A pequenez e a mentira em Louçã

Francisco Louçã acaba de acusar na SIC Notícias a direcção do Livre/Tempo de Avançar de ter anulado votos nas eleições primárias do Porto para mudar o cabeça de lista por não gostar do resultado. Disse-o de passagem e a despropósito, quando comentava sondagens, em que saudava o intervalo 4,8%-6% de previsões para o BE. Um professor universitário. Uma pessoa que sempre fez gala em sussurrar ética e rigor com o tom de voz de seminarista, diz uma coisa destas sem explicar o contexto da decisão da Comissão de Ética e Arbitragem (não, não foi a direcção do Livre/Tempo de Avançar), que detectou uma tentativa de manipulação das eleições primárias e anulou os votos falseados.

Imaginemos que, em eleições nacionais, alguém se dirige aos correios e, ao abrigo do direito ao voto por correspondência, deposita o seu voto num envelope e o envia. Perfeitamente natural. Imaginemos agora que esse mesmo indivíduo (e candidato) se dirige à mesma estação dos correios mas, em vez de enviar um voto, envia 46, em nome dos amigos. Não sabemos se os amigos sabem o que foi depositado nos envelopes. Mas sabemos que o mesmo indivíduo confessou a acção, aliás comprovada pelo registo nos correios. O voto, sabe-o Louçã e sabemos todos, é pessoal e intransmissível. E num processo eleitoral, seja ele umas eleições nacionais, primárias ou de braço no ar; sejam elas globais, abertas, ou cozinhadas em tendências e ratificadas em Mesa Nacional, ninguém aceitaria como válidos votos feitos por interposta pessoa. Naturalmente, esses votos tiveram de ser anulados – e muito correctamente!

Eu compreendo que Louçã tenha ódios e preferências. Mas não compreendo que se sinta à vontade para mentir na televisão, como se não fosse possível desmascará-lo – e com isso tornar evidente afinal a sua gigantesca pequenez. Essa pequenez é inibidora da inteligência que se lhe reconhece e da honestidade que não se lhe encontra. Talvez tenha sido o reconhecimento da mesma pequenez pelo povo português que lhe tenha feito perder metade do grupo parlamentar em 2 anos – e 268.383 votos! – fazendo-o cair para resultados piores que os de 2005!

É preciso perceber porque grita Louçã vitória com a perspectiva de um resultado de 4-6% do BE (o intervalo de duas sondagens). Os ziguezagues de Louçã, entre o apoio a Alegre sem consultar os órgãos internos do BE (que democrata!, ainda me lembro do embaraço dos dirigentes do BE surpreendidos com a declaração de apoio de Louçã), a moção de censura a Sócrates a abrir a porta à direita (para garantir a sua absoluta distância ao PS) e a recusa em falar com a troika, explicaram ao povo português que o BE serviria para protestar e bater no peito dizendo que era muito de esquerda (muito, muito, muito!), mas não servia para resolver um único problema da sua vida.

Outra atitude teve Carvalho da Silva, que foi discutir com a troika, não por ingenuidade, mas num gesto que a população reconheceu como uma tentativa de lutar até ao fim, sem medo de se ‘conspurcar’ com a política real, com a vida real, com o esforço de resolução dos problemas dos portugueses.

Ora, abandonar a liderança do BE quando se faz desabar a votação de 9,82% para 5,17% em apenas 2 anos e ver que, após 4 anos de desorientação estratégica e de fragmentação contínua do BE talvez (talvez!!) se mantenha a percentagem de votos, já chega para Louçã. Depois do mais inacreditável governo de direita e da política mais devastadora que já encontrámos, o BE não cresce nada em relação à última votação, que foi em si mesma um desastre. Não cresce nada! Louçã aqui não vê outra coisa senão ‘Sucesso’! Mas decide mentir sobre o Livre/Tempo de Avançar, tentando enlamear o esforço e o rigor com que as primárias foram feitas, com vista a abrir a política a uma maior participação das pessoas.

Louçã teria todo o direito a discordar e a desprezar as primárias como processo de abertura. O processo não está isento de críticas. Poderia discuti-lo ou nem se dar a esse trabalho. Mas não poderia ter mentido desta maneira. Daqui, já sabemos todos com o que contar. Quando o olharmos olhos nos olhos, não nos deixemos hipnotizar pelo basilisco.
campanha

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