A escala da demagogia xenófoba

O último mês tem sido bastante duro para a minha férrea crença na espécie humana. Tenho a convicção de que, apesar de acidentes de percurso e desastres desnecessários, temos força para, em conjunto, ultrapassar os nossos medos e a propensão para a mesquinhez. Mas a reacção à crise humanitária da Síria está a testar essa convicção.

Nas redes sociais, as latrinas do século XXI, abundam comentários reveladores do estado de degradação intelectual a que chegaram as nossas mentes. Partilham-se perfeitos disparates e agita-se uma irracionalidade típica de sociedades em crise como a que vivemos.

1. Refugiados bonzinhos, imigrantes ladrões
Primeiro, foi o esforço (bem intencionado, talvez) de distinguir o fenómeno dos refugiados da imigração. Migrante e refugiado têm diferentes estatutos jurídicos e essa distinção aumenta a pressão sobre as autoridades nacionais e europeias para agir e dá ao público razões para maior solidariedade. A abordagem táctica preocupou-me desde o início: reconhece a existência de um preconceito e contorna-o com eficácia, mas não o desmonta. Nesse sentido, até lhe dá legitimidade. Não, não, estes não são imigrantes, repara, não vêm tomar os nossos empregos, são ‘refugiados’. Num mundo global e interdependente, aceitamos que circulem mercadorias, capitais e estrangeiros com dinheiro para um visto gold, mas demonizamos a migração como desejo ilegítimo. É preciso serenar-nos a todos que são apenas refugiados. Há algo profundamente errado aqui.lages

2. A relação custo-benefício
Depois foi a vez dos políticos nacionais revelarem a incapacidade de estar à altura do momento histórico que vivemos. Quatro milhões de refugiados, escapando a uma guerra civil na Síria (mas com origens  na cimeira das Lages e no ataque ao Iraque, com a desestabilização da região que se seguiu), a maior crise humanitária deste século – e o que nos diz Passos Coelho? À medida que formos recuperando a economia e o emprego iremos oferecer melhores condições para acolher mais imigrantes e mais refugiados. Para Passos, ligar o pagamento de juros da dívida às condições da economia nacional é um tabu. Mas é critério perfeitamente aceitável, parece-lhe, para definir limites à aceitação de refugiados de guerra (e ele acrescenta, imigrantes).

Esta lógica de merceeiro não encontra na oposição uma resposta à altura, por mais que lha peçam. António Costa quis combater o medo e a resistência quanto à aceitação dos refugiados. Mas fê-lo do modo mais atabalhoado possível. O argumento é o da utilidade, pois pode-se pô-los a fazer o que os portugueses não querem: Quando eu vejo o estado em que está a nossa floresta, quando vejo os autarcas da zona do pinhal, do interior, a queixarem-se da falta de mão de obra para fazer a manutenção do pinhal: ‘mas está aqui tanta população que está habituada a trabalho agrícola, que tem capacidade de trabalhar nesta floresta,” por que razão não são integradas em “aldeias que estão construídas, onde as habitações existem, onde os equipamentos existem e estão a ser abandonadas pela desertificação.

A mundividência de Costa deixa-me atónito. Há uma relação quase linear entre a condição de refugiado e a de pobre, entre país em via de desenvolvimento e mundo rural e entre a solidariedade para com vítimas de guerra e a utilidade que estes devem demonstrar. Costa fala deste fluxo como uma grande oportunidade para Portugal: para os portugueses, o trabalho rural será duro e mal pago, mas para sírio deve ser fabuloso; as localidades do interior estão sem emprego e sem serviços do Estado, mas para sírio chega e sobra.

Costa ainda tenta emendar a mão, dizendo que não se deve procurar acolher apenas os refugiados altamente qualificados (não sei quem é que alguma vez propôs isso…), que nem todos serão cientistas, pelo que é necessário procurar meios para os integrar com dignidade e sem dependerem de subsídios. Mas o que Costa faz é inaugurar o discurso oficial sobre uma espécie de escala social de portugueses ricos, portugueses pobres e estrangeiros a quem damos a mão porque fogem de uma guerra e na medida em que sejam úteis.

Não se pense que o mal é exclusivamente nosso. O mercador triunfa há muito na mente de outros povos. Conceitos de utilidade e relação custo-benefício campeiam quando nos recordam que Steve Jobs é descendente de imigrantes sírios. Como se um refugiado de guerra precisasse do sucesso de um compatriota para legitimar o seu direito a abrigo.

