Leituras sobre os resultados à Esquerda

Como referi anteriormente, os comentadores ficam sempre a olhar percentagens e esquecem que o essencial é olhar os números reais das votações para perceber as tendências do eleitorado. Depois do choque inicial com os resultados de domingo, convém observar o que de facto está a acontecer no campo da esquerda em Portugal.

Surgiram vários partidos novos, fruto do descontentamento ou com o sistema político ou com a capacidade dos partidos estabelecidos de resolver os problemas graves com que nos confrontamos. Mas o sistema quase não se alterou. O PS e os partidos da direita mantêm 69% dos votos (3.719.412 votos), excluindo as contas da emigração (que lhes serão favoráveis). Os partidos à esquerda do PS têm os resultados globais mais fortes de sempre, mas não graças a qualquer uma das novas formações. O Livre, em que tinha esperanças, perdeu votação face aos resultados obtidos nas eleições europeias.

A dureza dos anos de austeridade polarizou o eleitorado que já terá votado PS ou que aceitaria votar neste como alternativa. Uns ficam na direita, com o receio de ‘instabilidade’ ou de ‘voltar para trás’. O caso Sócrates, a ausência de uma alternativa credível (com discurso à esquerda e programa liberal) e a campanha do medo funcionaram. Outros votaram à esquerda, reforçando quem capitalizou a revolta face à austeridade: o BE tem uma enorme vitória após o desastre de 2011, que recupera quase plenamente a grande votação de 2009 (teve menos 8 mil votos agora).

Mas interessa observar o esvaziamento do PS. Entre 2005 e 2011, o PS perdeu 1 milhão de votos (1.021.965 votos, para ser exacto). Já o tinha observado aqui. Agora apenas recupera 173.933 votos, o que é… poucochinho. Seguro teria razão ao dizer que a confiança no PS pelos eleitores estava pelas ruas da amargura, que os resultados nas europeias eram positivos, que não era uma questão de liderança.

Os partidos à esquerda do PS têm o melhor resultado de sempre com os seus 1 milhão e 100 mil votos (1.112.923 votos), em especial no BE que passou de 289 mil votos para 549 mil votos (uma subida de 260 mil votos). Até que ponto é sustentável este reforço do BE, feito em parte pelo eleitorado que poderá voltar a votar PS, não se sabe. Mas para já o que parece claro é que a indefinição ideológica do PS, que foi a arma de conquista do centro, e a chantagem do voto útil, usada tantas vezes para prender um voto de centro-esquerda, deixaram de ser eficazes. Em tempos de dureza e polarização, parece que a clareza de posições é preferível à hesitação.

O que impressiona ainda mais neste contexto é que a transferência de votos se faz entre a população votante sem reduzir a abstenção. O crescimento da abstenção é imparável e nenhuma das forças políticas à esquerda, exceptuando o PS (cujo crescimento em 2005 marcou a redução efectiva da abstenção) está a conseguir grandes resultados neste campo. Os votos nulos e brancos, que duplicaram em 20 anos, mantiveram-se perto dos 200.000 votos.Catarina-Martins-BE

Ora, se o PS perdeu essencialmente votos à esquerda, porque é que vai optar pela viabilização da governação à direita? É evidente que a guerra interna está instalada no PS, mas por isso mesmo esta seria a oportunidade para quebrar o isolamento entre PS e a sua esquerda e o ciclo interminável de governação da direita e do centro, fazendo a entrada do BE e do PCP nas soluções de governo.

Catarina Martins, que tem estado particularmente bem nos últimos dois meses, já fez o convite mais do que uma vez. Jerónimo fez clara a disponibilidade para fazer um acordo. Não se sabe se esta vontade é genuína ou é jogada para a fase 2 da campanha eleitoral que se avizinha, tentando entalar o PS. Mas, ou Costa larga o tacticismo, ou vamos arriscar-nos a uma nova maioria absoluta de direita dentro de um ano, quando der jeito à coligação.

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