Foi Cavaco que pediu uma coligação a três

Isto da memória é uma coisa tramada. Revolve-me o espírito e não me deixa descansar. E enquanto espero que estes dias de magia não sejam apenas de ilusionismo e de pós-de-perlimpimpim, enquanto aguardo por um acordo entre PCP, BE e PS que transforme a maioria de esquerda parlamentar num governo centrado na recuperação da economia, do Estado Social e dos direitos dos portugueses, revejo com um sorriso nos lábios a comunicação de Cavaco Silva no dia 22 de Julho.

Cavaco marcou as eleições para o dia 4 de Outubro. Sob uma chuva de críticas, o Presidente da Direita anunciava as suas condições e os recados para definir o futuro político do país. Cavaco exigia acordo. Portugal deveria dispor de condições de estabilidade política e de governabilidade na próxima legislatura. (…) É extremamente desejável que o próximo governo disponha de apoio maioritário e consistente na AR. Para alcançar a estabilidade, é frequente na Europa formarem-se governos de coligação. Dos 28 governos dos países da União Europeia, 23 são governos de coligação de dois ou mais partidos. E lembrou que não lhe cabia intervir na resolução desta questão: Cabe aos partidos a responsabilidade pelo processo de negociação, visando assegurar uma solução governativa estável e credível que disponha de apoio maioritário no Parlamento.cavaco marca eleições

Ora, tal encomenda dificilmente põe o PS confortável com o apoio à coligação de direita mais radical que alguma vez governou o país. A divergência entre PS e PSD, que costuma ser retórica, foi cavada de forma profunda pelo revanchismo da última governação. A limpeza que a direita fez atingiu as construções socialistas do consulado de Sócrates, mas também as que fizeram décadas antes, na educação, na saúde e na segurança social – estes são traços identitários de uma parte importante das bases do PS. Não estranhei, por isso, que o PS chamasse António Arnaut para mandatário nacional, invocando o Estado Social como desígnio, legado e identidade do partido.

O revanchismo contra o Estado Social eclipsou o espaço do centro político, polarizando o eleitorado entre a culpabilização de Sócrates pela bancarrota do país (e legitimando a acção do governo) e uma exigência de mudança de política. O PS, se fosse maioria, tentaria a recuperação do espaço do centro político, com o apoio da direita na área económica e o apoio da esquerda na área social. Este resultado impede a cooperação estreita do PS com a direita, porque o obriga à vinculação a um dos lados da polarização – e isso ameaça o PS com uma eventual pasokização.Catarina-Martins

Ora, a táctica do convite do BE e da CDU para uma convergência à esquerda impede o álibi a Costa e ao PS. O bluff ganhou seriedade agora que o PCP mostrou que apoia uma solução de governo do PS, sem exigências difíceis. E entre as hostes socialistas são cada vez mais os apelos a uma convergência real, o que torna tudo plausível – e radicalmente novo. Os acontecimentos confrontam o BE com uma situação de facto. O convite, lançado sem convicção no debate, pode mesmo exigir a disponibilidade para viabilizar um governo apoiado à esquerda. Por isso mesmo, o BE adiou a reunião e vai preparar-se tecnicamente (não estavam preparados antes?…).

Voltemos a Cavaco. Foi ele que exigiu uma maioria estável na AR para a formação de um governo. Nos cenários da direita, o PS estaria sempre amarrado à coligação, vencendo ou perdendo as eleições. Business as usual, pensaram, excluindo uma hipótese nunca tentada em 40 anos de regime. Se Costa, Passos e Jerónimo se entenderem, fazem História, desbloqueiam a esquerda portuguesa e dão uma lição a Cavaco, mesmo enquanto lhe fazem a vontade. A coligação a três pode estar em preparação em Portugal, tal como na Finlândia. Mas à esquerda.

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