Cavaco, o mau da fita

Ao chamar Passos para preparar a formação de um governo, sem o indigitar, mas também sem ouvir os restantes partidos, Cavaco Silva deu dois tiros no seu porta-aviões e ainda comprometeu a margem reduzida que tinha para influenciar o processo. Em fim de mandato, sem recurso à ‘bomba atómica’ para detonar novas eleições, Cavaco não podia fazer erros. E fez dos grandes. O PS reagiu acusando-o de favorecer o partido de origem e de um desvio presidencial.

Cavaco não poderia adivinhar que o PS quisesse falar com o PCP e o BE e muito menos que Jerónimo de Sousa viesse a fazer a declaração política histórica da semana passada. O PCP, de uma penada, fez a libertação de toda a esquerda portuguesa de um jogo viciado que amputou a democracia portuguesa e limitou as opções dos portugueses desde 1975. E com isso alterou completamente o actual processo de formação de governo – e os futuros.

Costa avançou tanto nas conversações e os outros partidos fizeram tantas declarações públicas de disponibilidade que a única maneira de todos se desembaraçarem dos bluffs iniciais é que Cavaco venha de novo a dar um tiro em cada pé e recuse empossar um governo PS-BE-PCP. O Presidente poderá discordar da solução, poderá até usar o seu cargo como palanque para publicamente se opor à solução, mas isso só servirá para reduzir ainda mais o seu frágil capital de aprovação popular.

Cavaco, o mau da fita, poderá ‘salvar’ o PS desta experiência, mas terá ainda assim que contar com o seu mais vivo protesto público oficial. Na batalha eleitoral das presidenciais, o candidato do centro-direita não se pode dar ao luxo de ter um antecessor ligado ao PSD tido como autoritário e inflexível, com provas de favorecimento do seu partido, quer durante este governo, quer no fim do consulado de Sócrates. É que Marcelo foi ,tal como Cavaco, Presidente do PSD…

Cavaco, o mau da fita, dificilmente poderá prolongar o jogo muito tempo, se os partidos quiserem mesmo formar um governo a três. Cavaco pode convidar Passos; claro que este pode negociar com o PS o abrandamento da austeridade; o programa do governo pode passar. Mas a maioria de esquerda no Parlamento será implacável, destruindo o orçamento e chamando à responsabilidade o PS pela cooperação com esta direita. Mesmo que a coligação inicie funções, quanto tempo poderá durar? E mesmo que PS ficasse a liderar a oposição no Parlamento, pode Costa ficar quieto se o problema da maioria negativa for removido pelos seus partidos à esquerda?

É por isso que da reunião de hoje pode sair mais um derrotado das eleições de 2015. Cavaco, o silencioso de 2011, que deixou a crise política crescer e tomar conta do país, fazendo o governo do PS cair quando estávamos à beira da bancarrota; Cavaco, o defensor deste governo e das suas tentativas de perverter a Constituição; Cavaco, o urdidor do Bloco Central, que vem apelando desde há 2 anos por um acordo entre PS e direita; pode muito bem ser obrigado a empossar um governo de esquerda em Portugal antes de terminar o mandato. Ironia do destino: ele ganhou a sua primeira maioria absoluta após a descrença de Mário Soares na convergência à esquerda entre PS, PCP e PRD.

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