Tempo de Aprender

Vamos então a contas.
Pela primeira vez em Portugal, um movimento assumiu um processo de primárias como método de escolha dos candidatos às eleições legislativas. O Livre/Tempo de Avançar não o limitou a militantes, até porque não tem ‘militantes’. O universo inicial era de subscritores do movimento – e uma acção de subscrição pode não significar mais do que um apoio genérico sem intenção de adesão ou activismo constante. O movimento decidiu até abrir a participação nas primárias a quem não queria associar-se a ele para já e poderia sentir simplesmente simpatia por este grupo. A estratégia de ramificação e implantação social tem os seus riscos mas também tem méritos. O universo de eleitores potenciais subiu a 7.850.

quaseCom este processo de primárias, estávamos em terreno incerto. Era uma experiência que poderia correr bem ou bastante mal. Mas era grande a vontade de arriscar e tentar construir um movimento com um pressuposto de activar a participação dos cidadãos. A estratégia nem era consensual internamente (e causou polémicas e dúvidas): mesmo depois de aprovada, a iniciativa justificava cautelas.
No entanto, era tempo de experimentar.

Os detractores externos do processo tinham vários argumentos:
– motivaria uma feira de vaidades
– trazia riscos para a desagregação ideológica do movimento
– os cidadãos seriam figurantes para cartaz das figuras principais.

primáriasNa verdade, nenhum dos argumentos se verificou. Elegeram-se equipas de candidatos, que tiveram oportunidade de debater entre si os temas de campanha, sem uma competição eleitoral centrada em questões  individuais. A construção bottom-up do programa eleitoral em curso tem reforçado a coesão programática do movimento e a formação de núcleos pelo país criou espaços para aprofundamento da reflexão e acção conjuntas. O objectivo de criar uma plataforma de entendimento à esquerda, através da Agenda Inadiável, tem um papel muito relevante nessa coesão. Os resultados das primárias mostram na verdade a formação de listas mistas de gente experimentada e conhecida e de gente sem grande participação política anterior. Essas listas avançam com o pleno respeito da paridade entre homens e mulheres. Tudo somado, quem pode dizer que é pouco?!

filaMas houve outros problemas, que devem servir para aprender para o futuro. Estamos a criar um movimento que propõe fazer muito em pouquíssimo tempo. O calendário é alucinante: em 2014, criação do Livre, primárias para as europeias, eleições europeias, realização do acordo para criar o Tempo de Avançar. Em 2015, já contamos com a Convenção Cidadã, a formação do movimento, a criação de núcleos, a elaboração da Agenda Inadiável, a forte participação no 25 de Abril e noutras manifestações, a mobilização de candidatos às primárias, a realização das eleições e o apuramento de resultados – e neste ano ainda só passaram 180 dias!

Parece-me evidente que passar de 400 eleitores nas primárias do Livre para as europeias para 2.100 eleitores nas primárias do Livre/Tempo de Avançar para as legislativas é um salto impressionante. Mas perante o número de 7.850 eleitores em potência, sabe a pouco. Um processo de primárias não é o alfa e o ómega da abertura dos partidos à participação cidadã, mas é um processo interessante. Ele carece, no entanto, de tempo – tempo para os candidatos se prepararem e debaterem entre si; tempo para a estrutura verificar quem é subscritor passivo e quem é eleitor interessado; tempo para actualizar os dados; tempo para criar sistemas eleitorais electrónicos sustentáveis; tempo para eleitores conhecerem as opções e tomarem as suas decisões. Uma repetição da iniciativa terá de ser mais bem preparada e mobilizada.

mesa de voto

Depois, há questões técnicas. Contar opções múltiplas de 2.100 eleitores, que seleccionam candidatos por ordem de preferência (alguns dos quais apresentaram candidatura em três círculos) é um quebra-cabeças monumental. Mesmo com um sistema informático todo montado seria problemático. Num movimento dependente do trabalho voluntário e não pago, é um esforço hercúleo.

Finalmente, a quantidade de mesas de voto e a complexidade do voto electrónico. É perfeitamente natural que nesta fase não se tenha conseguido ter mesas em todos os distritos do país. Mas as queixas acerca do modelo de voto electrónico usado e a necessidade de tornar o movimento mais próximo dos cidadãos não podem ficar esquecidas – para se poder fazer melhor. Para cumprir o objectivo de ancorar este movimento numa efectiva participação cidadã. Já há suficientes movimentos à esquerda enquistados em equilíbrios e lógicas internas, sem contacto real com as populações.

bandeiraUma coisa é evidente. Pelo nível de oposição e comentário que o Livre/Tempo de Avançar e a sua opção por primárias já causou, pode ver-se o interesse que este processo despertou. Estamos a fazer uma experiência que será seguida por outros partidos no futuro, nem que seja de forma mitigada. Seja qual for o futuro deste movimento, ele já fez história na vida política portuguesa.

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