Sobre a obscenidade, é fazer as contas

Pires de Lima voltou a presentear-nos com as suas amáveis e sempre eloquentes palavras, falando da aproximação entre PS, PCP e BE como uma obscenidade política. Pires de Lima, é ainda o Ministro da Economia do país e, do alto do seu conhecimento de números, fala-nos de contas.

O ministro agora é oráculo do sentido de voto dos portugueses. No futuro podemos pô-lo a ler o tarot nas manhãs da SIC. Para Pires de Lima, os votos nos partidos que destruíram o nosso sistema político e social são um voto contra os partidos da esquerda portuguesa. Diz: Houve 90% das pessoas que não votaram no BE. Houve também 90% que não votaram no PCP, que não quiseram os dois partidos no Governo. Esta lógica perigosa transforma as eleições uma escolha ‘contra’ as outras opções e não ‘pela’ opção escolhida. Quer dizer, os votantes do PSD votariam contra toda a esquerda (percebe-se), mas também o fariam contra a opção ao lado, nomeadamente o CDS. Isso não faz das coligações ou acordos entre os dirigentes desses partidos uma traição à ‘intenção’ dos seus eleitores?

Na verdade, o Pires está em choque, coitado: o sistema político está afinal a funcionar e a proporcionalidade permite a cooperação entre todos os partidos. Só faltava que (…), estivessem no Governo aqueles em que 90% dos portugueses não votaram. Vamos lá então considerar o argumento como válido (e que o spin tratou já de difundir). O CDS é contra a participação dos pequenos partidos com um peso eleitoral limitado?cds cdu be

 

Compare-se os resultados eleitorais das legislativas desde 1975. O CDS teve até ao final dos anos 80 resultados miseráveis, bem abaixo dos que apresentou o PCP. Os anos 90 são um momento de viragem em que assistimos a um equilíbrio entre a CDU e o PP e depois a uma ultrapassagem por este a partir de 2009. O PP fez coligação com o PSD em 2002 e governou, apesar de ter tido apenas 8,7% (o que, no mundo de Pires de Lima, significa ter recebido 91,3% votos contra dos restantes portugueses).

Mais significativo é verificar que o nascimento do BE não significou uma divisão do campo da Esquerda em Portugal, como se temia no PCP e se desejava no PS e na Direita. Pelo contrário, o BE trouxe votantes para o campo da Esquerda e isso, aliás, mata muitos dos argumentos dos que criticam o nascimento de partidos novos como divisionismo, sem observar se eles representam exactamente as mesmas realidades ou podem acrescentar esquerda à esquerda. Serve isto para dizer que, no espectro político português, o sector da esquerda que foi arredado e se excluiu do poder todos estes anos é uma força bem mais vasta que aquilo que o PP consegue agrupar. E é exactamente isso que Pires de Lima e toda a Direita temem neste momento. É bem caso para dizer, pela boca morre o Pires de Lima.cds esquerda

 

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