O bluff do Brexit de Cameron

O excerto foi publicado no Diário Económico (18 de Fevereiro de 2016)bruno_carapinha

Cameron cavalgou o populismo anti-europeu, ganhou as eleições e controlou a oposição interna. Agora precisa da vitória em Bruxelas para justificar a próxima curva do seu ziguezague. O Reino Unido tem uma história política complexa em que laboriosamente se instituiu o primado do Parlamento sobre todos os poderes que o confrontaram. O regime especial que ali se constituiu está de tal forma implantado na consciência do britânico médio, que a legislação feita em Bruxelas só pode parecer uma imposição ilegítima à opinião pública nacional. É que, em relação à Europa, aos britânicos preocupou sempre uma coisa acima de todas as outras: que nunca se criasse no continente um poder suficientemente forte e ameaçador que pudesse restringir a segurança que as suas ilhas lhes dão e a supremacia que o seu império definiu. Não é de estranhar, por isso, que não tenham querido fazer parte do projecto europeu no início e que, repetidamente, contestem a próxima fase de aprofundamento da união política.

A Grã-Bretanha substituiu a força do império pela força da sua relação especial com um aliado anglófono, os Estados Unidos da América. Churchill, ao contrário da elite inglesa do seu tempo, não desdenhou a antiga colónia e reconheceu a tempo que ela fazia um caminho de ascensão para os substituir no sistema internacional. Foi aos americanos que recorreu para destruir uma alternativa ao poder britânico no mundo e que se lançara, pela segunda vez, à conquista de um império europeu e mundial: a Alemanha. Será nos escombros da guerra que se reergueu a ideia de Europa, agora sem predomínio de um Estado-nação, num esforço de criar a paz duradoura no continente. Aos britânicos não interessava, nunca interessará, que a ideia de Europa possa vir a lançar raízes, tornar federação o conjunto de nações desavindas ao longo de séculos e vir a jogar um papel de relevo no sistema internacional que ofusque definitivamente o seu papel no mundo. Perante a impossibilidade de impedir o projecto, a Grã-Bretanha teve de juntar-se a ele. Para o controlar e o conter? Seguramente. Será neste equilíbrio entre o bloqueio a um projecto político e a exploração de oportunidades de negócio do mercado comum europeu que o Reino Unido desenvolverá a sua estratégia face à União Europeia.

Cameron sabe que a saída do Reino Unido da UE teria sempre um impacto muito negativo na sua economia. A integração das cadeias de produção e de comércio dos países europeus não facilita a saída de nenhum dos membros da UE: e todos querem, por isso, o mercado comum. Toda a ideia do Brexit de Cameron é um bluff e uma parte importante do seu partido e da oposição acusa-o disso mesmo. Mas há um indisfarçável mal-estar na sociedade britânica na forma como a liberdade de circulação de pessoas se impôs a um país a quem apenas interessa a liberdade de circulação de mercadorias e capitais. É o projecto político da Europa que está em causa: porque não recuar na integração? Os britânicos sempre se opuseram à ideia de cidadania europeia e, se apoiaram um rápido alargamento da UE, foi para assegurar uma menor capacidade de acção de Bruxelas, por via da crescente contradição interna de interesses que isso traria à UE. Não foi para ter de suportar a vinda indiscriminada de emigrantes e tratá-los como aos nacionais…

As correntes que falam pelo mal-estar britânico aproveitam a fragilidade das lideranças da UE para as encostar às cordas: acabar com o princípio de igualdade de tratamento dos europeus, meter o pé na porta na governação da Zona Euro (mesmo sem pertencer a ela), fazer o bloqueio à regulação da Comissão e ao poder do Parlamento Europeu. Assegurar assim que não haverá qualquer aprofundamento do projecto político. Por todo o lado, acumulam-se os factores de dissolução interna nesta UE fraca, entorpecida pela crise económica, que institui um continente a várias velocidades, sujeito às crises do euro e dos refugiados cuja resolução é sempre adiada.

Que confiança podem ter os cidadãos da Europa se ela ceder nestas questões? Esse é um ponto central. Ceder à chantagem de Cameron é a palavra de ordem em todas as chancelarias europeias, para salvar o projecto europeu, que não sobreviveria a um Brexit. Mas, inversamente, aceitar o bluff de um Estado-membro pode ditar o fim antecipado da UE, sobretudo no caso de um país que já é campeão das excepções aos tratados. Este recuo alimenta o fogo nacionalista noutros países, cujas forças políticas multiplicam exigências semelhantes, que podem tornar a UE ingovernável a prazo. Não haverá argumentos para recusar a checos e a húngaros a entrada em vigor de excepções desta natureza. Num tempo do coro crescente por um regresso ao soberanismo, aceitar estas condições é que põe em causa a coesão da UE, mais do que a ameaça de um Brexit.

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