A noite em que o Syriza se tornou o ‘governo grego’

Com um resultado estrondoso, os gregos revelaram a capacidade de resistir à campanha de intimidação que todos na Europa criaram (desde governos, Comissão Europeia, FMI e BCE) de uma forma absolutamente notável. 61% do povo mobilizou-se para apoiar o Syriza e a sua firmeza na recusa de mais austeridade aos gregos. Não estamos a falar sequer de um resultado concentrado em Atenas ou algumas cidades e regiões. Estamos a falar de vitória total.greek referendum

Merkel e as instituições apostaram no esmagamento do Syriza: o referendo seria o seu último acto. Tsipras agiu com credulidade, iludindo-se com promessas de reabertura das negociações durante a semana. Num texto muito bom, Francisco Louçã dá conta disso mesmo. Isso prejudicou a campanha pelo não, revelou desorientação estratégica do Syriza. A disponibilidade de aplicar uma austeridade moderada em troca de um acordo fragilizou a campanha. Por outro lado, deu conta da sinceridade do governo helénico em atingir um acordo. Quando o bluff se tornou evidente, o Syriza voltou às ruas em força.

Durante toda a semana, a estratégia de intimidação do povo grego dos partidários do Sim fez estragos. O fecho dos bancos e o controlo de capitais, devido à recusa do BCE em alimentar o sistema bancário de um país membro da zona Euro, assustou as pessoas. Declarações de vários políticos alemães, do próprio Juncker e do presidente do Eurogrupo reforçam a confusão: votar Não era sair do Euro. Os media gregos ajudaram: a desproporção da cobertura televisiva da campanha do Sim face à reduzida amplificação da campanha pelo Não nas televisões privadas foi óbvia. Finalmente, as sondagens: davam conta de ‘empates técnicos’ e, à beira da decisão, anunciaram mesmo a vitória do Sim.comicio final

O resultado foi o oposto: todo o espectro político, da esquerda à direita foi esmagado. Qualquer força cooperante com as propostas austeritárias dos credores será acusado de traição nacional. A saída de Samaras é o canto do cisne da estratégia das instituições. Merkel sabe que ficou sem parceiros no país. Tsipras também o sabe e convocou todos os partidos gregos para analisar os resultados. Certamente, para os obrigar a uma frente comum contra a Europa.

Ninguém – nem os burocratas em Bruxelas, os snipers de Frankfurt, o Dr. Estranhoamor de Berlim ou qualquer partido grego – poderá a partir de hoje falar do governo como ‘o Syriza’. Com 2/3 dos gregos a apoiar a ‘Coligação da Esquerda Radical’, este é o governo com mais representatividade no espaço europeu. Já não é um fenómeno que durará 6 meses: esta coligação é definitivamente o governo grego.

Hoje, Merkel e Hollande encontram-se. A Europa não quererá ceder, mas também não pode simplesmente descartar a Grécia. No dia em que isso suceder, os mercados atacarão o Euro. Todo a Zona Euro. Incluindo o Euro que a Alemanha e a França usam. E o fim do euro será, certamente, o fim da Europa. Algum destes dois quer ficar na História com essa responsabilidade?

 

 

Entretanto, o humor povoa as redes sociais com exemplos de leitura do resultado deste referendo. Partilho aqui alguns exemplos.

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