Perder, ganhar, ter razão

É uma realidade. O projecto Livre/Tempo de Avançar foi derrotado na noite de domingo. Não conseguiu eleger nenhum deputado e até perdeu 30.000 votos relativamente às eleições europeias. Face aos objectivos iniciais, o desapontamento é grande. Estas eleições foram feitas num ambiente muito difícil, de bipolarização, de aumento dos partidos e fragmentação do voto, com apagamento mediático das candidaturas alternativas, sujeitas à pressão do voto útil, fosse no PS ou no reforço do BE. Em círculos sem chance de eleição pelo Livre, o voto útil do eleitorado noutra formação de esquerda dominou. Mas há outras razões para o fracasso, algumas no âmbito interno, que fará sentido debater depois.

Estive fora da política desde 2002, quando a ligação ao PCP findou e a dureza da experiência num partido em ambiente de guerra civil me recomendava o recato. Durante anos não me revi em nenhum dos partidos, incluindo o BE, cujo funcionamento me parecia ser o de um conflito permanente e institucionalizado entre as suas facções. Isso foi evidente na liderança bicéfala e quando a Convenção do BE não foi capaz de eleger um líder. Sofrendo como os outros portugueses os anos de bloqueio da Esquerda e de governação intermitente da Direita, ansiei por um projecto que promovesse a convergência, que teria falhas mas também muitas oportunidades.util votar livre

Quando vi o Livre a tentar desafiar este estado de coisas, tratei de sair da clausura. Em rescaldo eleitoral contam-se os votos e não as vitórias morais. Mas não dou o meu voto, o meu tempo e o empenho como perdidos. O discurso sobre a urgência de uma convergência de esquerda nunca fez tanto sentido como agora. A campanha foi feita pela positiva sem atacar as outras formações de esquerda. O sentido ético, a consciência ecológica e o nascimento de núcleos em todo o país revelam uma dinâmica importante e uma implantação muito rápida. E a experiência de construção de um programa eleitoral de forma horizontal ou a definição de listas através das primárias é uma semente interessante para uma democratização da vida interna dos partidos.

Mas vamos ao nó político de sempre. O Livre/Tempo de Avançar falhou na eleição de deputados, mas tinha razão: quando dizia que a maioria social de esquerda deve dar lugar a uma maioria política; quando propôs uma Agenda Inadiável, para que os vários partidos de esquerda assumissem um acordo em redor de questões centrais como a reestruturação da dívida, a defesa das pensões e salários, a redistribuição da carga fiscal com alívio do IVA e do IRS, a suspensão das privatizações, para dizer ao eleitorado em que termos é que uma maioria de esquerda poderia vir a governar este país. O que temos de novo é uma maioria de esquerda no Parlamento, bloqueada e surda, com um governo de direita com Passos e Portas.

A diferença é que a composição desta maioria de esquerda mudou. Catarina Martins teve grande eficácia, nos debates e no contacto com os eleitores através dos média. O BE não parou no Verão e teve uma campanha forte. As mulheres especializaram-se: Catarina fez a comunicação política e Mariana Mortágua tratou da técnica. Era clara a mensagem: para o combate à austeridade, não se conta com o PS. Exposto o plano do PS na área das pensões, as intenções de voto no BE subiram. As duas boas comunicadoras não assustam o eleitor e algum era até votante na direita em 2011. Querendo mudar, este voto recusa premiar o PS, que culpa pela bancarrota do país.catarina 2

E Costa andou toda a campanha acossado pelo próprio programa e os disparates dos cartazes. Desalinhado o discurso anti-austeridade e as medidas liberais na segurança social e no emprego, aumentou a desconfiança face ao PS. As sondagens não mudaram e Costa deixou de ser alternativa. Para manter o país na mesmice, vale mais votar na esquerda, mesmo sem resultar numa solução de governo. A situação resultante dos votos é de facto difícil e pode mesmo resultar numa pasokização do PS. Veremos nos próximos anos.

É com agrado que vejo a reviravolta do BE: a porta-voz Catarina Martins a insistir com o PS para formar um governo à esquerda, com a maioria parlamentar obtida no domingo. O convite feito no debate com Costa surpreendeu. Estou sem saber se é sério ou uma jogada para esmagar ainda mais o PS na fase 2 da campanha eleitoral que teremos durante um ano. Se for sério, estou profundamente feliz com a reviravolta. Foi Catarina Martins que disse ser impossível uma coligação ou governo com o PS, ainda recentemente. Lembro-me que fez uma caricatura do Livre que apelidou de ‘CDS da esquerda’, quando este defendia um diálogo nas forças de esquerda para criar um governo alternativo à coligação de direita.

Dá que pensar. O Livre/Tempo de Avançar falhou o seu objectivo operacional (eleger deputados), mas o objectivo central está de pé: criar um governo de esquerda em Portugal. Se isso acontecer, esta semente germinou além dos votos obtidos no dia 4 de Outubro. Por favor, alguém vá acordar o Costa. Ele ainda pode fazer alguma coisa útil por este país.

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