Aylan

O pequeno Aylan não era um bebé especial. Não fazia gracinhas que os outros bebés não fizessem. Ele não era diferente de milhares que cruzam as fronteiras a pé ou nos braços dos pais, dos que acordaram para a vida no terror da guerra, da fome e da predação humana. Não era diferente dos muitos que morreram antes, no país de origem ou pelo caminho, de fome, desidratação, debilidade. Dos que morrem  todos os dias, nas águas do Mediterrâneo.

O pequeno Aylan não era um bebé especial.  É a sua esmagadora indiferenciação que o torna tão importante. Porque nos recorda que Aylan está morto, mas muitos, muitos mais, podem ainda ser salvos. Têm de ser salvos.

A Syrian refugee holds a baby in a refug...A Syrian refugee holds a baby in a refugee camp set in the town of Harmanli, south-east of Sofia on November 12, 2013. Bulgaria's asylum centres are severely overcrowded after the arrival of almost 10,000 refugees this year, half of them Syrian. The influx has fuelled anti-immigrant sentiment in a country already struggling with dire poverty. AFP PHOTO / NIKOLAY DOYCHINOVNIKOLAY DOYCHINOV/AFP/Getty Images

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O pequeno Aylan tornou-se uma estrela. Foi fotografado, já sem vida, numa praia do Mediterrâneo. E essa imagem virou o espelho para os europeus se verem a si mesmos, fechados e divididos pela cultura do medo e da competição. Nunca houve tanta riqueza criada no mundo como agora, mas a Europa receia que os estrangeiros, refugiados ou imigrantes, ponham em causa o seu conforto. Fomos levados, por décadas de propaganda neoliberal e anos de rapina e destruição social, à clausura egoísta de cada indivíduo, contaminada pela resignação face à situação pessoal e pela indiferença quanto à dos outros.

O pequeno Aylan não queria ser famoso, nem queria as lágrimas de crocodilo de povos que embarcaram na aventura da jihad cristã de Bush. Queria, seguramente, estar com a sua família, na terra onde nasceu, a brincar com os seus vizinhos e amigos. O Ocidente tem muitas responsabilidades na situação actual e na grande guerra civil do Médio Oriente que desencadeou, desestabilizando a região. Mas o nojo face a petições e protestos xenófobos ou ao comportamento dos governos e polícias na Macedónia e na Hungria não pode levar a uma resposta igualmente emotiva. A Europa não vai poder acolher todos os refugiados. Na verdade, a solução para o caos criado não é a saída dos sírios do seu próprio país. Por muito que isso assuste, mais cedo ou mais tarde, forças externas vão intervir no conflito.150113-mak-syria-map-jan-embed

Para já, o continente tem de assumir responsabilidades pela forma como promoveu crises que não ajudou a resolver – nem que seja por estar cercado por elas, da Ucrânia ao sul da Europa, do Afeganistão ao Magrebe. A regulação deste fluxo tem de ser feita na partida, com postos de acolhimento, pondo fim ao negócio criminoso da travessia ilegal do Mediterrâneo, garantindo a passagem segura e integração destas populações nos países europeus. O vídeo a seguir mostra que não somos nós quem está verdadeiramente a lidar com esta grave crise humanitária.

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