Isto ainda não é o da Joana…

O percurso de Joana Amaral Dias é acidentado e rocambolesco. Mas foi durante muito tempo o seu percurso – individual. Entrando no BE, apoiando a candidatura de Soares em 2005, saindo do BE, passando pelo Juntos Podemos – esse percurso diz-lhe respeito a si. Quando se vê na contingência de criar e dinamizar um movimento, isso já significa o envolvimento de muito mais gente no mesmo tipo de circuito acidentado. E divertido. Muito divertido.

Hoje no Público lia-se que o Agir incluía agora na coligação o MAS – Movimento de Alternativa Socialista do Gil Garcia. É bom que desenvolvam parcerias os partidos que queiram sair da obscuridade e irrelevância política dos seus 500, 5.000 ou 15.000 votos. Mas as parcerias só são significantes e representam eleitores se traduzem programas comuns que não defraudam os campos em convergência. E isso não se percebe em nenhuma destas movimentações.

Juntos Tinha Sido Bom
No fim de 2014, o Juntos Podemos pensa a formação de um partido político para as eleições legislativas. Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida destacam-se na proposta. Nessa assembleia, participou Gil Garcia do MAS, mas não tomou a palavra. Logo no início de 2015, veio a ruptura: Joana e Nuno saem do Juntos Podemos e até tentam a sua dissolução, acusando o MAS de infiltrar o movimento em formação. A linha de Joana e Nuno reclama o velho discurso anti-partidos: Era implícito que a presença de partidos políticos organizados não faria sentido na criação de um movimento que se queria apenas de cidadãos, dizia o seu comunicado.

As coisas não correram de feição. Os resistentes continuaram com o movimento e até registaram o nome, impedindo Joana de criar outra organização com o mesmo nome. O Juntos Podemos realizou a sua segunda assembleia no Porto ainda em Janeiro e a intenção de criar um partido manteve-se, mas não conheço desenvolvimentos. Claro que o desconforto era mútuo. Joana assumia um protagonismo que eclipsava qualquer proposta política, cuja duvidosa consistência não condicionava, de facto, a sua acção no futuro. Não havia intenção de Joana se submeter a ‘um colectivo de trabalho sem líderes’, como o movimento defenderia. Esta era uma colisão à espera de data.

Apesar da expectativa interna de que não precisavam das estrelas, a verdade é que o Juntos Podemos colapsou. Joana, sem pestanejar, aliou-se ao PTP-Partido Trabalhista Português, uma forma expedita de candidatar-se à AR sem fazer um partido. A verdadeira natureza da movimentação de Joana expunha-se à luz do dia – uma caminhada para o Parlamento. Mas isso não era seguro: era preciso criar uma plataforma eleitoral bastante ampla para lá chegar. A medida para avaliar toda a jogada passa a ser a da eficácia e não a da proposta.

Juntos e à Molhada
Primeiro, esvazia e ‘populiza’ a proposta política. Não interessa se és de esquerda, de direita, de centro ou não te reconheces em lugar nenhum, o que interessa é a tua vontade de participar nesta ruptura popular e construir uma verdadeira democracia. Afastando conotação ideológica e reduzindo o programa a linhas demagógicas simplistas, Joana caça os salpicos do voto de protesto para subir à AR. Não há proposta de alternativa política real, nem quanto a medidas, nem quanto a meios. Nuno fala de generalidades: a afirmação de que com corrupção não há democracia, que os portugueses têm o direito de escolher o modelo económico sob o qual vivem, a defesa dos serviços públicos como a saúde, educação, segurança social ou justiça condigna e a questão de democracia e da necessidade das pessoas se sentirem incluídas na democracia. Se souberem de opositores a tal ‘programa político’, por favor avisem…

Depois, convida e aborda meio mundo, para garantir a base eleitoral suficiente. Tivemos reuniões com o PAN, MPT, com o PND, com o PPM e o PPV. Todas as reuniões correram bem, era para se fazer uma coligação em conjunto, mas chega a hora da verdade e as pessoas estão mais preocupadas com os lugares e consideram que ainda é cedo. Parece que o carisma de Joana e o esvaziamento político não deu para seduzir os partidos da direita contactados. Mas tanta reunião resultou em alguma coisa. Uma coligação assinada entre o PTP e o PDA-Partido Democrático do Atlântico (uma formação política de direita que deu apoio a Manuel Alegre pela sua defesa da autonomia regional) foi o avanço conseguido.  

