A praga da direita à solta na Europa

Cameron falou da crise que rodeia os imigrantes concentrados em Calais como praga de gente que atravessou o Mediterrâneo em busca de uma vida melhor, querendo vir para a Grã-Bretanha porque aqui há empregos, é uma economia em crescimento e um sítio fantástico para viver. Mas temos de proteger as nossas fronteiras (…)De uma penada, Cameron mostra a forma desumana e objectificada com que fala dos imigrantes e do orgulho pateta no suposto carácter especial do seu país. Cameron vai mais longe – ele está sobretudo preocupado com a paz, a segurança e a tranquilidade dos… veraneantes britânicos!

Organizações de direitos humanos e partidos na oposição fizeram um coro de vozes em protesto contra os termos de Cameron e o choque ultrapassou fronteiras. Têm morrido vários imigrantes na sua tentativa de passar a fronteira para este país que, por estar fora de Schengen, mantém o controlo das suas fronteiras. No baluarte de Calais já várias vezes desmantelaram campos de refugiados. Mas Cameron já pediu mais vedações e reforço de segurança.

 

A Europa está a enfrentar uma vaga de imigração e pedidos de asilo sem precedente, mas não foi capaz de criar uma política comum e abrangente, nem um dispositivo de resposta comum e nem sequer está a tentar resolver os conflitos que a rodeiam – e que em breve a envolverão de forma imprevisível. O tom de Cameron, que há muito tempo promete deportações e uma política restritiva de imigração, é um esforço de canalizar para os Conservadores o apoio dos eleitores seduzidos pela demagogia do UKIP e de outros movimentos contra os estrangeiros. Tal discurso baseia-se em preconceitos e não na realidade. Em comparação com o resto da Europa, o país do leite e do mel de Cameron será pouco atractivo para os requerentes de asilo.asylum_applications_eu

O termo praga usado por Cameron não é inocente – visa polarizar os eleitores à volta de uma resposta punitiva contra a imigração. E, a prazo, contra os estrangeiros. Os imigrantes são no discurso e na acção de um político com as responsabilidades de Cameron uma questão de segurança.  Se não há ideia de uma resposta europeia para este problema, a verdade é que esta direita à solta e que nos dirige, converge bastante na atitude: deporte-se, reprima-se, façam-se muros mais altos. No Reino Unido, na Alemanha, mas também em países menos expostos aos média internacionais e ao público global.

A demonização dos estrangeiros, antes relegada para o discurso dos radicais de extrema-direita, tornou-se mainstream. E isto arrepia na vida política europeia. As repostas a esta vaga de imigração não são fáceis, na ausência de uma visão comum e com a desarticulação de políticas nacionais. Até um país federal como a América, baseado na inclusão de várias culturas num melting pot, dá sinais de perigosos retrocessos. Lá, como cá, há cuidados especiais na qualificação dos imigrantes como aliens, ilegais, ou como problema de segurança. As pessoas respondem de forma negativa à ideia de imigrantes ilegais.

Wanda Sykes, num memorável espectáculo de stand up comedy em Washington em 2010 desmonta, num certo passo, a obscenidade e a hipocrisia das nossas sociedades de bem-estar e consumo ocidental que beneficiam do contributo dos imigrantes; que compactuam com o seu estatuto sub-legal; que exploram a força de trabalho e a mais-valia (e baixa de preço) que ela providencia – mas que depois nega o estatuto humano, um reconhecimento de similaridade e igualdade. Ela troçava, com bastante graça, que não se tratavam de ilegais, mas sim sem-papéis. Uma pessoa não entram em casa e diz ‘hum, acho que alguém me entrou em casa e aspirou-a’… Fica o excerto.

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