até, era isto mesmo que ele queria. Toda a estratégia de marketing (publicar um capítulo no Observador, ir fazer declarações polémicas à SIC Radical, etc.) visava dar destaque a um livro que rapidamente seria esquecido se não fosse assim.

É claro que não se vai censurar o livro. E é evidente que se deve proteger o rapaz, embora se saiba que as ameaças feitas na Internet são geralmente tão inconsequentes como a inscrição em eventos e manifestações no Facebook. Mas que ninguém me peça agora declarações je suis Raposo. E não digo isto por causa da minha costela alentejana. É que não estamos perante alguém com estatuto para mártir. É somente um provocador a sentir o efeito da provocação.

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