O elogio do cárcere

Acontece com frequência, tem o seu quê de institucionalismo vazio: os presidentes agraciam ex-ministros com condecorações pelo serviço prestado. E também com frequência são ministros de cuja acção política discordo frontalmente. Se a ingratidão no serviço público é muita vez suscitada, a República deve ter gestos de gratidão, disse Cavaco.

Até aqui tudo bem. Mas depois Cavaco decide acrescentar notas extra: as pessoas que vão ser agraciadas vão sê-lo sem que isso signifique qualquer juízo de valor em relação às políticas que executaram. Ora, no caso em concreto, não é assim. A menos de um mês da sua saída de Belém, Cavaco quis condecorar os ministros da primeira parte do XIX Governo que mais representam a opção política de empobrecimento do país e de desmantelamento das funções sociais do Estado. 

Lá está Álvaro Santos Pereira, o estrangeirado que aguardou pelo milagre da austeridade e que nos ia salvar a pastéis de nata. Lá está Paulo Macedo, tão bom gestor cuja poupança na saúde, várias vezes denunciada, causou mortes. Lá está Nuno Crato, que rebentou toda a política anterior e não conseguiu ter um único ano lectivo a arrancar com serenidade. E, claro, lá está Vítor Gaspar, o nosso quarto elemento da troika, que nos deixou a herança de um brutal aumento de impostos.

Cavaco, derrotado pela convergência à esquerda, faz uma espécie de elogio do cárcere passado. É esse o essencial da mensagem política das condecorações. Mesmo a maioria dos ex-ministros socialistas agraciados para compor o ramalhete são representantes de políticas punitivas na educação e restritivas nas finanças.

As condecorações, disse Cavaco Silva, são atribuídas pelo espírito patriótico e de serviço que demonstraram no exercício das suas funções, porque a República deve reconhecer publicamente aqueles que deram o melhor de si próprio para ajudar nas suas convicções a construir um Portugal melhor.

Dito desta maneira, Cavaco tenta ilibar-se da sua clara opção política de sinalizar um apoio conhecido à maioria de direita que ajudou a criar em 2011. Se tudo o que basta para ter uma condecoração é usar de convicções na política, mesmo que isso escavaque o país, até Salazar podia ter uma.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s