Hillary: a marcha triunfal passa a triatlo

Um político de 74 anos pode ser fixe, desde que nos faça acreditar.

Hillary enfrenta problemas sérios. Há 8 anos, ela ganhou o New Hampshire, numa corrida em que mais tarde cairia perante a oratória invulgarmente boa de Obama. Dois sonhos iam debater-se numa marcha comum pela igualdade: eleger um presidente negro ou eleger a primeira mulher para o cargo. Não era ainda o seu tempo, Hillary não teve outra opção senão esperar outra oportunidade. Entretanto ocupou funções e reforçou um outro trunfo: a experiência no exercício do poder. O mesmo que Obama reduziu a pó com o argumento do discernimento: de que serve ter experiência se não se sabe o que se está a fazer? O exemplo flagrante era o da guerra no Iraque, a que ele se opôs e ela apoiou, receando acusações de anti-patriotismo, mas que atolou os EUA no Médio Oriente e agravaram a segurança do país e o seu endividamento externo galopante.

O regresso prometia. Uma máquina de campanha oleada, financiamento avultado, o apoio do marido e a mobilização das estruturas democratas deveriam permitir uma passeata até à nomeação do Partido Democrata. Os putativos oponentes no seu campo afastaram-se todos, não quiseram lidar com a marcha triunfal. A campanha foi bem montada, com a candidata a explorar as mesmas cartas: género e experiência. Acrescia que a recuperação económica feita por Obama servia de trunfo ao virtuosismo de um liberalismo pragmático – e ela associou-se a esse sucesso. Calculou que o acordo feito com Obama de lhe suceder na Presidência se estendera ao país. Mas uma mensagem pouco clara e muito centrada nas questões de género encontrou um eleitorado reactivo face aos poderosos do sistema social e político – e a sua campanha perdeu dinâmica.

feel-the-bern3Bernie Sanders, o outsider, desvalorizado pelos média e pelo sistema partidário, era associado ao socialismo, o que na América é sinónimo de insulto. Mas o americano médio, confrontado com os efeitos da globalização no seu salário e emprego e do liberalismo no fosso entre ricos e pobres, vê nas ideias de Bernie não uma ameaça, mas uma resposta de razoabilidade. Obama salvou a economia americana da grave crise de 2008, mas o fosso entre o 1% mais rico e o resto da população manteve-se. Até a reforma emblemática dos cuidados de saúde (Obamacare) ficou aquém dos objectivos iniciais pela pressão de lobbys da saúde e dos seguros através dos dois partidos. O ambiente da política na América revela uma degradação da democracia que grassa no Ocidente, com o financiamento do sistema político a cruzar-se com a legislação feita à medida dos grandes interesses.

A desconfiança da geração mais nova na política e nas instituições viu no discurso de desafio ao sistema do idoso de 74 anos a sua melhor expressão. O desejo de um retorno a uma pureza imaginada do país antes de Nixon fez o resto. Enquanto Hillary é polémica pelas suas contradições, a polémica do ‘radicalismo’ de Bernie é anulada pela sua enorme coerência. Sanders é um político de carreira, mas tem um registo imaculado e consistente de décadas na defesa de desfavorecidos e combate à plutocracia americana. Os resultados no Iowa mostravam uma adesão superior de Bernie no eleitorado mais jovem que apanhou todos de surpresa – mas não deveria. A ingenuidade com que os jovens Iowa pollseleitores olham a política é exactamente o que os faz rejeitá-la – até que um político lhes pareça tão autêntico como desejam.

A força de Bernie Sanders está na mensagem clara, mono-temática, que é repetida à exaustão: taxar os ricos, reverter a transformação da América numa oligarquia; estimular o emprego e o equilíbrio social com medidas de Estado-Providência na saúde e na educação; a defesa do proteccionismo comercial. O apelo a uma revolução política responde aos anseios e frustrações da classe média destruída pelo subprime e de uma classe trabalhadora que não se identifica com uma voz do espectro político. Hillary tentou fazer uma campanha centrada na igualdade de género, mas Bernie virou o debate para a iniquidade social que atinge tanto homens e mulheres pelo país fora.

