Um tiro em cada pé

Chegámos ao fim de um percurso difícil e bastante desafiante de eliminação progressiva da desigualdade no tratamento dos cidadãos na lei em função da sua orientação sexual. As forças e as organizações que fizeram essa luta têm todas as razões para a alegria. Mesmo contra a vontade de um Presidente anacrónico que, de forma continuada, se manteve opositor desta agenda, a verdade é que em poucos anos se instituiu o casamento e a adopção por casais do mesmo género. Cavaco é mesmo o presidente que mais diplomas promulgou no sentido desta abertura – e sabemos que não o fez feliz. A sociedade portuguesa estava finalmente receptiva a essa mudança e o tema mobilizou até o apoio de deputados à esquerda e à direita.

Entre os partidos, devemos reconhecer, foi o Bloco de Esquerda que serviu de refúgio ao movimento político LGBT, na senda de uma tradição política que pude verificar já existir no PSR antes da fundação do BE. Os anos 90 eram ainda muito fechados, com o PS guterrista surdo ao lol-300x220assunto e o PCP a dissimular a homofobia na prioridade à luta dos trabalhadores contra o
capital. Na direita, então, nem vale a pena falar, apesar dos inúmeros homossexuais no armário que por lá andavam (e andam).

É portanto natural que o BE celebre a vitória conseguida nesta legislatura: ela também é uma vitória da sua agenda e o BE quererá recordar-nos do papel central que desempenhou nesse processo. Mas a campanha de rua com que o BE fará esta celebração representa um tiro em cada pé. 

Primeiro, porque chama a religião de volta a um debate de onde foi tão difícil tirá-la. Hoje em dia, muitos dos católicos são apoiantes da igualdade consagrada na lei à comunidade LGBT – e não encontram nisso incompatibilidade. Segundo, porque ao iniciá-la com uma provocação, cria condições para dividir a própria comunidade LGBT e arrancar com um debate paralelo que secundariza o que deveria ser o tema central. A quem interessa isto?

Infelizmente, é mau gosto. O BE a fazer de adolescente provocador sem necessidade alguma. Nenhum casal gay ou lésbico, nenhum pai ou mãe pediu para fazer da vitória da sua igualdade a derrota dos cristãos (especialmente aqueles que poderão ser mais sensíveis a este assunto). Pediram apenas que não os obrigassem a escolher entre a sua natureza e a sua cidadania.

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