Merkel, para surpresa de todos e vergonha de Passos e de Costa, decidiu aceitar todos os sírios, sem questionar se são refugiados ou migrantes, sem perguntar o seu grau académico e sem esperar que tenham experiência em conservação florestal. A reacção xenófoba no país e a pressão da oposição podem levar à revisão da abertura, mas para já a Merkel da frase ‘A política é dura’ é uma agradável surpresa e está a portar-se à altura.syria kurdistan

3. Les portugais d’abord!
Encadeado como um elo da mesma lógica de pensamento, chegou a descoberta de que Portugal enfrenta uma grave crise, tem muitos sem-abrigo e gente em condição de profunda pobreza. A grande pergunta nas redes sociais é a da aplicação da tal escala social: Não deveríamos ajudar os nossos pobres primeiro em vez desses estrangeiros?

É preciso respirar fundo três vezes e esperar que a calma regresse para poder responder à lógica Le Pen com alguma racionalidade. É que as organizações que estão no terreno a apoiar os refugiados são as mesmas que tratam do apoio diário de milhares de portugueses pobres. É que o caso dos refugiados não tem comparação, pois não é uma questão de pobreza, e sim de sobrevivência. É que os que se alarmam muito agora com os pobres portugueses não são vistos a colaborar dia após dia, ano após ano, em acções de solidariedade ou na luta sindical e política contra as desigualdades em Portugal.

É que a vida do sírio não vale menos que a do sem-abrigo, nem a do sem-abrigo vale menos do que a do trabalhador do call center, nem a deste vale menos que a do dirigente da função pública, nem a sua vale menos que a do empresário, nem a dele é menor que a do maior banqueiro nacional. E por isso poupem na demagogia e nas escalas sociais e vão ganhar alguma humanidade.apoio sem abrigo

4. Pega na tua espada, os mouros vêm aí!
Depois vem a teoria do choque de civilizações e do receio do choque de culturas. Do problema da falta de higiene ou de civilização dos tais estrangeiros. E ainda, claro, a promessa de que este fluxo traz com ele fundamentalismo religioso, terrorismo ameaçador e uma grande invasão da Europa disfarçada de refugiados. A sério que 250.000 sírios são uma grande invasão, quando a União Europeia congrega no seu seio mais de 500 milhões de habitantes?…

Reproduzem-se imagens de um rasto de lixo alegadamente deixado na estrada por onde passaram refugiados, mas não me conseguem mostrar onde estava o caixote do lixo que eles evitaram – estão a sugerir que os refugiados carreguem esse lixo nos 200 km a pé que alguns fizeram de Budapeste à fronteira? Alguém pergunta a religião ou nacionalidade aos adeptos do final da Taça de Portugal que deixam os arredores do Estádio do Jamor na mais abjecta imundice?

A teoria de este fluxo ser manobra para inserir jihadistas na Europa é de tal modo radical que não merece comentário. Claro que pode ser que algum terrorista venha no grupo, mas precisam de uma melhor cobertura para a xenofobia. Guterres já disse e bem que quem quer pôr bombas vem de avião, não se mete em barcos que podem afundar.

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6 thoughts on “A escala da demagogia xenófoba

  1. Deolinda Reis diz:

    Óptimo artigo, exactamente como penso, e estou incrédula com a quantidade de “amigos” que tenho na rede social (e não só) que tentam camuflar a xenofobia com a repentina preocupação dos sem-abrigo em Portugal!! Definitivamente, nunca chegamos a conhecer verdadeiramente as pessoas!!!

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  2. Cruzado diz:

    Não passas de um estúpido. Se gostas tanto deles vai para o pais deles, leva a tua namorada, a tua mãe e as mulheres toda da tua familia. Até te digo, vai para o meio dos refugiados e leva uma dessas mulheres com uma t-shirt vestida a mostrar braços e de calções a mostrar pernas e depois vem para aqui vomitar essa treta toda de texto. Estou solidário, mas que vão ser acolhidos para paises que tem a mesma cultura e religião e nos deixem a nós em paz. Pesquisa desde quando existiram cruzadas. Esse tipo de mentalidade dessa religião é tudo menos tolerante. Agora faz-me um favor continua a vomitar esses textos que é sempre bonito.

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    • Bruno Carapinha diz:

      As mulheres na Síria não usam burqa, mas mesmo que usassem, se fugissem de uma guerra, mereceriam asilo na Europa. É interessante que assine como Cruzado, essa figura da história europeia que exactamente não ficou nos países da sua cultura e religião, como exige aos refugiados, e foi invadir a Palestina. Mas entre si e os Cruzados há uma diferença fundamental: nenhum daqueles homens que foi fazer a guerra o fazia atrás do teclado e com identidade escondida.

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  3. Francisco Osório diz:

    O dedo foi apontado, cimeira das Lages, com 4 bandalhos que já´deviam de estar no TPI a responder pelos crimes praticados

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