Menos partidos, Esquerda mais forte?

É uma ideia recorrente. Sempre que alguém lança um projecto novo no campo da Esquerda, não é a Direita que se sente ameaçada e que começa a protestar. Os principais oponentes a estes projectos são sempre os nossos mais próximos potenciais cooperantes.

Por exemplo, Marisa Matias, dizia recentemente que ‘não é preciso inventar espaços políticos novos, é uma questão de o refundar, porque está a precisar de ser refundado. Mas a soma das partes vai ser sempre inferior. Fragmento a fragmento, a esquerda vai ter sempre uma representação menor em termos nacionais.’ (Jornal I, 18 de maio de 2015).convenção

A experiência do BE atesta exactamente o contrário. Em 1995 (a última vez que a UDP e o PSR se candidataram separados), o campo que o BE representa atingiu 71.514 votos. A Esquerda juntava apenas 621 mil votos, 500 mil dos quais nas mãos da CDU. Mas em 2009, a polarização de votos permitiu ultrapassar 1 milhão de votantes na Esquerda. E, mesmo com a hecatombe eleitoral de 2011, o campo registou perto de 800 mil votos – mais 180.000 do que o total atingido em 1995. O quadro é ainda mais relevante se considerarmos que no período de 1995-2011 a abstenção cresceu mais de 1 milhão de votos!

É certo que esta entrada do BE no panorama político nacional foi acompanhada de uma erosão do peso eleitoral da CDU. Entre 1995 e 2002, a CDU perdeu 125.000 votos, tendo recuperado apenas cerca de metade da perda até 2009. Mas não parece haver correlação directa entre as votações dos dois partidos. As linhas de evolução dos resultados eleitorais não permitem fazer leitura de uma mera transferência de votos.

A verdade é que o BE não se limitou a captar algum voto da CDU; o BE ajudou a acrescentar votantes ao campo da Esquerda. Porque não pode o Livre/Tempo de Avançar ter o mesmo efeito?

O campo da Esquerda já está tomado?

A linha de argumentação de que se deve concentrar apoio nos partidos existentes, para fortalecer o sector, é antiga e foi usada por vários partidos no passado. Quando eu era membro do PCP, ouvi várias vezes este raciocínio em relação ao BE. Mas esta noção disfarça mal a ideia de que a Esquerda é um campo circunscrito e limitado, que pertence aos que chegaram primeiro, e que a entrada de novas formações serve para fazer a disputa de terreno aos instalados.

25 abrilNada disto poderia ser mais errado. O campo da Esquerda não só não ‘pertence’ aos partidos que já se formaram, como é campo aberto à representação de coisas diferentes. Uma formação política que não sustente uma visão para o país e – naturalmente! – para o exercício do poder, que não responda aos anseios de uma parte relevante da população; em suma, uma formação política que não represente algo, não terá viabilidade política. Ora, um novo partido no campo da Esquerda só é uma ameaça para os instalados se representar a mesma coisa do que os existentes. Como Catarina Martins tenta argumentar até à exaustão e, confessemos, de forma bastante mistificadora, existem diferenças entre os partidos. Qual é então o receio?

Colocado de outra forma: seria razoável exigir à UDP e ao PSR em 1999 integrar a CDU para, como diz Marisa Matias, reforçar as estruturas pré-existentes (‘se o partido já ocupa um espaço, já representa uma base da mesma luta, chega’), em vez de ir fazer o BE? Provavelmente não. E isso decorre, tenho a certeza, do facto de concluirmos que, na altura, não representavam a mesma coisa.

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