Consolida, filho, consolida!

correio da manhãO conceito do bom europeu lembra a retórica provinciana que os portugueses têm de engolir desde que o célebre elogio do ‘bom aluno’ do Prof. Cavaco Silva nos foi cravado na alma como traço de identidade redentor da nossa centenária tendência para a submissão. A grande ambição de modernidade e europeísmo fez o encontro perfeito com a passividade do povo, deu-lhe roupas novas e legitimidade.

O bom aluno era afinal o progresso do ‘bom selvagem’, o estádio de desenvolvimento daquele povo rude e com bom coração, mas agora com um pouco mais de ambição. Já não ‘basta pouco, poucochinho p’ra alegrar uma existéncia singela… Só amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho, a fumegar na tijela’ parecia miserável – e Amália tinha caído fora de moda. A fórmula para o futuro radioso era ainda a da obediência – mas agora aos ‘europeus’. O Zé Mário Branco ironizava, no seu FMI a 33 rotações, que ‘o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida (…)’.

O mesmo Prof. Cavaco vem agora ensinar-nos aritmética dos povos. Se a Grécia sair, a Zona Euro passa de 19 países a 18. Simples, não é? Se não fosse triste seria de rir às gargalhadas a desgraça de líderes a que nos entregámos. Até Merkel sabe que a saída da Grécia seria o desabar do projecto europeu. Mas aposta para já no desgaste das forças anti-austeridade – e na derrota de quem ouse a rebelião contra o interesse da banca.

Merkel ambiciona que os gregos ‘consolidem’ e aguentem o desastre – se não agora, pelo menos quando o Syriza cair. Aqui, os nacionais tendem a reagir com indiferença e desprezo (inactivos e resignados) à albarda dos poderosos. Mas não parece que a massa dos orgulhosos helenos seja semelhante. A táctica de aniquilar o Syriza pode muito bem explodir nas mãos do Eurogrupo.

Duvido mesmo que o respeito pelos tratados seja valor mais central que o da dignidade de um povo seja para quem for – mesmo para os alemães. Merkel bem poderia perguntar à República de Weimar se o que resta a um país vergado por dívidas impagáveis e a arrogância estrangeira não é apenas uma reacção nacionalista. Se necessário, desesperada e destruidora. Esta Europa vai pagar caro a arrogância com que traçou uma linha vermelha entre norte e sul.

Nota: Esta citação de Merkel está no Correio da Manhã: nada como um órgão de propaganda para receber a doutrina alemã.

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