Quinze anos de vitórias eleitoriais à Esquerda?

Na última semana de Maio, Marisa Matias e Catarina Martins do BE desenvolviam três ideias-chave: a fragmentação política à Esquerda cria dificuldades à própria Esquerda; a ideia de que o desenvolvimento do TdA resulta de problemas pessoais; a acusação de que o TdA é uma muleta do PS, por este procurar criar uma convergência para um governo à esquerda. Estas afirmações estão profundamente erradas.

Vou aqui abordar a ideia frequente de que a fragmentação política cria problemas à Esquerda. Nada como olhar para números para testar estas ideias; por isso observei as votações da Esquerda e do PS nas legislativas desde 1995. Para detectar as deslocações do eleitorado e os fenómenos de recrutamento e polarização de apoios na sociedade portuguesa, temos de olhar além das percentagens.

 O que nos dizem os números?

Opção de Voto 1995 1999 2002 2005 2009 2011
PS 2.583.755 2.385.922 2.068.584 2.588.312 2.077.238 1.566.347
BE 71.514 132.333 153.877 364.971 557.306 288.923
CDU 506.157 487.058 379.870 433.369 446.279 441.147
PCTP-MRPP 41.137 40.006 36.193 48.186 52.761 62.610
POUS 2.544 4.104 4.316 5.535 4.632 4.572
Esquerda (-PS) 621.352 663.501 574.256 852.061 1.060.978 797.252
Esquerda + PS 3.205.107 3.049.423 2.642.840 3.440.373 3.138.216 2.363.599
Brancos/Nulos 113.093 108.194 107.774 169.052 175.980 228.017
Abstenção 3.001.411 3.449.066 3.429.492 3.196.763 3.838.276 4.039.063

Há 6 notas que ressaltam de imediato a partir destes números:

  1. Entre a primeira maioria de Guterres e a derrota de Sócrates, o PS perdeu 1 milhão de votos. A maioria ‘empatada’ de 1999 já representa uma redução de 200.000 votos expressos no PS. E se, em 2005, bastam os mesmos votos de 1995 para uma maioria absoluta folgada, a seguir o PS perde apoios à razão de meio milhão por eleição.
  2. A abstenção ganha neste período 1 milhão de cidadãos. Os períodos de refluxo deste abandono da participação nas eleições coincidem com as primeiras maiorias de Guterres (1995) e de Sócrates (2005). A abstenção não evoluirá apenas em função da votação no PS; falta aqui considerar o resto dos partidos. Mas a verdade é que o início de um ciclo governativo PS coincide com um recrutamento maior de abstencionistas e os segundos mandatos e o período de oposição coincidem com um aumento significativo deste alheamento.socrates_guterres1_destaque
  1. Os partidos à esquerda do PS não parecem ter conseguido reduzir a abstenção de forma significativa ou duradoura. A recuperação lenta da CDU e o crescimento exponencial do BE em 2005 e em 2009, por exemplo, parecem resultar sobretudo da deslocação de eleitorado mobilizado e não de uma efectiva redução da abstenção. Nos segundos mandatos governativos do PS é visível a coincidência entre o aumento da abstenção e o crescimento dos partidos à Esquerda. Se forem tendências interligadas, faz-me perguntar: desilusão com a experiência de governo do PS?
  2. Um fenómeno marcante é o crescimento contínuo dos votos brancos e nulos. Em 1995, mais de 113.000 eleitores foram às urnas expressamente para votar branco ou nulo. Até 2011, este valor duplica: 228.000 cidadãos deram-se ao trabalho de registar uma recusa em votar em qualquer dos partidos concorrentes. Este valor não deve ser negligenciado, é sinal de um profundo mal-estar do eleitorado, mas também da dificuldade dos partidos da Esquerda capitalizarem esse descontentamento. Em jeito de comparação, recorde-se que o resultado do BE nesse mesmo ano ficou pelos 288.000 votos, apenas 60.000 votos acima dos brancos/nulos.

louca jeronimo

  1. A queda do PS não abriu espaço para uma polarização eleitoral nos partidos à esquerda. O efeito de subida ou descida eleitoral na Esquerda parece ser global. Aliado à aparente dificuldade da Esquerda recuperar o eleitorado abstencionista, o crescimento destes partidos parece acontecer sempre ‘à boleia’ de um reforço global do campo. Ou seja, sempre que o PS perde eleições, os partidos à sua Esquerda sofrem erosão. Quando o PS inicia um ciclo governativo, a Esquerda reforça o seu peso eleitoral: a variação da votação é positiva. Misteriosamente, estas forças nunca cooperam quando alcançam maiorias e apostam em estratégias de desgaste mútuo que, eventualmente, aceleram a mudança de ciclo político – e a redução do peso de ambos!
  2. Há uma excepção a esta regra. Os segundos mandatos do PS trazem uma deslocação de votos em direcção aos partidos à sua esquerda. O efeito é completado pela desmobilização do eleitorado, que passa à abstenção, como mencionei. Mas o processo de redução ocorre, essencialmente, com atraso. A variação da votação do PS arrasta, mais tarde ou mais cedo, toda a área da Esquerda. E, se é um facto que as perdas do PS são mais significativas que as de todos os partidos à sua Esquerda, também é verdade que essas perdas vão directamente para a abstenção e não para esses partidos.

Parece portanto que as estratégias que os partidos da Esquerda têm adoptado se mostraram infrutíferas. Nem os seus programas políticos e a sua postura face ao exercício do poder, nem a sua relação com o partido de centro-esquerda resultaram até ao presente num crescimento sustentável com condições de desafiar o status quo. O enorme descontentamento social não foi ainda transformado numa maioria política que proponha com eficácia um horizonte de mudança na política nacional.lixatroika

Ao mesmo tempo, e ao contrário da frequente ideia de segmentação do eleitorado dos dirigentes da Esquerda, os números insinuam uma interdependência grande entre PS e Esquerda. Seria ingénuo não ter isto em linha de conta na definição de uma estratégia para criar uma alternativa política que rompa com o rotativismo do centrão.

Sinais preocupantes cercam o regime político, sem a emergência de uma resposta adequada por parte da Esquerda: crescimento assustador da abstenção (e não, a responsabilidade disso não é exclusiva de quem exerceu o poder!); duplicação do número de votos brancos/nulos; incapacidade de polarizar o descontentamento com a governação PS de forma sustentada. Não, a ‘coutada’ da Esquerda não se esgota no eleitorado que já está mobilizado. Vai ser preciso rasgar horizontes mais amplos.

Anúncios

2 thoughts on “Quinze anos de vitórias eleitoriais à Esquerda?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s