A estratégia de Schäuble

O processo de integração europeia avançou bastante até à criação do euro, mas nunca arriscou o passo de se tornar num sistema mais federal. Por opção nacionalista ou receio de descontrolo de um grande Leviatã, os poderes nacionais e os povos europeus fizeram coligações claras no sentido de evitar esse caminho. O desastre dos referendos da França e da Holanda, por exemplo, juntaram forças de oposição veemente da direita e da esquerda contra tal avanço.

As instituições europeias, claro está, ficaram em terra de ninguém: com demasiadas competências para os países poderem controlar os processos, com poderes e legitimidade insuficientes para constituir um governo de todos os povos. Quando a crise surgiu, o Conselho tomou a iniciativa e atirou para o canto a Comissão Barroso. O eixo franco-alemão de Sarkozy e Merkel afirmou o predomínio do vector intergovernamental na resolução de problemas. O apagamento de Barroso anulou o vector europeu – sem intervenção ou autonomia. Holande veio cheio de promessas, mas Merkel fê-lo ir a Berlim. E de lá fê-lo sair encolhido. O eixo franco-alemão cedia ao predomínio dos mais fortes. E tudo o resto, ‘instituições europeias’ incluídas, seriam correia de transmissão e cortina de fumo para a defesa dos interesses dos mais fortes. merkel sarkozy hollande

Mas o agudizar da crise e o repúdio da opinião pública pela ‘solução’ para a Grécia (e o que isso revela do modelo intergovernamental da UE) abrem portas a um discurso e uma proposta mais federalista da Europa. Juncker não é Barroso: ex-presidente do Eurogrupo, foi um membro destacado do PPE e tem o peso de não vir nem do sul, nem do leste. A ideia de reestruturar a dívida e os conflitos com Draghi e com as iniciativas de Juncker mostram a evolução face ao dogma criado e imposto no Conselho Europeu pela Alemanha – é a nova dinâmica de reforço da Comissão Europeia como meio de resolver o diferendo entre Estados.

Quebrar o sistema em que imperam os mais fortes é minar os meios de controlo que a Alemanha já detém. O modelo actual é o seu maior aliado. A velha proposta francesa de um governo económico da UE foi recuperada de uma forma atabalhoada, restrita a uma vanguarda de países da zona euro. E Draghi e Juncker avançarão em breve com revisões aos mecanismos e às políticas actuais – incluindo a questão de reestruturação da dívida. As mudanças podem cair por terra, pois basta que as eleições nacionais e a falta de consenso prolonguem o torpor da UE e a empurrem para a dissolução do euro.

Schäuble faz por isso um contra-ataque: a Comissão Europeia deve perder a Regulação da Concorrência e do Mercado Interno. Estas áreas estão e sempre estiveram no centro das funções da Comissão. Retirá-las seria o mesmo que aniquilar este órgão. É um claro aviso a Juncker (e à França): a Alemanha está centrada na defesa dos seus interesses estritos e isso passa por impedir o aprofundamento da UE e por manter o seu predomínio no concerto das nações. Toda uma teoria de realismo político a operar através de Schäuble. A expedita voz do dono, Dijsselbloem, já prometeu incluir na agenda da Presidência da UE da Holanda esta questão (e outras medidas para esvaziar a Comissão Europeia).SchauebleWorship-1

Mas é preciso ver o histórico deste senhor, a proposta não é real. Aliás, Schauble já negou as interpretações do relatório (logo depois de o tornar público…). O ministro das finanças alemão quer dar um golpe na Comissão Europeia e numa tentativa de maior integração. Para que tudo fique igual, é preciso propor um recuo gigantesco do adversário. E depois, magnânimo, ceder e deixar-nos então no bloqueio em que vivemos. O ministro das finanças alemão prefere a ambiguidade do status quo: os países juntos em regime de disciplina luterana, ‘instituições’ a trabalhar para o interesse das maiorias criadas no Conselho, mas sem autonomia face a este, com a garantia de um largo espaço de manobra dos países mais poderosos para impor a sua agenda.

Muito bem, senhor Schäuble. Numa historiografia nacional, noutro período da história alemã, o ministro seria celebrado como um dos autores do engrandecimento do país. Quantos dos reis, ministros e políticos obtiveram vantagens louvadas na historiografia nacional – sem que ela reflicta que esses triunfos foram obtidos por perdas de outro povo? Mas no contexto da integração europeia, o autor de um resultado win-loose será avaliado pelo desastre que causou a outros – e eventualmente à Alemanha, que lucrou até hoje com a UE. Uma lógica de defesa do interesse nacional tão estrita há-de desencadear uma lógica similar nos países afectados. Mais cedo ou mais tarde.

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