‘Evidentemente, eles vão ceder…’

Em 1937, as ameaças de Hitler aos países vizinhos cresciam de tom. O grande reagrupamento dos alemães estava em marcha e o espaço vital, essa ambição de um império de autarcia económica, exigia a subjugação dos restantes povos. Hitler tinha um plano e os seus objectivos eram conhecidos – ele detalhou-os 11 anos antes no Mein Kampf. Os europeus estavam habituados ao cinismo político: não lhes pareceu possível que aquelas ideias fossem sérias.Bundesarchiv_Bild_183-H12751,_Godesberg,_Vorbereitung_Münchener_Abkommen

A presunção de racionalidade e do uso da demagogia para iludir a opinião pública era partilhada de ambos os lados da barricada. Em 1938, Chamberlain, o novo primeiro-ministro inglês fez uma jogada inesperada – a diplomacia passaria a fazer-se entre os líderes, olhos nos olhos, e não por via epistolar ou por emissários. Tinha a certeza de que no encontro derrotaria os objectivos agressivos de Hitler. Os os alemães vão ceder, evidentemente – não querem correr o risco de uma nova guerra. Hitler tinha a mesma presunção – os ingleses não iam arriscar a guerra por uma nação criada pela ‘humilhação de Versalhes’ – Evidentemente, eles vão ceder.

A história é conhecida. Chamberlain cedeu os Sudetas aos alemães e acenou vitorioso à chegada a Inglaterra com o pacto de Munique nas mãos. O povo receava uma guerra e por isso foi aclamado à chegada. Mas a primeira ordem do primeiro-ministro foi rearmar o país (Seria louco o país parar de se rearmar até estarmos convencidos de que outros países fazem o mesmo. Assim, até ultrapassar as nossas fraquezas, não pouparemos esforços). Churchill vaticinou: Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra, e terás a guerra. MunichAgreement

Hitler engoliu os Sudetas e a seguir eliminou a Checoslováquia. O plano incluía eliminar Danzing e a Polónia, na presunção de que os ingleses nada fariam. A declaração de guerra da Inglaterra e França foi recebida pelos alemães com surpresa. E sabemos o que resultou.

A situação actual é completamente diferente, é certo. Mas há nesta guerra de nervos de 6 meses erros semelhantes. Os gregos partiram para as negociações com o Eurogrupo com a ideia (ingénua?) de que, senão por mera solidariedade, então por racionalidade e interesse próprio dos outros líderes europeus, as suas posições seriam aceites. O Syriza embateu contra uma parede sólida de recusa sem brechas (a dependência completa do financiamento externo por parte dos países liderados por sociais-democratas ditou o seu silêncio). O Partido Popular Europeu não ia tolerar uma rebelião que pusesse a nu a falsidade da narrativa única que impuseram aos seus próprios povos. A guerra contra o modelo social europeu tinha encontrado na crise um álibi perfeito.já está quase

O Eurogrupo reagiu ao governo grego com o mesmo erro de cálculo. Primeiro, a convicção de que o poder corrompe e os compromissos eleitorais se desvanecem no contacto com a realidade. Decerto, iriam quebrar o Syriza, aquilo era conversa. A cedência foi esperada várias vezes, mas cada milímetro de avanço servia para negociar as contrapartidas de modo rigoroso. Perante a resiliência dos gregos, veio a irritação e a classificação de imaturidade. Lagarde acusou: as negociações devem avançar com adultos na sala. A campanha de Varoufakis (‘eu sou como todos vós’) já o tinha diminuído antes.

Mas garoto seria um bom nome para aplicar a Dijsselbloem e às reacções explosivas perante o colega de outro governo. E garotos (irresponsáveis, arrogantes, os da pequena perfídia) foram os líderes da Europa cínica, que reagiram à vontade real dos gregos de cumprir promessas eleitorais com repúdio. A começar nos países sob intervenção (Passos Coelho e Rajoy foram grandes opositores às propostas gregas), sobretudo pelo receio de perda das eleições. Mesmo os países da Nova Europa de Bush trataram de espezinhar os gregos com arrogância. A resposta de Tsipras a Tusk, quando este anunciou game over à negociação, foi épica: a Grécia tem 1.5 milhões de desempregados, 3 milhões de pobres e milhares de famílias sem rendimentos que vivem da ajuda dos avós. Isto não é um jogo.gregos demonstram

A razão está do lado dos gregos: a dívida é impagável, sobretudo se o crescimento económico continuar sufocado pelos juros da dívida. A narrativa repetida das ‘ajudas aos Gregos’ não reflecte a realidade. Sabemos que a dívida gerada serviu para salvar o sistema bancário (especialmente os bancos alemães e franceses). E isso foi feito à custa da perda de 25% do PIB grego e de uma subida terrível do desemprego. Não há hoje economista que não reconheça o fracasso do programa de ajustamento impostos pela troika.

À beira do referendo, o FMI fez sair um relatório que indica a razoabilidade das pretensões helénicas e propõe fazer outro resgate e parar com a austeridade, promover a recuperação económica e claro reestruturar a dívida. O relatório do FMI é claro, mesmo para leigos: ou estas medidas ou a dívida será insustentável.

O problema é que a política e os políticos, longe das expectativas, não obedecem a critérios racionais. Varoufakis achou sempre que no momento final o Eurogrupo ia pensar no bem-estar da Zona Euro e arrepiar caminho. Todos nós pensámos o mesmo. E os ministros empenhados no esmagamento da Grécia diziam que eles iam desistir. Mas a dramatização destes dias mostra bem que o Euro vai obrigar a um embate no continente. Ponham o cinto!

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