Qual é a pressa? Qual é a pressa?

Ontem, Cavaco, a fingir que era Presidente, anunciou a encomenda a Passos Coelho para desenvolver diligências com vista a avaliar as possibilidades de constituir uma solução governativa que assegure a estabilidade política e a governabilidade do país. Convidar Passos sem ouvir os partidos e sem o indigitar como primeiro-ministro, é uma habilidade que sai fora das competências dadas pela Constituição.

É que Cavaco está sem poderes para definir coisa alguma no futuro do país. Sem poderes e sem prestígio. Depois de 10 anos de ausência e de conivência com a direita mais reaccionária que tivemos, quem é que vai ouvir um Presidente em fim de mandato? A indignação que a pressa deste Presidente impopular em nomear um governo que não tem maioria no Parlamento está a gerar pode ajudar a virar o feitiço contra o feiticeiro.

Cavaco, em 2009, não forçou o diálogo entre partidos e deixou o PSD livre para derrubar o governo do PS de Sócrates quando fosse conveniente, mas agora evita que o PS use a mesma táctica. Cavaco, que esteve em silêncio em 2011 durante mais de uma semana, após o PSD anunciar o voto contra o PEC4 que provocaria a queda do governo, decide agora salvar o governo da sua preferência. Começa a recear-se que o PS tente a convergência à esquerda. Em todo o lado, a direita tenta acelerar o processo e cortar esse caminho.

Cavaco ameaça não dar posse a um governo de esquerda e decidiu desenterrar as posições de princípio do PCP e do BE em matéria de política externa. O Governo a empossar pelo Presidente da República deverá dar aos portugueses garantias firmes de que respeitará os compromissos internacionais historicamente assumidos pelo Estado Português e as grandes opções estratégicas adoptadas pelo País desde a instauração do regime democrático e sufragadas, nestas eleições, pela esmagadora maioria dos cidadãos. (…) Exige-se a observância das obrigações decorrentes da participação nas organizações internacionais de defesa colectiva, como a NATO, e da adesão plena à União Europeia e à Zona Euro, assim como o aprofundamento da relação transatlântica e o desenvolvimento dos laços privilegiados com os Estados de expressão portuguesa, nomeadamente no âmbito da CPLP.

Ora, nada disto esteve em debate na campanha eleitoral. Se é certo que PCP e BE gostariam de rever a nossa participação na NATO e na zona euro e se opõem aos Estados Unidos, o mandato recebido pelos eleitores dificilmente tem algo a ver com isto. Tanto o PS como o BE e a CDU receberam votos para romper com a austeridade – essa é a plataforma para o entendimento entre estas forças, para já. Expulsar a direita, arrumar a casa, salvar o Estado Social, recuperar direitos e dignidade, definir um plano de combate no âmbito europeu para a reestruturação e democratização do Euro e das várias instituições europeias.

O que Cavaco nos está a dizer é que os 20% que votaram na CDU e no BE não têm direito a ter um papel no governo do país. Como se o processo eleitoral fosse mera formalidade para indigitar os mesmos de sempre. Esta tentativa de explorar as divergências entre PS e os partidos à sua esquerda é acção desesperada: é um apelo directo aos sectores à direita no PS para um bloqueio à formação de um governo que traga uma fase nova na vida política portuguesa.  Mas pode ter o efeito oposto. As condições definidas são difíceis, porque a maioria do povo deu o voto de facto aos partidos anti-austeridade. Seria muito difícil que o PS viesse agora viabilizar um governo da direita sem que isso significasse a sua morte.

Qual é verdadeiramente a alternativa para o PS? Pode viabilizar um governo de direita – e ter o eleitorado no seu flanco mais à esquerda engolido pelo BE. Pode fazer de carochinha e andar um ano a fazer uma cooperação à esquerda e à direita – e ser acusado de bloquear a governação, provocando uma crise e a reforçada maioria absoluta da direita. E pode ensaiar uma convergência à esquerda, ou fazendo uma ruptura com o rotativismo ao centro e um bloqueio de 40 anos, ou esvaziando o que pode ser visto como um bluff do BE e da CDU se isso não se concretizar por responsabilidade destes. Haja bom senso e coragem de parte a parte.

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