Tenham calma, é a Constituição a funcionar…

Depois do cagaço, a fúria! A Direita, os comentadores e muita gente instalada neste sistema da mesmice acordou para a ideia do bluff de Catarina, Jerónimo e Costa poder originar uma solução de governo estável do país. Está já tudo a carpir pela desgraça, o fim da ordem e da paz, vaticinando a loucura dos mercados e a sublevação popular e militar. Dentro do PS, os que desconfiam da estabilidade do acordo e os que sempre cooperaram com sucesso com o rotativismo, estão a agitar-se. Já há demissões no Secretariado do PS e o líder da UGT prestou-se ao papel de defender a direita com os argumentos da legitimidade dos seus 38%…

É o fim das certezas que serenaram a Direita em 40 anos. O PS ficou preso ao jogo de apelar a uma maioria sua ou depender de e/ou vir a apoiar a direita. A articulação contaminou PS e PSD, que ficaram cúmplices e indiferenciados. É fácil ver ex-dirigentes ou militantes históricos a apoiar o partido oposto quando discordam da linha política do seu próprio partido. O convívio permanente tornou a oposição entre PS e PSD um ritual e a criação de ‘alternativas’ é feita nos detalhes. Cooperando de forma contínua, estes dois grandes partidos partilham práticas políticas e até ideário. O cimento para a homogeneização foi a construção europeia que, após a capitulação do Bloco de Leste e a emergência do New Labour, se tornou uma máquina pró-liberalização sem contraponto. Qual é a diferença de fundo entre um Assis e uma Ferreira Leite hoje em dia, afinal?

A experiência de oposição feroz entre PS e as esquerdas quer no Parlamento, quer em inúmeras disputas autárquicas (onde o PCP ainda tem poder relevante, apesar do recuo dos últimos 20 anos), justifica a tensão e o receio que um grupo significativo de dirigentes e militantes do PS alimenta em relação a um acordo com a esquerda portuguesa. Mas João Soares, ex-autarca de Lisboa em coligação com a CDU, veio já defender o acordo com o PCP na sua página do Facebook: (…) os comunistas com quem trabalhei e o PCP com quem estive coligado, enquanto socialista militante e dirigente do PS, são portugueses honrados, trabalhadores empenhados e dedicados, que respeitam a palavra dada e honram os compromissos que assumem. Não são, na minha modesta opinião fundada também na observação e vivência pessoal, hoje, nem serão no futuro, nenhuma ameaça ao nosso sistema democrático e às suas regras.

O encontro entre o PS e o BE parece ter corrido bem e se isto era um exercício de bluff da parte do PS, António Costa não sairá bem desta fotografia. O BE deve ter sido surpreendido pela resposta positiva do PCP a um entendimento e isso justifica o adiamento do encontro. Mesmo que a reunião inconclusiva do PS e da coligação (e que durou três horas, mas sem discussão de propostas…) seja o palco principal de todo este processo, a verdade é que foram derrubados muros na esquerda que dificilmente podem ser reerguidos. E assim, a forma de constituir governos nunca mais será tão linear como o PSD quer.

Digo PSD, porque para o PP o exercício de negociação é o pão nosso de cada dia. Paulo Portas, liderando um partido que fez da presença no governo a razão de existência, sabe que a formação do governo em Portugal depende do apoio maioritário no Parlamento. E que a existência dos partidos menores se faz da luta contra a bipolarização que a ideia de candidatura a primeiro-ministro tenta promover, ainda que desrespeitando a Constituição. No debate entre Passos e Portas em 2011, o último explica: importa ter parceiros no Parlamento para acordos de maioria. Ora, com quem é que a direita reaccionária do governo se vai coligar, depois de romper as ponte com um centro político que pudesse acomodar o PS? Se a coligação se pode fazer à direita, mesmo que em 2011 o PSD não tivesse mais votos que o PS, porque é que a convergência à esquerda não se pode fazer?

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