Envergar com orgulho a repulsa dos credores

Varoufakis é a primeira vítima do sucesso do referendo grego. Esta manhã, ainda mal refeitos com a vitória do Não no referendo dos gregos, os europeus acordam com a notícia da demissão do ministro, que o próprio anunciou no seu blogue. Deixemo-lo falar:

Logo após o anúncio dos resultados do referendo, tive conhecimento de uma certa preferência por parte de alguns participantes do Eurogrupo e de parceiros variados pela minha … “ausência” nas nossas reuniões; uma ideia que o primeiro-ministro considerou ser potencialmente útil para poder chegar a um acordo. É por esta razão que estou a deixar o Ministério das Finanças esta segunda-feira. Considero que é meu dever ajudar Alexis Tsipras a explorar, como lhe aprouver, a capital que o povo grego nos concedeu através do referendo de domingo.greecedebtallyears

Varoufakis estava em missão, ninguém dúvida. Europeísta convicto, o seu estilo truculento apaixonou o público e isolou-o no Eurogrupo. Como contradição do cinzentismo de líderes políticos que fizeram a Europa tornar-se um corpo em coma, dominado pelo medo e pelo consenso podre imposto pela ortodoxia alemã, este grego era uma clara ameaça. E ele decidiu desafiar o Eurogrupo – que logo o diminuiu como infantil, incompetente, irracional. Houve até quem manipulasse o vídeo de uma palestra dele para limitar a sua acção.

Ouvi muitas vezes o discurso contra o pavão do Varoufakis e como ele prejudicava as negociações. Talvez com alguma razão. Mas a táctica grega carecia de um polícia bom e de um polícia mau – Tsipras não poderia ser o segundo… O moderado Varoufakis passou por radical de esquerda pela espontaneidade do confronto. Com esta arquitectura europeia, não há viabilidade para uma moeda única. Pelo menos, não uma compatível com as democracias nacionais. Varoufakis usou de liberdade: entrou naquelas salas a dizer a verdade na cara aos que causam a dor no povo que representava.

A Derrota da Europa
Esta Europa. Entre os gregos a consciência de serem linha da frente de um combate mais global é forte. O governo grego pode ter salvo a Europa de si mesma. Krugman alerta para isso mesmo. A resposta cautelosa da Comissão Europeia e a reacção conjunta de Merkel e Hollande apontam para reabertura. Mesmo no campo socialista, cujos líderes decidiram ser os lacaios do PPE e do seu pensamento único, o referendo grego já provocou danos. Dijsselbloem pode muito bem tremer na cadeira em que se senta.CJLGAGYWEAExnbU

A questão grega, que conta apenas 2% do PIB europeu, nunca foi um problema económico. Os teimosos alemães queriam narrar uma história auto-justificadora dos sucessos e dos insucessos dos países: quem não se lembra da fábula da formiga e da cigarra de Merkel em 2010? A realidade diz-nos o contrário. Não surpreende, por isso, que os novos líderes gregos tenham chegado ao Eurogrupo com um ar de altivez desafiante- a de quem sabe que está a falar com gente… estúpida.

Após anos de austeridade sem fim, chega a resposta emocionada de um povo – não se cede mais, como cederam tantas vezes desde o início da crise. Este voto é a reivindicação de dignidade de um povo. E é em grande medida pela atitude desassombrada de Varoufakis que os gregos chegam a este ponto e decidem livremente – e com o apoio de tantos outros povos europeus.

A narrativa there is no alternative das instituições europeias teve uma resposta em espelho. Também para os gregos there is no alternative, pois pagar a dívida como ela foi criada e nas condições impostas pelo Eurogrupo é coisa fora da realidade. Estamos a falar de amarrar um país a um ciclo de dívida eterno sem fim à vista nas próximas cinco décadas pelo menos… Com enorme sacrifício e bastante emoção, os Gregos criaram uma realidade nova. Repesco aqui a intervenção iluminada que Pacheco Pereira fez no Fórum Lisboa no dia 2 de Julho.

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