A obsessão pelos rankings

A obsessão pelos rankings

Publicado no jornal Público a 2 de Janeiro de 2012

O ensino superior português assiste há uma década à redução contínua do financiamento público da dimensão ensino. Conjugar o aperto financeiro com as reformas dos últimos oito anos resulta na transformação do sector num mercado ferozmente competitivo de estudantes e formações. Por isso, as universidades reagem com estratégias de comunicação cada vez mais profissionais. Na esperança de recrutar uma maior parcela de candidatos, as instituições (as públicas e as privadas) usam os media para aumentar a sua visibilidade e credibilidade. Mas algumas das práticas deste marketing agressivo alimentam um jogo perigoso.

Uma táctica recorrente é a promoção dos rankings como instrumentos credíveis para aferir a qualidade de cursos e instituições. Não há mês sem notícias sobre rankings internacionais e universidades portuguesas e os seus líderes multiplicam declarações. Geralmente, divulgar resultados de uma universidade num ranking provoca outra notícia com a posição de uma concorrente noutro ranking completamente diferente, lançando um ruído insuportável no espaço público. Um mero jogo mediático de universidade contra universidade e ranking contra ranking, sem benefício para a informação do público, nem correspondência com a qualidade das instituições.

Confesso que me choca que gente inteligente com formação superior queira ver o seu trabalho avaliado por instrumentos simplistas e incongruentes, que comparam instituições incomparáveis e as listam numa hierarquia assente em critérios arbitrários, variáveis e questionáveis. Quando promovem os resultados de instituições num dado ano, estão a dizer ao público para tomar os rankings como informação fiável.

students-university-graduation-600x325É preciso dizer que os rankings internacionais de instituições servem para se confirmarem a si mesmos.

1. Os rankings distorcem a visão sobre as universidades e impõem a realidade que descrevem. Vários investigadores denunciam as manipulações dos rankings, por exemplo, quando baseados em citações de artigos: prevalência de instituições anglo-saxónicas e benefício dos seus autores; clubes de citações de artigos (“eu cito-te a ti, tu citas-me a mim”); contratação de investigadores e prémios Nobel (mesmo que não leccionem lá) para inflacionar resultados, etc.

Um dos critérios centrais é a reputação internacional, que reforça a supremacia das organizações antigas e não reflecte a qualidade actual. Os académicos estrangeiros têm como referência as instituições com redes bem estabelecidas, mesmo que estas vivam uma dourada decadência.

Se os candidatos ao ensino superior, empregadores e financiadores de investigação tomarem estas listas como fiáveis, a descida na escala, mesmo que injustificada, pode alterar fluxos de pessoas e capitais. Uma apreciação limitada da realidade (porque a realidade é mais complexa do que a hierarquia do ranking) acaba por “criar realidade”. Não devido ao mérito, mas à reputação criada a uma universidade e aos investimentos que se seguem ou desaparecem.

star2. Os rankings forçam a uniformização do conceito de qualidade e uma visão de hierarquia no sector. A selecção de indicadores para comparar realidades diferentes é perversa, se resulta numa lista ordenada. Um ranking pode valorizar a dimensão das universidades (número de docentes, de estudantes, do orçamento anual, de publicações), mas isso não se traduz em qualidade. Conhecemos casos de governos que alteraram o financiamento dos seus sistemas (destruindo a sua coesão e qualidade geral) e reitores demitidos pelos resultados negativos. E há instituições em reforma para se “moldarem” aos critérios dos rankings e aos seus conceitos de qualidade.

3. Os rankings são instáveis e com metodologias pouco sérias. As alterações de indicadores são frequentes (às vezes anuais), deturpando os resultados. A situação piora, se comparam instituições de missões, estatutos jurídicos, orçamentos, áreas de investigação e ensino totalmente diferentes. Isto produz oscilações súbitas na posição das universidades avaliadas e retira sentido à comparação com as congéneres.

Mas são as próprias universidades que alimentam o jogo da reputação, misturando desempenho nos indicadores dos rankings e qualidade real. Longe de se unirem na crítica a exercícios redutores, as instituições ou mantêm o silêncio (porque desceram na listagem) ou celebram os resultados (afirmando a sua suposta credibilidade). No ano seguinte, trocando de posição, trocarão de atitude, aceitando passivamente as regras que lhes impõem.

Student-loan-debtOs rankings estarão para as universidades como as agências de rating estão para os bancos e os Estados? No emergente “mercado de ensino superior” internacional, em que a visibilidade e a reputação é meio caminho para o sucesso, quem usa os rankings para se promover aceita o seu conceito arbitrário de qualidade. Nesta Europa da crise há propostas de articular o financiamento do sector e avaliações deste género. Quando ministros decidirem concentrar fundos públicos em apenas algumas instituições. Ou quando o sector for um mercado financiado por empréstimos bancários a estudantes que custeiem propinas bem mais altas, não se admirem se estes (ou outros) rankings (nacionais ou internacionais) ajudarem a criar o mesmo processo de bolha especulativa a que assistimos noutras áreas.

Sendo prático: que estão as universidades a fazer sobre o assunto?

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s