Companhias e companheiros

José Pacheco Pereira consagrou-se como um dos intelectuais mais influentes da nossa praça. Os apoios que granjeia e vai perdendo na sociedade portuguesa oscilam consoante as circunstâncias e o grupo estabelecido no poder. O evidente desvio do PSD para a direita dos últimos 15 anos tornou-o frequentemente crítico das direcções do partido em que milita. E isso atraiu para ele as palavras duras no seu próprio sector político e o sorriso de apoio à esquerda. Mas não vale a pena confundir na essência o que ele é. Ele próprio não confunde. A miséria habitua os homens a estranhos companheiros de cama…

O Pacheco Pereira não é de esquerda nem seu líder espiritual, como com frequência acusam os seus detractores. Ao invés dos apoiantes da direita extremista, exibe um pensamento mais livre. Não esconde o seu plano: derrotar esta direita (e implicitamente o predomínio do CDS como parceiro governativo), restaurar o centro político, reabrir as condições de cooperação estreita entre PSD e PS. Esse foi o eixo que empastelou o regime e que teve um papel central na construção do Portugal democrático… Mais facilmente ele será o líder espiritual da direita com cabeça…

O processo de revolução à direita começou dentro do próprio PSD e visou primeiro livrarem-se dos velhos, a elite que emergiu durante o cavaquismo e lá ficou. A direita nova, blogueira e tea-partista queria ter a sua hora e retirou o espaço a esse grupo dentro do PSD. É por isso que ela tem oposição interna. Também Manuela Ferreira Leite sabe que a democracia precisa do centro político e compromissos (que preservem um nível suficiente de direitos sociais) para evitar uma radicalização social.

O centro político, num país débil como Portugal, assenta no Estado e no apoio à classe média e aos sectores mais pobres. Isso não chega para desenvolver o país, é evidente. Portugal precisa de condições externas favoráveis também. Mas o governo caído optou por uma estratégia ideológica de engenharia social que lançou o país numa profunda divisão. Não sendo resolvida, só podia dar em confronto total. É disso que Pacheco Pereira fala numa excelente entrevista feita pelo Nuno Ramos de Almeida. Ele busca o equilíbrio, não uma mudança. A derrota da direita é essencial para o seu próprio ajuste de orientação e uma maior moderação.

Em momentos de grande antagonismo, é possível encontrar novas companhias que apoiem transitoriamente uma mudança de governo para reabilitar o status quo pré-crise que sempre conheceram. Mas o status quo português antes da crise é uma sociedade estratificada e profundamente desigual. O dramatismo destes últimos anos foi o reforço da lógica de desigualdade como meio de dominação social e fim da política. Nenhuma maioria assente em partidos de esquerda pode verdadeiramente defender o regresso a essa tipo de realidade. A nova maioria tem de ter uma componente de transformação. Em breve, essas diferenças de visão vão emergir.

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