Lisboa tem cores

Conheço a Ana Bacalhau há quase 20 anos. Foi na faculdade e na associação de estudantes que os nossos caminhos se cruzaram. Eu acabei a dirigir a organização e a ver à distância um percurso de aventuras musicais, em que se incluiu os Lupanar com colegas como o Gonçalo Tocha, por exemplo. Gente criativa e louca, saudavelmente louca, claro está. O Gonçalo, que me propôs a criação de um núcleo de cinema e vídeo, acabaria por explorar a paixão paralela pelo cinema e ser autor do Balaou e do premiado É na Terra, Não é na Lua.

Quando a revi, já tinha iniciado o projecto Deolinda, numa reinvenção da música portuguesa, em que perpassam sonoridades populares e tradicionais com uma roupagem mais eclética e temas contemporâneos, próprios da nossa geração e de uma vivência urbanizada. E lisboeta, da Lisboa cidade e daquela que vai da Azambuja a Setúbal e se vê diariamente empacotada em quilómetros de travessia apertada. A personagem tem a sua independência, não se perde em amores fatais, tem os amuos e as ganas de mulher tornada adulta na viragem do século. Mas também tem, claro, a ansiedade própria de uma geração educada e bloqueada que se reconhece aqui e ali um pouco desistente e inconsequente. Eu acrescentaria, portuguesa.deolinda

Num encontro ocasional com a Ana, disse-lhe que a música deles cheira a linha verde do metro, a que passa junto à Mouraria e que visita os bairros do Intendente, dos Anjos e de Arroios, onde casas com as comunidades de imigrantes se amontoam paredes-meias com populares e uma certa classe média portuguesa. Entre revisões de temas e a mudança imagética dos Deolinda, que foram limpando o xaile e as boinas iniciais, sente-se a influência da multiculturalidade de Lisboa. Ela ficou surpreendida e transigiu, reconhecendo o ecletismo.

Pois, na sua reinvenção, os Deolinda vão de metro agora até à Alameda e às Avenidas Novas. No vídeo delicioso que partilho, o ‘drama’ muito português da queixa sobre o clima (que desperta a inveja em toda a Europa) é explorado com ironia, com recurso a um som e a um guarda-roupa vintage. Fui levado de imediato para o mundo dos óculos de sol da Natércia Barreto. Fica o som de Verão, para tocar à guitarra e ser cantado entre amigos, naquelas tardes em que não há sol para ninguém. Já todos rogámos pragas a São Pedro pela mesma razão…

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