Nada disto é novo, se pensarmos por um segundo. Afinal de contas, Roosevelt, que emerge após a enorme crise de 1929-32, empregou medidas de controlo do sistema financeiro e de reconstrução da classe média do país que são comparáveis às propostas de Sanders. Para o padrão do Tea Party, Roosevelt também poderia ser apelidado de comunista. Mas as duas candidaturas, ambas após graves crises desestabilizadoras do sistema social do país, são a expressão da vitalidade daquela democracia liberal. É dentro do sistema, com propostas para a sua revitalização, que a alternativa emerge. Este discurso reforça o crédito numa conjuntura em que, nomeado candidato democrata, Sanders defrontaria um republicano tido como o símbolo da América rica dos negócios, seja ele Trump, Bush ou qualquer outro. Mas essa característica também traça uma linha distintiva perante Hillary.

Hillary-Clinton_1_3267645bA experiência de Hillary nos corredores do poder é ao mesmo tempo um dos seus trunfos e uma das suas fraquezas. Por um lado, são inúmeras as suas contradições de posicionamento ao longo de anos. Por outro lado, isso dá-lhe enormes responsabilidades. Se teve a influência sobre a política nacional todo este tempo, que fez ela para impedir o aperto da classe média? Como se distingue esta candidata democrata, cuja campanha depende tanto do financiamento das grandes empresas do país? O seu percurso está ligado ao sistema político-económico pós-Guerra Fria que permitiu o clube do 1%. Ela está acostumada a lidar com esse clube, a chegar a acordos com ele e a favorecê-lo. Já fez jantares de gala com ele, já teve almoços grátis e outros almoços não tão grátis. Numa campanha sobre iniquidade social, como é que Hillary, que soube usar e viver do sistema, pode convencer os eleitores que as suas preocupações com este tema são reais?

Sanders desarma Hillary também com as tácticas de Obama em 2008. O seu sucesso no uso dessas tácticas mostra que a candidata não analisou os erros anteriores e viu na vitória de Obama um fenómeno que não se repetiria… Tanto a campanha de Sanders como a de Obama em 2008 assentam num movimento de pequenos doadores contra os grandes doadores, mobilizando uma massa de voluntários jovens e empenhados versus máquinas de marketing profissionais, com enorme impacto nas redes sociais para contornar o sistema mediático. Também no discurso, Sanders explora ideias de Obama: a urgência da mudança (Change we believe in era o lema de Obama), uma campanha colectiva (Obama clamava Yes We Can e Bernie fala em Nós, a nossa vitória). Hillary recorda a sua experiência e faz da condição feminina o sinal da sua exclusão do sistema (nenhuma dos argumentos funcionou no passado e são inconsistentes quando confrontados). Mas Hillary também faz um erro quando se coloca como líder e o povo como liderado, numa época em que a ideia de envolvimento é essencial para gerar vínculos entre eleitor e eleito. O seu lema Fighting for You é um tiro ao lado que a derrota face a um Yes, We Can já deveria ter corrigido.

bernie win

O empate do Iowa e a vitória de Bernie em New Hampshire dão-lhe uma trajectória de subida real. Se Hillary quer reverter esta tendência, terá de passar ao ataque. Ele sempre se recusou a fazê-lo, mantendo a folha limpa, embora saiba que os críticos dela, democratas republicanos, são um apoio directo. Esta assimetria faz o jogo tornar-se mais difícil para Hillary. Como é que se ataca um adversário e se mantém um ar positivo perante o eleitorado? Da última vez, quando Hillary se mostrou agressiva com Obama, o sorriso de plástico que ela consegue manter em quase todas as ocasiões perdeu credibilidade. O mesmo sorriso que a Geração Y não suporta. Num tempo em que a excitação e a diversão estão virtualmente à distância de um botão, parece que agora estão interessados em algo que lhes parece mais autêntico. A future to believe in, diz Sanders.

A corrida está apenas no início e as primárias de Março na grande noite da Super Terça-Feira hão-de decidi-la – tal como há 8 anos. Mas ver Sanders vencer New Hampshire com uma diferença de 20 pontos é algo que ninguém acreditaria há dois meses. O socialista independente recentemente tornado democrata não esconde os seus objectivos e isso é uma das suas forças. Um político de 74 anos pode ser fixe, desde que nos faça acreditar.

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