A histeria e o colapso

A direita não se conforma com a perda da maioria absoluta e da nova situação política do país com o acordo à esquerda. A histeria domina o comportamento dos dirigentes políticos do CDS e do PSD. Ontem, num debate inédito na SIC Notícias (nem cabiam os 5 deputados da direita e da esquerda), Nuno Melo espumava de raiva e desdém. Há uma leve esperança no discurso de vários dirigentes, mesmo do PSD, que o Presidente da República se confirme como líder desta facção e suspenda a democracia. Anseiam que Cavaco não dê posse a Costa e mantenha Passos demitido em gestão ou prepare um governo de ini-ciativa presidencial.

Uma táctica desta natureza seria um golpe político ilegal e com con-sequências imprevisíveis. Basta ter memória para perceber que ins-tituir uma prática destas mete a direita num enorme sarilho. Eu já não falo na especulação bolsista da dívida que daí adviria; nem da unificação da esquerda que isso provocaria; nem de uma situação de quase guerra civil. Sendo prosaico: se em quase todas as eleições presidenciais ganhou um candidato da esquerda em Portugal, o que acha então a direita de promover a prática de um PR só dar posse a um governo de que goste?

Não é bonito ver, mas é esclarecedor. Os que apelam ao rigor e à responsabilidade fazem estalar o verniz democrático assim que as eleições não lhes correm de feição. A histeria é completa:  Rangel perdeu o tino e anunciou no Parlamento Europeu que Portugal não cumpriria o défice definido para o país nos acordos internacionais. No palco europeu, a sua cegueira e o desnorte dão-lhe para lançar o pânico junto de instituições europeias e expor Portugal aos abutres da especulação financeira. Uma sede do PS no Porto foi incendiada. E todos os dias nas redes sociais e nos média, dirigentes, juventudes partidárias, as bases dos dois partidos da direita e contas anónimas de agit-prop mantém um discurso revanchista e uma agressividade verbal como não se via há muito tempo.passos portas

Por detrás da espuma dos acontecimentos, interessa ver a mudança de estruturas. A contaminação do PSD pelo PP é evidente e isso é o sinal do triunfo de Portas, ele que quis sempre destruir e tomar o PSD de Cavaco. Só com uma bipolarização completa é que Portas se poderia tornar indispensável e levar PSD e PP a ajustamento mútuo. Portas era a direita sem complexos salazaristas e sem vergonha de se afirmar direita. O PSD era o partido nem-carne-nem-peixe, com uma atitude autoritária e saloia e políticas sociais. Foi a vitória de Passos Coelho no PSD e a sua arrogância no governo que fecharam as hipóteses de entendimento ao centro – e isso amarra o PSD a uma aliança permanente com Portas. A fusão de quadros, de clientelas e de discurso político é quase inevitável, se a coligação continuar a funcionar na oposição. Para interromper tal coisa, só se houver uma mudança de liderança no PSD. E Passos prometeu ficar a lutar na oposição…

Mas, serenemos. A prioridade política de Cavaco Silva é… o próprio Cavaco Silva! Depois de um violento ataque e de deixar na História o registo da sua veemente oposição a uma solução de convergência à esquerda, Cavaco não vai querer ficar com o ónus da crise política e económica que isso implica. Estará confiante, aliás, de que a união à esquerda não é nem estável, nem duradoura. E quererá voltar um dia para nos dizer a todos Eu tinha razão!

Cavaco, que não gosta nem de Passos e muito menos de Portas, sabe que cumprir as normas da Constituição (e aí refugiar a sua decisão) é a forma mais segura de liquidar três adversários de uma só vez – o PS incluído, caso isto corra mal. E Marcelo agradece. Uma vez entregue o poder a Costa, as energias da direita virar-se-ão para garantir a eleição de um Presidente da sua área política. Para irmos de novo a eleições.

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