A Negação. Ou desfaçatez.

A saída do poder deixou a direita numa desorientação política que a sucessão de casos e de argumentos contraditórios têm mostrado. Goste-se ou não, um partido como o PSD tem uma importância central no funcionamento do sistema político do país, representando de facto grupos sociais e visões sobre o Estado, a economia e a sociedade que precisam de um veículo para a sua expressão – de preferência de uma forma construtiva. O predomínio de um discurso inflamado e catastrofista por parte dos dirigentes do PSD é preocupante. Por um lado, porque nos revela uma predisposição para rebentar com o regime se ele não tiver mecanismos para o triunfo desse grupo – e isso é um sinal alarmante do ponto de vista democrático. Por outro lado, porque, embora seja eficaz para deixar o partido cativo da actual liderança, isso cria um clima de incentivo e tolerância a atitudes de ressabiamento e de divórcio emocional entre o regime político e a base militante e eleitoral desse partido.

variação esquerda-direita
Sun Tsu alertou-nos há 2.500 anos: quando cercares o inimigo, deixa-lhe uma saída, pois caso contrário ele lutará até a morte. Um olhar rápido sobre as eleições legislativas dos últimos 20 anos esclarece-nos o dilema em que se encontra a direita portuguesa. Ao longo de anos a fio, após o cavaquismo, a direita reuniu maioria absoluta apenas em 2002 e em 2009. Num total de 8 governos constitucionais, 3 resultam de acordos entre PSD e CDS, mas apenas governaram 7 anos e meio. Nos restantes 12 anos e meio, o PS esteve no poder. Ora, a plataforma política à esquerda vai tornar o regresso da direita ao poder muito mais difícil. Como vai o PSD defender um regime sem perspectiva de voltar a governá-lo? Também o PS vai ter de pensar nisto.

Diz-nos o Elisabeth Klüber-Ross sobre a forma como lidamos com a nossa morte ou o com o luto que, tipicamente, passamos por cinco estadios: Negação, Raiva, Negociação, Depressão, Aceitação. A maioria dos dirigentes, articulistas, comentadores e jornalistas de apoio à anterior maioria ainda não passou do nível Raiva. Primeiro, foi a acusação de golpe de Estado ao acordo entre os partidos da esquerdapassos banif e a promessa do caos na bolsa por serem arredados do poder. E se o gasto da folga orçamental e até o aumento do défice estrutural em 2015 deveria envergonhá-los, ao invés, têm feito uma despudorada campanha de desinformação e de medo, acusando o novo governo de um brutal aumento de impostos, dizendo que era a classe média que estava sob ataque no OE2016 e fazendo correlações entre a instabilidade bolsista e a política do novo governo. Vimos gente a torcer para que as agências de notação desfizessem o país. E Rangel no Parlamento Europeu, atacando o novo governo e a maioria que o sustenta, pediu o chumbo da Comissão Europeia. Já Portas simulou que apoiou o país junto de Juncker.

Se isto não é sinal de raiva, não sei o que será. Passos, ao contrário, ficou-se pela negação. A oferta da TAP aos privados por um preço ridículo e o aumento dos gestores em 150% para um valor obsceno por parte de um governo demitido foram o primeiro sinal. Passos, demitido, era Passos, o PM, enquanto quisesse. No caso do BANIF, onde afundaram milhões de euros dos contribuintes, mas sem nunca nomear um gestor público ou procurar uma solução para um problema crescente, revela a mentira como estratégia continuada da sua acção política. Até mesmo no caso Efisa, em que o financiamento público antecipa o regresso de Miguel Relvas, agora como banqueiro – achava ele que não íamos notar? E quem se recorda da devolução da sobretaxa, o embuste eleitoral para contribuinte tótó? Ou Passos está em negação, ou trata-se do maior pantomineiro que alguma vez governou Portugal. leitão amaro

O resto do partido dá-se conta do absurdo, naturalmente. No debate sobre o Orçamento de Estado de 2016, em que o PSD ora o acusou de ser irresponsável, despesista e pouco credível, ora o acusou de ser austeritário e apresentar aumentos de impostos para compensar perdas, os barões ficaram em silêncio e atiraram para a fogueira do descrédito os jovens fiéis e ambiciosos como Leitão Amaro e Hugo Soares. Nenhum dos pesos-pesados se quis colar muito a esta fase, mas também não pôde cortar com um líder de quem dependem inteiramente. E até Passos se poupou a grandes manifestações e polémicas, procurando controlar a sua imagem pública, agora em campanha pela Social-democracia, sempre… O PSD mais antigo lá balbuciou alguma coisa, entre uma Manuela Ferreira Leite equilibrista, um António Capucho exilado e um Rui Rio a marcar terreno para daqui a uns anos (ou décadas…), sempre com receio de ser visto como um colaboracionista.

O PSD está nas mãos de Passos e com ele terá de ficar refém da governação antiga e de uma lógica inteiramente pessoal. Passos regressará ao poder se Costa fracassar na sua estratégia e até que isso aconteça ele não vai largar a liderança. Em negação absoluta e total desfaçatez, Passos continuará a falar de um país glorioso que nunca existiu, de Orçamentos de Estado que foram quase sempre inconstitucionais, esquecendo a sucessão de orçamentos rectificativos e de incumprimentos dos objectivos da troika, da Comissão Europeia e até do governo no défice e no desemprego. Hoje mesmo, Passos, o ex-PM, inaugurou uma escola em funcionamento há mais de 2 anos… É de desfaçatez que falamos, Passos sabe bem da realidade. Mas o que me interessa é o PSD: o que acontece a um partido central como este se ele for arrastado para o fundo por esta lógica, sem saber como lidar com o luto da perda do poder? Se não emergir a alternativa que, como propõe Pacheco Pereira, reconstrua o centro político, como vai o regime organizar-se? Quando é que vamos ver o PSD no estadio seguinte?

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