Uma aprendizagem lenta e dura

Os acordos à esquerda têm várias fragilidades. Um acordo único, de maior amplitude de compromissos e com maior clareza no seu texto transmitiria uma segurança diferente ao eleitorado e aos fazedores de opinião sobre a solidez desta convergência. Mesmo a participa-ção destes partidos no governo seria o sinal de um maior compro-misso entre todos nos bons e nos maus momentos da governação, embora isso não seja totalmente garantido. Quem não se recorda da crise irrevogável de Paulo Portas? Mas a aproximação do PS e da restante esquerda significa um salto de gigante e dá o sinal de uma estabilização que a direita não consegue apresentar.

É bastante compreensível que os acordos tenham o actual formato. Os partidos ainda não deram passos suficientes para se conhecerem, para trabalhar em conjunto e para ultrapassar a necessidade de afir-mar a sua independência e autonomia. Décadas de afrontamento e de desconfiança não se resolvem num mês de negociação e coopera-ção. E uma participação do BE ou do PCP no governo seria uma  ar-madilha terrível para dentro e para fora. Costa teria uma rebelião nas mãos se anunciasse um governo de coligação; BE e PCP teriam as suas estruturas a debater se isto era uma capitulação e abandono de certos princípios; a direita iria agitar ainda mais o papão do comu-nismo junto do eleitorado e convocaria os patrões e o sector bancá-rio para fazer pressão nacional e internacional contra essa solução. Os acordos centram-se por isso na recuperação de salários, pensões e em elementos básicos do Estado Social, como a contratação colec-tiva.jeronimo

É uma convergência para não deixar a minoria de direita. Mas é tam-bém uma revolução dentro da esquerda, que evita fazer a contrição oficial pela história recente, mas parece disposta a reparar os erros estratégicos do passado. A entrevista da Catarina Martins na RTP dá sinais dessa evolução. Toda a gente sabe que em Portugal o BE nunca faltará a um governo que está a repor rendimentos, que protege o Estado Social e que não faz privatizações. (…) Nunca abriremos porta a uma di-reita que quer vender tudo o que foi construído neste país e quer conti-nuar a desregular o trabalho e a cortar em salários e pensões. Portanto, o nosso compromisso é muito sério e muito estável. Nós queremos que is-to seja uma solução para o país.

Eu não estive nas negociações, mas imagino que na cabeça de cada um dos intervenientes tenha estado presente a experiência recente destes partidos. Em 2011, BE e PCP lançaram-se na competição eu-é-que-sou-mais-de-esquerda e anunciaram as suas moções de censura ao governo de Sócrates, deixando-o dependente de acordos à direi-ta. É verdade que a política da austeridade estava ainda no início e ninguém poderia prever onde é que ela nos levaria. Também é certo que seria muito difícil pedir a partidos como o PCP e o BE um apoio aos PECs. Mas as moções de censura seguiram-se a um discurso de Cavaco que instava ao derrube do governo e convocava a direita pa-ra o fazer. A aceleração dos acontecimentos que essas moções cria-ram abriu portas à tal direita que quer vender tudo o que foi construído neste país e quer continuar a desregular o trabalho e a cortar em salários e pensões. O povo assim o avaliou e o BE foi punido severamente nas eleições que se seguiram.delegação PS

Foi a devastação que esta direita causou que explica a mudança de táctica. Pedro Nuno Santos denuncia a radicalização da direita como factor decisivo para a iniciativa do PS de procurar um entendimento à esquerda. Mas fica claro que o convite de Catarina e as palavras de Jerónimo foram decisivas na transformação da situação política. Mariana Mortágua, hoje em entrevista ao Público, explica essa infle-xão. Uma das coisas que mais ouvimos na rua durante a última campa-nha foi: “Entendam-se!” É um apelo e, sem dúvida, uma das grandes preo-cupações das pessoas de esquerda. As pessoas sentiam que uma falta de entendimento entre as forças de esquerda permitia um reforço da direita que é possível evitar.

A transformação e abertura da posição do BE é muito evidente, que vê aqui não um mero episódio, mas a chance de criar uma fase nova na vida política portuguesa. Este é um processo novo. É preciso que seja feito com toda a calma e com a capacidade de perceber que é sólido. A preocupação de todos os partidos é que este seja um acordo sólido. (…) Houve muita honestidade a negociar. Isso prova que ninguém está neste acordo disposto a “roer a corda”. Se fosse essa a intenção, alguém teria posto neste acordo um ponto desses. Os partidos perceberam os limites da sua convergência e aceitaram negociar dentro desses limites, respei-tando o partido mais votado. A radical alteração de postura é visível quando comparada com a Catarina Martins que acusava o Livre de ser o CDS da esquerda por ter proposto a convergência dos partidos à esquerda e só via hipóteses de convergência com o PCP.

É natural que da parte do PS e dos restantes partidos haja cautelas e receios. Mas seria essencial aprofundar a convergência iniciada e vir a criar um bloco político na área da esquerda que tenha sustentação para fazer entendimentos para lá desta legislatura. Ao minuto 7 do vídeo, Pedro Nuno Santos explica o que está em cima da mesa e des-poleta a reacção tão histérica da direita portuguesa. Uma parte da di-reita portuguesa não tem medo que um governo destes corra mal. Não re-ceia nacionalizações ou ocupações de terras. Aquilo de que uma parte da direita tem medo é que resulte. É que ao fim de um ano Portugal não te-nha saído do euro, que não se tenha reestruturado a dívida e que as coi-sas tenham corrido bem. Porque nesse momento o monopólio que a di-reita hoje tem, de alianças, terminou. O que a direita queria mesmo era governar para sempre. Umas vezes sozinhos, outras vezes com a muleta do Partido Socialista. E isso não vai acontecer.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s