Joana não ficaria por aqui. A coligação Agir anunciava em Junho ter o apoio de várias organizações: “Nova Governação”, “Somos Santa Maria da Feira”, “Somos Lamas”, Instituto dos Bairros Sociais, Movimento contra as SCUT, Movimento dos Brasileiros votantes em Portugal. Na assinatura do acordo de coligação, terão estado presentes, como convidados, representantes dos movimentos “Nós Cidadãos” e Partido Unido dos Reformados e Pensionistas. Cabe ali tudo, está visto, tudo o que permita concentrar votos.Agir

Mas o melhor viria depois. Primeiro, Joana Amaral Dias torna-se secretária-geral do PTP. Para alguém tão crítica do monopólio dos partidos sobre a participação política, tem um certo encanto que Joana não tenha resistido à oportunidade de se tornar líder de um deles. E um mês depois, a coligação sofre nova alteração. Era a vez de sair o PDA (por razões burocráticas, por não entregar os papéis necessários no Tribunal Constitucional…) e entrar… o MAS de Gil Garcia!  O mesmo, claro, que levou ao conflito no seio do Juntos Podemos, à saída de Joana e Nuno, à acusação de infiltração. Parece que, agora que Joana tem o seu próprio partido, o MAS já não é uma ameaça para as suas estratégias.

Juntos para quê?
Se Joana precisa de transporte para as suas ambições pessoais, as organizações aderentes querem usá-la para alargar a base eleitoral. Esta relação de parasitismo tornou-se simbiótica e há-de funcionar até ao dia 4 de Outubro. Mas o que vai resultar daqui? A contradição interna de discurso é exemplar: Apesar de Joana Amaral Dias ter vindo sempre a insistir que o Agir não se situa nem à esquerda nem à direita, o líder do MAS, Gil Garcia, explica que se juntou à coligação precisamente para que a esquerda surja unida nas legislativas, para não permitir que sejam sempre PSD, CDS e PS a governarem, reporta o Público. Quanto tempo ficariam juntos Joana Amaral Dias, Gil Garcia e José Manuel Coelho se viessem a ser eleitos em Lisboa, Porto e Madeira?

Joana vocifera contra os poderosos e os corruptos, mas não explica como pretende fazer esse combate, nem com quem. A sua proposta é estéril e vazia e redunda no oportunismo que emerge sempre em fases de degradação do sistema político e social. O comentário que fez sobre a disposição do Livre/Tempo de Avançar para criar uma plataforma de entendimento à esquerda é revelador. Porque o ódio ao PS, que evidentemente tem responsabilidades na crise que vivemos, não a leva a esboçar uma estratégia de saída da situação de bloqueio político que vivemos. E porque Joana procura ignorar que a proposta da Agenda Inadiável do Livre/Tempo de Avançar se dirige a toda a Esquerda e não ao PS em particular.

Joana está nisto por si mesma. Não surpreende a sua resposta sobre uma candidatura a Belém. Depois do Parlamento, vai manter-se na crista da onda – independentemente do que suceda aos portugueses, cujos problemas não merecem reflexão estruturada ou proposta de resolução concreta. Tudo isto é sintoma de uma personalização da política que arrepia. Mas por mais táctica que ela e os movimentos que agregou venham a desenvolver, a decisão caberá na mesma aos eleitores. E pela análise do seu discurso e deste percurso, pelo uso do voto consciente, o povo português pode defender-se de mais um fenómeno de demagogia e auto-promoção. Afinal de contas, isto ainda não é o da Joana.

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